Saber é poder

Ontem houve em Lisboa um debate sobre o futuro da zona ribeirinha, com a presença de Manuel Salgado, número dois da câmara municipal. Até Setembro, estará em discussão pública um plano de intervenções; mas, tanto quanto entendi, não há um documento único sobre que nos pronunciarmos. Espero que não se corra o risco habitual com estas coisas: estão em discussão enquanto são vagas de mais para termos opinião e deixam de estar em discussão quando já foram decididas e é tarde de mais.

No curto espaço de que disponho escreverei apenas sobre a Praça do Comércio. Ela é, sem dúvida, a chave de qualquer solução para a zona ribeirinha – que descreve um arco – e para a Baixa que é a flecha desse arco. A Praça do Comércio é a intersecção entre os dois eixos principais da cidade. O peso simbólico do seu passado reflecte-se na forma como todos ainda lhe chamamos Terreiro de Paço, quando já não é um terreiro, o Paço foi destruído em 1755 e a praça mudou de nome há mais de 230 anos.

Após o Grande Terramoto, ela reforçou ainda o seu poder simbólico. Ela era, intencionalmente, a praça mais importante não só da cidade, nem do país, mas da coroa e seus domínios, do “império” – de qualquer forma mental que a ideia de Portugal assumisse.

Temo-la compreendido pouco e tratado mal. Esteve transformada em parque de automóveis. Santana Lopes quis lá fazer hotéis de charme para substituir os ministérios. Segundo Manuel Salgado, ela caminhará a prazo para ser libertada de trânsito (o que é bom) e poderá ver os seus pisos térreos ocupados por lojas.

Comecemos por desfazer este equívoco de que, como a Praça se chama “do Comércio”, ela foi pensada para ter comércio. Na verdade, ela tem esse nome porque foi paga pelos comerciantes (com recurso a impostos extraordinários) e não por que fosse destinada a eles. Mal ou bem, a praça foi feita tendo em mente o mais forte simbolismo público e nacional, e esse pressuposto terá de ser respeitado.

Nesse caso, que fazer com ela? Felizmente, parte da decisão foi tomada há quase duzentos e trinta e três anos.

No dia 2 de Outubro de 1775, o Marquês de Pombal ordenou em nome do rei que todo “o grande Edificio do Lado Occidental da Real Praça do Commercio” fosse destinado à construção da “Bibliotheca publica” do Reino, que começaria por contar com “sessenta mil volumes” (esta é a biblioteca que depois foi para o Rio de Janeiro com a corte). Pombal via a Praça do Comércio como o símbolo de uma ideia do país – a sua ideia ou a ideia do seu tempo. Por isso ela seria a praça do poder, mas também por isso mesmo, a praça do saber. As duas coisas eram a mesma coisa: saber é poder.

Hoje temos uma ideia diferente do país, do poder, e até do próprio saber. Ainda bem, acrescento eu. Até uma biblioteca pública central é hoje muito diferente – um lugar aberto até tarde, com recursos informáticos, Internet sem fios, obras em consulta directa para todos, estudantes, desempregados ou reformados (e não só para investigadores das 9 às 6 como na Biblioteca Nacional do Campo Grande). As lojas e os cafés também têm o seu papel; ele é importante, mas não principal.

Mas há coisas que se mantêm. Hoje, diz-se, vivemos na sociedade do conhecimento; a questão central é ter uma ideia de Portugal na sociedade do conhecimento. Pois bem, diria Pombal: se essa é a questão central, temos de voltar a colocá-la no centro. No centro simbólico, político – e no centro propriamente dito da cidade.

30.07.2008, Rui Tavares

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