Arbitrariedades de conveniência

No Verão passado, o grande escândalo era se podia ou não vender-se bolos com creme nas praias sem refrigeração dos produtos. Seis meses depois, era a Lei do Tabaco que nos trazia o totalitarismo higiénico. Uma menção, por parte do Presidente da República, aos salários dos gestores privados foi “populista e demagógica”.

A semana passada, um agente da GNR baleou e acabou por provocar a morte a um rapaz de treze anos. Qual é a resposta dos mesmos comentadores que vêem em tudo a intromissão inadmissível do estado? Perguntar o que estava a fazer o rapaz no caminho das balas.

Faz sentido: afinal não saiu prejudicada a propriedade privada de ninguém. Pelo contrário, o pai e o tio do rapaz é que o levaram para roubar uns ferros de uma vacaria. Ferreira Fernandes, no DN, escreveu que “o que me preocupa mais no meu país é que haja um pai e um tio que levam um garoto de 13 anos para um assalto”. O editorial do DN considerou que a atitude dos parentes da criança “é que deveria ser tema de indignações e discussão”. A primeira pergunta que Helena Matos — que tanto se escandalizou com a opressão às bolas-de-berlim com creme — se lembrou de fazer num blogue foi esta: “independentemente de tudo, ninguém é responsabilizado por levar uma criança para um assalto?”

Compreendo. Independentemente de tudo — de a GNR ter disparado sete tiros, de dois desses tiros terem atingido a criança, de a criança ter morrido, — ninguém é responsabilizado pela criança? A resposta é sim. Há responsabilidade para estas coisas e geralmente leva à perda da tutela sobre a criança — mas deixa de fazer grande sentido discuti-la, não é verdade? Porque, independentemente de tudo, a criança morreu. Nada indica que venha a ressuscitar.

Mas, ah! O pai da criança era foragido! A família da criança tinha um mercedes! E, pormenor não de somenos, eram ciganos.

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Há umas semanas escrevi sobre o preconceito anti-cigano, e como ele pode descambar para a indiferença e a desumanidade. João Miguel Tavares, no DN, acusou-me de ser demagógico; afinal os ciganos vivem do rendimento mínimo e têm playstations e ecrãs de plasma — apreciação que, por sua vez, nada tem de demagógica.

Pois aqui vai mais um pouco de “demagogia”: já chegámos à indiferença, falta pouco para a desumanidade. Um crime contra a propriedade não valida a morte de ninguém, incluindo uma criança filha de um criminoso. Um pouco de “esquerdismo”: se morreu desnecessariamente um miúdo, pouco me importa se o pai dele era foragido e conduzia um mercedes. E um pouco de “politicamente correcto”: os ciganos também não gostam quando os filhos deles morrem.

Mudando de assunto, sem mudar. Um electricista foi despedido por ter dito no Prós e Contras, programa de TV, que ganhava pouco e não era aumentado há anos. Eis o que Alberto Gonçalves tem para escrevinhar sobre o assunto, no DN: “uma simples ida a esse excepcional programa deveria constituir motivo para despedimento com justíssima causa”. Ih-ih-ih, ah-ah-ah. Oh-oh-oh.

Percebem? Se o estado se mete na higiene alimentar ou nos salários dos administradores, é totalitarismo. Se um agente do estado mata uma criança numa ocorrência trivial, a pergunta é “que estava ali a fazer a criança”. Se um patrão despede um empregado por este dizer em público que não é aumentado, é uma divertidíssima chalaça. O pessoal consegue ver o nazismo na lei do tabaco mas andar alegremente a demonizar uma minoria étnica — isso estranhamente não lhes lembra nada. Entretanto, a esquerda é demagógica, politicamente correcta e — o pior de todos os crimes, vejam lá — a esquerda é de esquerda. Eis tudo o que precisa de saber para botar opinião neste país.

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Segunda | Rui Tavares
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