Arcos dourados

A guerra entre a Geórgia e a Rússia não destruiu só vidas, edifícios e esperanças. Destruiu também uma teoria – uma teoria tola, mas com muitos seguidores.

Foi o colunista Thomas Friedman, do New York Times, que lhe deu o nome de “Teoria dos Arcos Dourados da Prevenção de Conflitos”. Na sua forma caracteristicamente simplista, resumiu-a assim: “Nunca dois países onde há lojas de hambúrgueres da McDonald’s entraram em guerra.” Os arcos dourados que são o logótipo da marca seriam assim um símbolo de paz e prosperidade. Um símbolo de paz por causa da prosperidade, e um símbolo de prosperidade por causa da paz – mas mais a primeira do que a segunda.

Ora acontece que tanto Moscovo como Tbilissi têm restaurantes McDonald’s. Os arcos dourados das hamburguerias na Geórgia e na Rússia não impediram que os dois países entrassem em guerra.

A versão menos mas igualmente ingénua da teoria – e a razão porque ela tem tantos seguidores – acredita mais ou menos nisto: que a liberalização e a globalização económicas garantem crescimento e elevam os riscos dos conflitos para todas as partes. Acontece que o crescimento, como sabemos, não é garantido. Sabemos também que há muitos motivos não-económicos para se iniciarem guerras (nacionalismo, religiões, pressão ideológica). E para dar um exemplo importante: a I Guerra Mundial veio depois de uma época de globalização, que mais do que impedir a guerra talvez até a tenha apressado. Há muitas razões para desconfiar desta ideia em política internacional.

Surpreendentemente, voltamos a encontrá-la na política interna: demasiada gente argumenta que a abertura económica traz inevitavelmente abertura política. O problema está neste “inevitavelmente”.

Muitos dos seguidores destas teorias, formais ou informais, são vagamente neoliberais. Outros (e alguns dos mesmos) são ex-marxistas que transportaram o seu determinismo histórico para a defesa do capitalismo. Outros ainda são simplesmente não-ideológicos. Creio até que a força do hábito explica muita coisa: quem se habituou a viver num país que tem consumo e democracia julga que as duas coisas vêm sempre juntas. Mas não vêm. Um país ter supermercados e bolsa de valores “como nós” não significa que tenha eleições e liberdade de imprensa “como nós”.

Garantiram-nos, por exemplo, que a abertura económica na China iria apressar o fim da sua ditadura. Na realidade, pode dizer-se que a abertura económica tem promovido a longevidade da ditadura chinesa. Não só lojas, arranha-céus e bancos coexistem tranquilamente com presos, execuções e censura como descobrimos que uma ditadura feroz e nominalmente comunista pode ser muito jeitosa para os negócios.

Inversamente, os negócios podem ser óptimos para aguentar uma ditadura: veja-se a Arábia Saudita, a Indonésia de Suharto ou o Chile de Pinochet.

Isto não quer dizer, é claro, que o fechamento económico promova abertura política. Também não quer dizer que, apesar da ditadura, o crescimento económico não seja bom para os chineses.

Quer apenas dizer que liberalismo económico e liberalismo político não são a mesma coisa nem vão sempre para o mesmo lado. Na melhor das hipóteses, são compatíveis; muitas vezes nem por isso. A Grande Ilusão dos Arcos Dourados, em política externa como em política interna, é a de que basta fazer negócios para que o resto venha atrás.

Fazer negócios pode ser bom. Mas não se entusiasmem – nem nos enganem – proclamando que fazer negócios é por si só bom para os direitos humanos ou para a liberdade dos povos, ou para a paz entre eles. Tudo isso, que é mais básico e importante, tem de ser tratado à parte. Antes, durante e depois – e muitas vezes ao invés – de fazer negócios.

20.08.2008, Rui Tavares

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