Ideias perfeitas

Há quinze dias, ninguém gostava de bairros sociais. Sim, a longo prazo podem ser uma concentração de problemas. Os países e cidades que investiram neles já entenderam que não se deve alojar em bloco um ou mais bairros inteiros. Uma alternativa é alojar cada família para casas a custos controlados, em bairros comuns, e tratar com as mesmas responsabilidades quem tiver acesso a essas casas, sejam eles pobres, classe média ou jovens casais. Em vez de enfiar as pessoas em depósitos de pobres e as crianças em escolas para onde os professores não querem ir, os serviços, o comércio e as escolas que já existem servem toda a gente.

Naturalmente, há quem também não goste desta ideia, que apresentei numa crónica da semana passada. Rui Ramos, nas páginas deste jornal, ataca-a como “experimentalismo” que faz dos pobres “cobaias” e “carne para canhão”, colocando-os “à mercê dos funcionários” que exigem contrapartidas a quem usufruir das casas (manter os filhos na escola, cuidar das casas, pagar as rendas ou prestações, não armazenar armas ilegais) — isto como se alguém fosse obrigado a aceitar e alguma casa viesse sem contrapartidas.

Com Rui Ramos, tudo se passa como se houvesse vinte mil modelos disponíveis mas não tivéssemos de dizer qual defendemos. Eis afinal a única ideia perfeita neste país. Mas é bom que as pessoas — a começar por Rui Ramos — entendam que não ter nada para apresentar também tem custos.

Não saímos da estaca zero. Continuamos a poder optar pela mistura social na cidade, como fazem muitas cidades do mundo desenvolvido, com vantagens e inconvenientes. Ou prosseguir com o bairro social como fazem outras, sabendo que vamos ter de o acompanhar e nele investir durante décadas. Mas há mais opções. Podemos voltar ao modelo de uma cidade envolta por uma cintura de bairros de lata, onde havia os mesmos problemas de hoje e mais alguns. Ou evoluir para o modelo do Rio de Janeiro: condomínios de luxo no sopé do morro e favelas na encosta, onde teremos os mesmos problemas de hoje e muitos mais ainda.

Para Rui Ramos, pelo contrário, a única ideia genial para a pobreza é não fazer nada. Pensará ele que nunca foi experimentada?

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Já agora: depois do exercício, sobram umas linhas sobre “responsabilidade pessoal”. Pois bem, o que é a responsabilidade pessoal para Rui Ramos? É simples: a responsabilidade pessoal é uma coisa estupenda que o autor acha que deveria ser exigida aos outros.

Mas como descreveríamos, por exemplo, a responsabilidade pessoal de alguém que participa num debate público? A rectidão, a honestidade e a franqueza são a basezinha obrigatória e traduzem-se nisto: respeitar a inteligência do leitor e dar-lhe a informação suficiente para que ele possa decidir sozinho.

Manipular o leitor seria sempre mais fácil e, muito francamente, é o que Rui Ramos faz. Embora se ocupe exclusivamente da crónica que eu escrevi, nunca a cita nem refere directamente, vedando aos leitores uma simples comparação — nem sequer diz com quem fala, para lá de descrições nebulosas como “descendentes de Afonso de Albuquerque”. Com o jogo escondido, o que o deixaria a salvo de uma resposta, não há limites: o que eu escrevi pode ser retorcido e distorcido até onde lhe dá mais jeito.

É preciso ser o contrário disto, que é a forma mais velha do que passa por debate em território nacional e nos deixou em herança um panorama intelectual mesquinho, enfatuado e pouco corajoso. A nossa elite conservadora nunca gostou de jogar em terreno aberto e com argumentos à vista de todos.


Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
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