A segunda versão mais antiga da prequela


«Andava Adão já corroído pela solidão e pela masturbação em excesso quando por fim ganhou coragem para melgar o senhorio: “ó Senhor, eu sei que isto aqui do Éden te deu um trabalhão, que o custo do jardineiro é quase pecaminoso, que fazes tudo pelo meu bem-estar. Tenho um clima ameno, a bicharada é mansa e saborosa, a vista esplêndida. Posso andar em pelota à vontade e ainda nem te lembraste de inventar os mosquitos. Mas sinto-me, sei lá, incompleto. Com quem posso comentar o fulgor do pôr-do-Sol ou o gosto dos túbaros de zebra? Quem me irá animar quando me sinto em baixo? E, não Te querendo ofender, é um pouco chato jogar poker com malta omnisciente. Ainda por cima, estas ânsias carnais que não me largam… deve haver forma mais interactiva de as aquietar. O que me leva a um pedido: na Tua infinita pachorra e misericórdia, não poderias inventar-me uma companhia? Assim uma criatura inteligente, divertida, compassiva e apaixonada, perspicaz, divertida; alguém que me completasse e que conseguisse ensaboar aquela zona nas costas que não alcanço?” Depois de pacientemente ouvir a pedinchice – e enquanto ponderava se teria sido mesmo boa ideia dar cordas vocais àquele bípede mal agradecido – Deus respondeu: “pedes-me muito, Adão. Olha que isso ia consumir-me umas horas de trabalho duro. O preço terá de ser elevado: um dos teus olhos.” Adão, meio assarapantado, retorquiu de imediato: “Ouve lá: e o que é que se arranja por uma costela?”
O resto, como costuma dizer-se, é (a nossa triste) história.»

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