Um país quase imaculado

Nunca tive ilusões sobre isto: a discussão sobre quais são os povos mais ou menos racistas é no mínimo um equívoco, e nos casos extremos tão preconceituosa como o racismo.

Franceses e ingleses acusam-se mutuamente de racismo. No Brasil, crê-se que há muito racismo nos EUA, mas evita-se comparar a realidade dos negros em ambos os países. E Portugal, evidentemente, considera-se naturalmente não-racista: seremos talvez uma raça superior a quem falta o gene do preconceito?

Esta discussão pueril esquece duas coisas. A primeira, que o racismo pode andar na cultura e na sociedade, mas cabe ao indivíduo não ser racista. Não é coisa de povos; é responsabilidade de cada um. A segunda, que a coisa não é estática: uma comunidade profundamente racista pode deixar de sê-lo se indivíduos suficientes se forem levantando contra o racismo. Para que isso aconteça, ser não-racista é insuficiente; é mesmo preciso ser anti-racista.

Também nunca tive ilusões sobre outra coisa: em Portugal, a comunidade que é vista com mais preconceito, há mais tempo e de forma mais consistente, é a dos ciganos.

O preconceito anticigano agarra-se a tudo e pode fugir ao controlo. Uma sondagem no Expresso dá os ciganos como a comunidade mais detestada no país. No mesmo jornal, Miguel Sousa Tavares prega um sermão aos líderes da comunidade para que abandonem uma vida de crime e tráfico de droga. E claro: Paulo Portas logo veio sugerir que há um Portugal que trabalha para que os ciganos vivam do rendimento mínimo.

Neste país onde os bancos “arredondaram” os empréstimos à habitação e meteram ao bolso uma média de cinco mil euros por família, os ciganos são ladrões. Neste país onde a Operação Furacão encontrou fraude empresarial de grande escala mas não chegará a lado nenhum, os ciganos é que são os dissimulados. Neste país onde Paulo Portas ainda não explicou quem é o famoso Jacinto Leite Capelo Rego que generosamente deu dinheiro ao seu partido (nem explicou o “caso sobreiros”, nem o “caso submarinos”, nem o “caso casino”), os ciganos é que são os malandros.

Ainda se vai descobrir que os ciganos é que raptaram Maddie ou atrapalharam as brilhantes investigações policiais. Ainda se vai descobrir que, afinal, os ciganos estão por detrás do escândalo Casa Pia. Ainda se vai descobrir que são os ciganos quem monta as empresas manhosas onde os nossos jovens licenciados trabalham a recibos verdes. Ainda se vai descobrir que os ciganos é que estacionam os nossos carros em cima dos passeios.

Mas, até lá, tenhamos sentido das proporções. Ou então chegaremos ao ponto a que agora chegou a Itália. Em Itália, todos os ciganos e apenas os ciganos (estrangeiros ou italianos, menores ou adultos, meros suspeitos ou completamente inocentes) estão a ser identificados compulsivamente pela polícia, algo que não acontecia na Europa Ocidental desde o nazismo. No outro dia, duas meninas ciganas morreram afogadas numa praia de Nápoles e os seus corpos estiveram ali expostos sem que isso incomodasse os banhistas. A Itália dá-se a este luxo: está agora obcecada com os ciganos, como se de repente os seus políticos fossem incorruptos, já não houvesse italianos mafiosos nem pilhas de lixo para apanhar nas ruas.

Eu estou certo de que os italianos não são racistas; mas pelos vistos faltaram-lhes anti-
-racistas em número suficiente no momento certo.

04.08.2008, Rui Tavares

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Segunda | Rui Tavares
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15 Responses to Um país quase imaculado

  1. Maria diz:

    Deu-me muita satisfação ler este texto!! Muitos parabéns ao seu autor, por ser uma Pessoa inteligente, sensata e com grande humanismo. Faz muita falta gente assim em Portugal que mostrem a verdade que se pretende hipocritamente ocultar e que combatam os preconceitos e a ignorância existentes. É por isso que gosto bastante de vir aqui a este blog. Parabéns a todos!

  2. Pingback: Ciganada. « Vida Breve

  3. Percebe-se a intenção: A propósito da questão do racismo, e em particular da forma como a sociedade em geral vê a etnia cigana, RT recorda as incongruências entre o discurso de Portas e a prática de Portas, os dois pesos e as duas medidas da justiça em Portugal, tudo questões que o cidadão comum gostaria ver esclarecidas e modificadas.

    Contudo, e RT sabe isso muito bem, não pode uma safadeza justificar outra, caso contrário não restaria pedra sobre pedra do edifício da justiça já meio desmoronado.

    Os ciganos, segundo as estatísticas, que não explicam tudo mas evidenciam muita coisa, têm maioritariamente comportamentos censuráveis. Não há nenhuma outra minoria que se lhes assemelhe em dependência do RSI e tanta aversão à inserção social.

    O racismo é a maior ameaça à sobrevivência das sociedades. Mas a complacência com o crime generalizado é igualmente uma forma de fomento de atitudes racistas.

  4. anonymouse diz:

    podemos também apontar dedos nisto do troglodismo e do raciocinio preconceituoso: a direita, a direita tudo fez para que se criassem generalizações e caissem sobre uma etnia todas os defeitos e intencionalidade de certas situações. Como nunca vivi no nazismo nunca antes me pareceu tão palpável que toda esta discriminação e esterotipação que é considerada segura “por serem outros”. Não li ( e li bastante) qualquer texto razoável vindo da direita. Portanto aponto-lhes o dedo por esta situação. A questão é também termos predispositores racistas a mais.

  5. No outro dia, duas meninas ciganas morreram afogadas numa praia de Nápoles e os seus corpos estiveram ali expostos sem que isso incomodasse os banhistas

    -Uma mentira mil vezes repetida por vezes transforma-se em verdade, e esta parte do texto é mentira, 4 meninas ciganas em perigo foram socorridas por turistas estrangeiros, nem sequer eram italianos, 2 foram salvas, outras 2 faleceram. Acontece que após o resgate os 2 corpos ficaram na praia, e os turistas por lá permaneceram, afinal as autoridades não encerraram a praia, e os turistas que as resgataram sem vida, deveriam ter feito o quê? abandonado a praia? as malas de volta para o seu país? Não creio que Rui Tavares desconheça a verdade dos factos, mas sempre dá mais enfase apresentá-los de outra forma. E já agora, porque será que de Norte a Sul de Portugal ninguém quer ciganos por perto? racismo? ou será a comunidade cigana que recusa integrar-se? Afinal já por cá andam há 500 anos, não estão na 1ª, 2ª, nem 20ª geração, após 500 anos, continuam apenas a reconhecer as suas leis e tradições. Provavelmente estarão certos, mas talvez seja altura de ponderarmos a criação de reservas, um pouco á semelhança dos índios no Brasil ou EUA, para que possam viver segundo as suas normas e tradições. Mas teriam também de se financiarem, e fora do seu território obedecerem ás leis do estado.

  6. Jota Erre Pê Efe diz:

    Bom artigo – escrito por alguém que gosto de ler e ouvir – até falar no caso das meninas ciganas que morreram em Itália… À data que estas palavras foram escritas já o próprio fotógrafo tinha desmentido e desmistificado a ideia de que naquela praia ninguém quis saber da ocorrência!
    Só alguém que não conheça a realidade italiana é que pode assumir que numa zona como a da Campânia – sul e bastante mais pobre que o norte – poderiam reagir assim… Nesta altura, tudo o que possa ser utilizado para atacar o governo de (extrema?!) direita, sê-lo-á. Embora, em bom rigor, tomaram medidas contra a comunidade cigana que nos devem fazer protestar…

  7. m&m diz:

    O Rui Tavares tenta legitimar a violência (racista da comunidade cigana e racista da comunidade negra) que sucedeu na Quinta da Fonte com o crime do colarinho branco. Um crime legitima/atenua o outro?

  8. eh pá! desculpem, estava distraído. reservas para ciganos? já vamos aí?

  9. João Gundersen diz:

    Explicar não é justificar. Alguma vez tentou explicar a extrema direita em vez de a condenar logo? adianto desde já que também não me interessam muito a explicações sobre esses senhores. Agora, esta atitude é tipica do paternalismo multicultural. E lamento, mas o paternalismo é uma das formas mais insidisosas de racismo. Aos estrangeiros, imigrantes o que lhes quiserem chamar deve-se exigir cidadania, isto é direitos e deveres. Temos por um lado quem queira só os deveres ( e já agora que descontem para a segurança social…) por quem ache que só tem direitos (e que não paguem as casas mesmo que a renda sejam cinco euros…) . A esquerda, para desgosto meu, sempre pronta a chamar fascista e racista e a gritar contra os berlusconis, palermas de braço estendido e afins, olha para o lado e assobia quando os “maus” não são das minorias. Os epítetos de comunidades criminosas, de traficantes, ladrões ou outras nascem de inaceitáveis simplificações, e de, como em Portugal se gosta de meter tudo em caixinhas. Mas nascem também da vivência das pessoas, uma volta pelo alentejo falando com pessoas menos “politizadas”, mais preocupadas em viver (…ou sobreviver) em zonas com comunidades ciganas talvez se perceba (lá está perceber, em vez de condenar…) porque é que há tão pouco gosto pelos ciganos. Talvez nem seja necessário ir ao alentejo, basta ir à Guerra Junqueiro e ver com são as relações de género (para dar um exemplo) para ver que algo está errado. O problema não é se é tradição e se as mulheres gostam assim, a que qestão é se têm hipótese de ser diferente. Os direitos são para todos os cidadãos, sejam verdes, azuis ou às bolinhas e não estão sujeitos a especificidades culturais. Pelo menos na sociedade em que eu quero viver.

  10. NunoV. diz:

    Eh pá, Rui! Não peças desculpa (tu nunca estás distraído). Pelo contrário, andas bem atento a só ver aquilo que te interessa. Mas não faz mal, há sempre por aí quem veja em ti uma pessoa inteligente, sensata e de grande humanismo. Capisci?!

  11. osatiro diz:

    visão parcial, como sempre. Pp k é k os somalis (negros e muçulmanos) preferem emigrar para a Itália e nao para os “irmão muçulmanos” podres d ricos Árabes? Exacto, pq foram estes k começaram a escravatura negra, e ainda hoje tratam os negros pior k os animais, como provam alguns livros (“esgotados”, claro!). E como vivem os ciganos nas comunidades islâmicas da Europa? Tudo isto culpa do Berlusconi! Mas não há preconceitos na esquerda, nem pensar.

  12. mf diz:

    Muito bonito , à excepção do facto de que 23 ciganos portugueses terem sido presos em espanha por esclavagismo. Nem recibos verdes os coitados dos escravos passavam.
    E , eu , quando vejo um tipo , mesmo da mesma cor que eu , cometer um crime , denuncio-o. Não me passa pela cabeça dar-lhe cobertura , não quero criminosos à solta. e muito menos ser apontada na rua como gaja que dá cobertura a criminosos , logo , a um passinho do crime , dado ele não me fazer qualquer confusão.
    E , parece , que há uma certa solidariedade de tribo , qua ao mesmo tempo que obriga a malta a casar aos 13 anos , se traficarem droga ou armas ,ou burlarem , também oferece : ninguém viu., ninguém sabe ..
    Se não queres ser confundido com um lobo , não lhe vistas a pele , era o conselho que deixava à tribo que conquistou a pulso a fama que tem. Apesar dos esforços dos bem intencionados ,como o autor do post , que me parecem cair em saco roto. A solidariedade cega é um pau de dois bicos.

  13. irene maria diz:

    É tão bom ler alguém inteligente! Continue, Rui!

  14. jms diz:

    Grande texto do Rui Tavares. A especialidade moral dos tuguinhas é a condescendência face aos crimes dos grandes e a vociferação contra os dos pequenos. Fortes com os fracos, e fracos (subservientes) com os fortes. O que o Rui Tavares assinala é muito certo: há um erro de perspectiva, um enviesamento ideológico (baseado na mais pura ignorância da realidade) que leva o zé-povinho a exigir cadeira eléctrica para o cigano ou o junkie que rouba um auto-rádio, enquanto os grandes criminosos, aqueles que os espoliam diariamente, que lhes roubam a vida, esses são por eles considerados uns senhores, uns cavalheiros, só porque assim se fazem representar nos seus órgãos de comunicação social. Os pequenos criminosos são os bodes-expiatórios de um mal-estar geral (económico e social), cuja verdadeira origem o tuga médio (que só tem paciência para ler a Bola) não é capaz de discernir.

  15. Belo Artigo de Rui Tavares. Pena que alguns não consigam ver que a crítica aos crimes de “colarinho branco” e à actuação hipócrita de Paulo Portas sejam meramente instrumentais para defender a sua tese: o racismo combate-se com o anti-racismo, o não-racismo indiferente não chega!

    Eu, que casei com um exemplo vivo do que pode ser uma vítima do preconceito racista, penso que entendi o essencial da mensagem: se há ciganos desonestos, não deverão ser mais penalizados do que os restantes desonestos por serem ciganos!

    Assim como se houver portugueses violadores na Costa Leste dos Estados Unidos (e parece que já houve…), não deverão ser mais penalizados do que os restantes violadores, só pelo facto de serem imigrantes portugueses, ou açorianos, ou lá o que era. Ainda para mais pobres e ignorantes.

    Assim como se houver um benfiquista que, mesmo que sem intenção, mate um sportinguista com um “very-light” não deve ser mais penalizado pelo facto de ser benfiquista, etc., etc., etc….

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