Um Cáucaso bicudo

Se há uma semana alguém perguntasse qual seria a melhor estratégia internacional da Geórgia – como da Arménia, sua vizinha – a resposta seria: esperar. Ainda há poucos meses, George W. Bush tinha proposto a entrada do país na NATO. Os aliados europeus não aceitaram a ideia; se o tivessem feito, seriam agora forçados a entrar em guerra com a Rússia. Mas com tempo e persistência a Geórgia acabaria por se associar de alguma forma à NATO e à União Europeia. Teria então mais peso para uma solução que lhe fosse favorável na Ossétia do Sul, que declarara a sua independência sem reconhecimento internacional, na década de noventa.

A Ossétia é habitada por um povo de língua aparentada ao persa; metade vive no território da Rússia (a Ossétia do Norte) e o restante na Geórgia. Têm sido aliados dos russos, mas o território da Ossétia do Sul é georgiano desde as fronteiras desenhadas pelo Kremlin soviético no tempo de Estaline – que era georgiano de nascimento.

Do ponto de vista estritamente pragmático, nada aconselhava a uma acção militar. A Ossétia do Sul ser dominada pelos separatistas não era novidade. E olhando para o mapa dá para ver que a Geórgia tem muito mais a perder do que a montanhosa Ossétia do Sul: uma longa linha de costa na região da Abkházia, também independentista. Sem estas regiões, a Geórgia perde muita da importância estratégica que sempre teve, ontem como parte da Rota da Seda, hoje como zona de passagem para petróleo e gás natural.

Parto de alguns pressupostos. O primeiro é que ninguém ataca sem premeditação uma capital secessionista no dia de abertura dos Jogos Olímpicos por causa de uma situação que não mudou recentemente. O segundo é que, com razão ou sem ela, atacar os interesses de um colosso é o melhor presente que se pode oferecer a esse colosso. Cuba só decidiria atacar Guantánamo se desejasse ver o Exército americano desembarcar em Havana. Taiwan nunca atacaria um interesse da República Popular da China, a não ser que quisesse ser invadida.

Não há, neste momento, uma explicação clara para as razões que terão levado o Presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, a abrir a porta a um conflito com a Rússia no qual – basta voltar a olhar para o mapa – a Geórgia não tem a menor hipótese de sucesso.

Explicações externas possíveis: a Rússia provocou a Geórgia ou os EUA prometeram apoiar a Geórgia em caso de confronto. Há adeptos de ambas as teorias. Mas no primeiro caso, o papel do Presidente georgiano seria evitar ao máximo responder a provocações. No segundo caso, e apesar da visita de Condoleezza Rice à capital georgiana na véspera do ataque, é difícil acreditar que os EUA aceitassem entrar em conflito com a Rússia por causa da Geórgia.

Resta uma explicação interna: Saakashvili achou que uma aventura militar poderia reforçar o seu poder no país. O pedido de cessar-fogo por parte do Presidente georgiano parece sugerir que a explicação interna é que vale, e que este foi um enorme erro de cálculo da sua parte. Se foi assim, colocou em risco não só a integridade da Geórgia como a sua autonomia no futuro, uma vez que a Rússia agora se considera legitimada para não parar por aqui. Os EUA, pelo seu lado, podem tentar compensar a progressão russa. Ou seja, mesmo uma causa “interna” pode ter consequências “externas”.

Nos séculos XVIII e XIX – e até à I Guerra Mundial -, aquela região foi disputada entre os czares e os otomanos, com os ingleses e os persas em segundo plano. Já na época foram guerras medonhas. Uma repetição actualizada dessas guerras seria uma terrível notícia.

11.08.2008, Rui Tavares

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18 Responses to Um Cáucaso bicudo

  1. A.Silva diz:

    O presidente da Geórgia mal aconselhado e convicto do apoio dos Srs. da Nato lançou-se numa aventura trágica para com o seu povo e sobretudo para o da Ossétia do Sul.Claro que a Rússia não vai anexar a Geórgia e parece pelo que li há pouco até já foi declarado o cessar fogo.Claro está que não vai entrar na NATO tão depressa ou se calhar nunca.Espero que o próximo inquilino da Casa Branca escolha bem os seus diplomatas e conselheiros militares porque a herança que vai receber é uma série de fogueiras lançadas por todo o Mundo até agora sem nenhum beneficio para o povo americano

  2. A longínqua extrema sudeste da Europa, donde “todos” somos originários (os caucasianos, evidentemente), mas ainda assim tão desconhecida…

    Se é dos manuais que as guerras são feitas (e sustentadas) muito mais por ditaduras e menos pelas Democracias, talvez não fosse má ideia o Rui Tavares (se não for pedir muito, claro) dar-nos uma breve panorâmica do “regime” georgiano, para podermos avaliar melhor os porquês desta aventura irresponsável…

    Sim, porque do lado da Rússia estamos nós esclarecidos…

  3. Horus diz:

    Ainda bem que os portugueses começam a abrir os olhos e a compreender que o Presidente georgiano não é tão santinho como parece…só tenho pena é que por causa de um político tão desonesto como este, esteja a sofrer tanta gente inocente: ossetios, russos e georgianos. Stalin também era um político georgiano e foi o que se viu: um criminoso dos piores da História…espero que a UE e EUA nunca embarquem atrás deste novo carreirista tão irresponsável e insensível. Acima de tudo que o mundo tenha mais compaixão e respeito pelo sofrimento do povo da Ossétia do Sul que foi invadido, massacrado e devastado, enquanto a maioria dos mass média ainda continua a dar tanto protagonismo (por ignorância ou por maldade?!) ao Presidente da Geórgia e seu Governo como se fossem as vítimas, sem o menor respeito pelo sofrimento dos mais humildes.

  4. joséjosé diz:

    Com tantos presidentes europeus “democratas” , vamos lá a ver quem é que se chega á frente a pedir ao TIP para julgar o criminoso Mikhail Saakashvili e seus generais…
    Sim porque do lado dos E.U. estamos nós esclarecidos…

  5. Luis Moreira diz:

    Alguem empurrou o tipo presidente!

  6. Os pressupostos estão correctos. Só lhe faltou uma hipótese para a explicação externa possível. Se analisar como a acção militar georgiana foi efectuada verá não há provocação mas sim indícios de um presente envenenado.
    Já agora, excelente título. Eu estava a guardar a reciclagem de um meu favorito, “Traumatismo ucraniano”, para quando fosse justificado.

  7. osatiro diz:

    o facto da Rússia ser um colosso e a Geórgia minúscula não dá ao Kremlin o direito d a invadir. E Cuba prova o contrário do post: Guantanamo é um acordo USA-Cuba (os USA ajudaram Cuba a ser independente):a Ossétia do Sul e a Abkásia são reconhecidas como da Geórgia por todo o Mundo menos o Kremlin (sem qqer razão deste). A Geórgia não invadiu nenhuma parcela da Rússia: apenas quis repôr a autoridade do Estado por meios muito questionáveis. Moscovo praticou um acto criminoso face ao Direito Internacional. Se a Geórgia pertencesse à Nato talvez não houvesse violência d um lado e do outro.

  8. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Satiro,
    Só pode estar a brincar: o actual governo cubano não acordou com os EUA a cedência da base de Guantánamo. Essa é uma imposição dos EUA, dos tempos em que obrigaram os cubanos a ceder partes do território e a incorporar uma emenda, na constituição cubana, que permitia a ingerência da Casa Branca nos assuntos de Havana. A conhecida emenda Platt, conseguida com base na ameaça de invasão, permitia que os EUA interviessem nos assuntos internos de Cuba quando o entendessem e considerassem os seus interesses ameaçados. Este dispositivo constitucional imposto fez de Cuba um protectorado dos EUA até à revolução castrista.

  9. Nuno Ramos de Almeida diz:

    E para falar sinceramente, o caso da Ossétia do Sul e da Abecásia tem mais paralelo com a situação da implosão da ex-jugoslávia em que os países ocidentais reconheceram todas as nacionalidades como tendo direito a um Estado Nação, na base do direito à auto-determinação das suas populações. Se esse é o critério, os ossetas, os abecases têm os mesmos direitos.
    Outra questão é a autoridade moral da Rússia que é nenhuma. Aquilo que lhe serve na Geórgia é aquilo que nega na Chechénia. Mas para falar verdade, as autoridades democráticas russas sempre tiveram a borrifar-se para a vontade popular: a maior parte da população pronunciou-se contra o fim da União Soviética e, apesar de isso, Ieltsine terminou com ela poucos meses depois.
    Mas a hipocrisia dos impérios não fica só pela Rússia. O Reino Unido que tanto berrou nesta crise, assobia para o ar quando se fala de Gibraltar. E a Espanha que se queixa de Gibraltar cala-se com Ceuta e Mellilla.

  10. NRA,
    Ao contrário de Ceuta e Melilla, em Gibraltar já houve dois referendos, o último em 2002. Ambos rejeitaram a entrega do território a Espanha.
    Não referiu Olivença. Alguma razão em especial?

  11. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caríssimo Dorean Paxorales,
    Sim eu sei. Tal como na Abecásia e na Ossétia do Sul.
    No caso de Gibraltar, como em outros, o critério do direito à auto-determinação dos habitantes tem que ser temperado com outros critérios, nomeadamente históricos e geográficos.
    Não me lembrei de Olivença.

  12. Dear Dorean, conheces Olivença? Acreditas mesmo que a ideia de um Referendo como o que propões teria um resultado diferente do que matar toda a população da Vila de riso? É isso o que pretendes, o genocídio da actual população de Olivença e a sua reocupação por colonos lusitanos, desde Escalos de Baixo até ao Fundão Cimeiro?

  13. A. Silva diz:

    O problema é que os colonos lusitanos que a seguir fossem para Olivença, rápidamente pediam a reintegração na Espanha.

  14. A.Silva diz:

    A falta de autoridade moral não é exclusiva da Rússia,vimos agora aqueles que se apressaram a reconhecer a independencia do Kosovo a pugnar pela integridade territorial da Geórgia.A questão da possibilidade da colocação de bases e tropas da Nato na Geórgia e escudos anti-missil na Ucrania provoca nos Russos a mesma reacção que provocava nos EUA o facto da criação de bases militares na Venezuela ou em Cuba.A mentalidade do tempo da guerra fria ainda está na cabeça de muita gente.Espero que a UE não se envolva nesta disputa de zonas de influencia,afinal a UE tem relações económicas e politicas com a Rússia como tem com os EUA ou a China.

  15. Caro AdNC,
    Não me lembro de ter proposto qualquer referendo.

  16. Caro Dorean Paxorales,
    tem toda a razão, não propôs. Apenas associou ambos os temas (Olivença e outros Referendos) no mesmo (curto) comentário e sabe como é o tempo da primeira leitura aqui nestas “coisas”…

    De qualquer modo, ironias à parte, não me parecem comparáveis qualquer dos casos citados com o de Olivença, cuja soberania apenas por uma questão meramente formal continua discutível.

    Ninguém em Olivença conhece sequer esse assunto, nem em Portugal ele é levado a sério. Do lado de cá, por ser uma bizarria, do lado de lá compreende-se melhor porquê se tivermos em conta que, muito mais importante do que ser espanhola ou portuguesa, Olivença tem uma identidade administrativa que nunca poderia ter no Portugal actual: faz parte de uma COMUNIDADE AUTÓNOMA (EXTREMADURA), cujas decisões lhe estão muito mais próximas do que as de qualquer decisão tomada em Madrid, ou em Lisboa!

    Mas este é um tema que em Portugal está ainda nas primeiras “doze semanas” de gestação, longe, muito longe dos horizontes do Cidadão comum e que, por conseguinte, ninguém entende…

  17. Só uma nota para o joséjosé: «Sim[,] porque do lado dos E. U. estamos nós esclarecidos…».

    Concerteza, estamos todos esclarecidos e bem, nem seria preciso dizê-lo! Ou quer-nos porventura convencer de que o regime dos E. U. A. é uma estável e prolongada Ditadura, que desde há cento e cinquenta anos ininterruptamente, sem golpes-de-estado nem revoluções, oprime o seu Povo e impede a implantação de uma autêntica Democracia de modelo ocidental (pois a minha questão era só essa, sobre a influência, num País belicista, de ser ou não ser democrático, ou não reparou bem?)?…

  18. Caro AdNC,

    O exemplo de Olivença era pertinente pois é o nosso pequeno caso de disputa de território. A interpretação honi soit.

    Já agora, há alguma questão de soberania em Portugal que ainda seja levada a sério?

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