Brasileiro salva TAP?

Na edição de ontem do PÚBLICO, nesta secção aqui ao lado onde se regista o “sobe e desce” quotidiano, a primeira referência levava uma foto com Fernando Pinto, da TAP, por causa de um estudo que considera que a companhia que ele administra era uma das poucas que iriam sobreviver à crise, em meia centena de trasportadoras aéreas europeias.

O título não era “Brasileiro salva a TAP”. Seria absurdo. Fernando Pinto vem do estado do Rio Grande do Sul, mas não é por ser brasileiro que salva a TAP – se a salvar, evidentemtente – e, conversamente, não é qualquer brasileiro que consegue fazer o mesmo que ele faz.

Outros títulos possíveis: “brasileira traz café à mesa quatro!” – “paciente afirma que cárie foi tratada por brasileiro” – “brasileiro assenta tijolo em prédio novo”. Todos igualmente absurdos – verdadeiros enquanto facto, ridículos enquanto notícia. Talvez interessantes enquanto estória, mas absurdos enquanto explicação.

Toda a gente sabe fazer esta distinção. A questão é outra: há quem a não queira fazer.

Na noite em que o sequestro-assalto a um banco de Lisboa terminou com um assaltante morto e o outro ferido – e os reféns felizmente ilesos – uma porta-voz da Polícia leu um comunicado apresentando os factos da actuação policial, “sem direito a perguntas ou outros comentários”. Ao seu lado, um comandante sorria perante as perguntas dos jornalistas, e apesar do aviso da sua colega, fez questão de acrescentar num aparte que “eles falavam português mas tinham sotaque brasileiro”. O sotaque agora assalta bancos? Tanto como salva companhias aéreas, suponho eu.

Passados uns dias, apareceu uma coroa de flores na agência do banco assaltado, com os dizeres também absurdos: “Em memória de Nilton Souza, morto neste local por ser brasileiro.” Por ser brasileiro, ou por ter feito e ameaçado reféns? Lamento a morte do assaltante, mas estou certo de que a polícia teria agido da mesma forma caso ele fosse de outra nacionalidade.

Ambos sabem fazer a distinção necessária – o comandante da polícia como o autor da coroa de flores – mas não a querem fazer porque preferem injectar a desconfiança e incompreensão entre nacionalidades numa história que já de si triste o bastante.

Não estão sozinhos; e não falo sequer nos lamaçais das discussões anónimas na Internet onde qualquer frustrado com um trauma antibrasileiro (ou antiportuguês) aproveita a confusão para destilar o seu veneno. Muitos jornais, comentadores e políticos se lançam agora no exercício de sugerir que a nacionalidade é um factor explicativo essencial para compreender o que se passou.

Dados publicados ontem neste jornal dizem-nos o contrário. A taxa de criminalidade nas comunidades estrangeiras é exactamente a mesma que entre os portugueses: onze casos em cada mil homens. Os homens em idade activa têm uma maior taxa de criminalidade, e as comunidades imigrantes têm mais homens em idade activa – precisamos deles para trabalhar…

Suponhamos, por absurdo, que a taxa entre brasileiros era o dobro: 22 por mil. Mesmo assim, restavam os 978 que não são notícia: os que trazem o café para a mesa quatro, apanham o autocarro connosco, nos tratam as cáries e dirigem a nossa companhia aérea. São a brasileira de Goiás que, no dia após o assalto, me contava que tinha os dois filhos na faculdade, já com namorado e namorada portugueses, e que ela vai ficar em Portugal para ver os netos. Vêm do Paraná, de Minas Gerais, falam a nossa língua, esforçam-se para melhorar a vida, trabalham aqui e já merecem a nossa consideração e respeito por isso. A maior parte dos portugueses, acredito, reconhece isto mesmo.

13.08.2008, Rui Tavares

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