Os intelectuais já morreram

Banksy

Chegou a época sem notícias. Jornais e revistas atropelam-se na criação de “acontecimentos”. Até os mais sérios não são imunes à fruta da época. Assim como quem apresenta os 100 melhores presuntos, os mais paradisíacos locais de férias e as noites de arrasar, a Foreign Policy anuncia a lista dos 100 maiores intelectuais do mundo. É forte o peso dos pensadores que deram uma roupagem intelectual à política da guerra e anti-ecológica da administração Bush. Temos o profeta do choque de civilizações Samuel Huntington, um dos mais proeminentes pensadores que aconselhou a guerra ao terrorismo Bernard Lewis, o comentador político Robert Kagan, o homem que defende que não existe o aquecimento global, Bjorn Lomborg. Para terminar tão gloriosa escolha aparece-nos como um dos intelectuais de alto coturno o próprio general David Petraeus, comandante em chefe das tropas no Iraque!  Claro que a lista até tem alguns pensadores, mas aquilo que surpreende é haver uma lista com um general, o papa e vários governantes. Num artigo para explicar a escolha, o nomeado Cristopher Hitchens, também ele um defensor da guerra, lembra que a palavra “intelectual” foi cunhada para nomear aqueles que se opunham à prisão do capitão Dreyfus, acusado de traição à pátria por sectores poderosos e anti-semitas. Hitchens assinala com agrado que nesta lista de intelectuais só é apontado um pensador marxista – Slavoj Zizek. Para o editor da Vanity Fair, um intelectual tem que ser um céptico perante todos.  Não percebe que, para além de paixão e opinião, o papel do intelectual exige capacidade de confronto e saber colocar em causa os poderes estabelecidos. O que não se coaduna com listagens feitas à medida da voz do dono.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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25 Responses to Os intelectuais já morreram

  1. xatoo diz:

    a Vanity Fair está vacinada contra o anti-semitismo: é propriedade do judeu americano Samuel I. Newhouse Jr., (Solomon Neuhaus na versão Sénior);
    talvez a influência dos anti-intelectuais explique o que se diz na “jewsmedia”

  2. ppicoito diz:

    Tanta coisa, tanta coisa, e afinal o que morreu foi o marxismo e não os intelectuais. Fico mais descansado. Já agora, o Petraeus tem obra publicada na área da estratégia militar, se não estou em erro, e o Papa é um dos teólogos mais influentes da actualidade (e já era antes de ser Papa, e cardeal, e inquisidor, e essas coisas todas: foi talvez o maior adversário doutrinal da teologia da libertação, o que será para o Nuno ainda mais imperdoável do que chefe dos americanos no Iraque). Quanto ao Huntington, ao Bernard Lewis e ao Kagan, não se percebe porque é que não entrariam numa lista dos “maiores intelectuais” do século. Cá em casa são lidos, o que não se pode dizer do Zizek.

  3. jorge c. diz:

    “o comentador político Robert Kagan”.
    Se o Nuno chama a isto http://www.mtholyoke.edu/acad/intrel/bush/kagan.htm comentário político, então ao Prof. Marcelo, a JPP, a Vital Moreira, a Saldanha Sanches, a Rui Tavares e a tantos outros chama-se o quê, conversa fiada?

  4. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Jorge C,
    Eu já li alguns livrinhos do sr. Kagan, usei a designação que lhe dá a edição portuguesa da Foreign Policy.

    Pedro Picoito,
    Tirando o general, já li algumas coisas dos outros. É raro, mas, o meu caro Pedro Picoito, foge à questão que eu coloco. O que eu afirmo, não é que essas pessoas não são inteligentes e com obras, o que eu digo é que não cumprem a função histórica dos intelectuais. A desingação implica uma certa envolvência no debate público , mas obriga também a uma certa independência perante os poderes. Toda a listagem é ridícula, mas é reveladora de uma certa época. O lugar dos intelectuais foi tomada por pensadores orgânicos do poder. Aliás, a ideia da morte dos intelectuais públicos não é aliás nova e não se resume ao quadro do marxismo. Cito-lhe a esse propósito, um interessante livro de Russell Jacoby, “Os Últimos Intelectuais”.
    Finalmente, a lista é mt ignorante em matéria de marxismo, existem pelo menos mais meia duzia que podia figurar em qualquer lista (Negri, Badiou, Rancière, Mike Davis, etc…). Mas essa não é a única lacuna. Repare que não há um único realizador, os escritores são muito poucos. É uma lista miope, mas reveladora.

  5. ezequiel diz:

    bem, quando li isto pensei: bolas, que coisa anacrónica…

    o intelectual público continua vivo e de boa saúde, cumprindo a sua “função histórica” e exercendo a mais completa das independências vis à vis os poderes estabelecidos…O zizek, derrida (RIP), habermas, apel, said, gadamer, steiner, koffman, ranciére etc NÃO são-foram intelectuais públicos?!…é conferências por todo o mundo, debates anti-glob, bla bla bla…

    à propos; legislators and interpreters de Z bauman.

    a função histórica e a isenção…please Nuno. Todos os intelectuais públicos participam em estruturas de poder…estão todos comprometidos…não há neutralidade ou imparcialidade que resista à politização do debate público….

    tb não concordo contigo quando afirmas que os intelectuais foram “substituídos pelos pensadores orgânicos do poder…” Visita os departamentos de ciência política Americanos e outros…todos, ou quase todos, são estudados…

    cumps,

  6. ezequiel diz:

    a conferência do Zizek foi interessante????

    o homem tem uma agenda de deslocações comparável à da madonna…h ehe eh Rorty nunca parava quieto…Dreyfus, a mesma coisa…Steiner, nem se fala…Levinas…Habermas…todos eles a cumprir as suas “funções” (esta coisa de função histórica dá-me vontade de rir….

    na minha opinião, passa-se precisamente o oposto:..estamos fartos de intelectuais…até ás pontinhas dos cabelos!

  7. Saloio diz:

    Penso que já não existem intelectuais “completos” – daqueles que são professores e estudiosos e que, volta e meia, escreviam algo nos jornais e nas revistas. Era o caso de JP Sartre e de Raymond Aron, ou Mary MacCarthy.

    Como, em Portugal, felizmente ainda vivo, o Prof. Eduardo Lourenço.

    Hoje os intelectuais são estrelas mediáticas, que desenvolvem a sua actividade como os artistas de palco, e isto apesar de alguns serem brilhantes, como: B.H. Levy, N. Chomsky, Camilla Páglia, J. Wolcott, A. Gluksmman, C. Hitchens, R. Dawkins e Nick Choen.

    Quanto a revistas, a Vanity Fair, além de alegre e colorida, trás artigos de carácter político (embora um pouco esquerdalhos modernaços). Mas enfim…

    Digo eu…

  8. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Bem-vindo Ezequiel,
    É mesmo assim. Eu sou anacrónico. Acredito na necessidade de haver gente com pensamento não comprado. És livre de não concordar. Mas, para meu bem e apesar do teu aparente paternalismo, esta é uma opinião solidamente ancorada numa tradição de pensamento sobre os intelectuais. E peço-te desculpa, mas a politização do debate não é mesma coisa que a dependência dos poderes. Um intelectual deve ter ideias políticas e tomar posições, sem que isso signifique ser um empregado de um patrão que lhe obriga a um pensamento único. Mas, se estes meus textinhos te obrigam a comentar, já cumpriram uma função social importante para mim: saber , de vez em quando, de ti.

    Abraço,
    Nuno

  9. ezequiel diz:

    good riddens, intelectuals! 🙂

    não quero ser chato mas lembrei-me agora de uma curiosidade histórica que demonstra algo interessante

    o termo “desconstrução”

    “inventado, como termo filosófico, por Derrida

    depressa saiu da ENS e implantou-se na public psyche…hoje é utilizado para tudo e mais alguma coisa…foi banalizado, usurpado, explorado pela tal “envolvencia” pública…esqueces-te que o suposto desaparecimento do intelectual público deve-se, acima de tudo, à sua “normalização” (perderam o fulgor vanguardista, que pressupõe distância (not involvement) das “massas ignorantes”)

    as massas já não são ignorantes. aliás, nunca foram. são e sempre foram imprevisíveis..
    cumps

  10. ezequiel diz:

    Caro Nuno,

    há muitos poderes, Nuno. Definir poder como established power (poder do estado, ou daqueles q controlam o estado). A melhor crítica que conheço a esta concepção unidimensional do poder é, alas, pensador vanguardista e “independente” (well, foi ele que inspirou uma data de reformas no sistema penal francês, promoveu manifs e disse muita asneira…)…Michel Foucault! O poder está em tudo. É uma categoria “metafísica”, tão real ou plausível como a temporalidade, bla bla…. Foucault tinha razão. Por exemplo, o poder de uma concepção de justiça. Qual é o poder de uma concepção de justiça? O poder mobilizacional, certo?

    Poderes, Nuno. Muitos. Todos dispersos transversalmente pelo corpo social.

    seja como for, um grande abraço…

    já li Negri, finalmente. 🙂 Não é grande coisa. (just kidding)

    cumps,
    ezequiel

  11. ezequiel diz:

    não quero ser chato, Nuno

    estive fechado numa sala durante dez horas hoje…deve ser isto

    os pensadores mais interessantes que tenho lido não são intelectuais públicos, filósofos, jornalistas ou outros “traditionals”…

    os mais interessantes são os estrategas. too pragmatic for you???

    tenho saudades do tempos da “função histórica dos intelectuais”…
    things were so much simpler, mate!

    Fizeste-me pensar em Jerry Hough, Richard Pipes, Stephen Cohen e Moshe Lewin e Archibald Brown….estes foram alguns dos “meus intelectuais”.

    abração, ezequiel

  12. Nuno, concordo com tudo o que dizes, faço só uma ressalva: por mais que me custe (treta, não custa nada…), o Papa está lá por direito próprio, ele é, de facto, um intelectual. E dos à séria, leia-se, perigoso.

  13. jorge c. diz:

    Perigoso tipo Marx, Inês?

    Eu concordo com o Ezequiel quando diz: “Todos os intelectuais públicos participam em estruturas de poder”. Não digo que estejam “comprometidos” mas torna-se evidente que seguem um caminho mais dentro da estrada do que na berma.

  14. Sim, eventualmente, Jorge. Se, usando a definição do Nuno, um intelectual é o que pensa o que existe, o critica sem temer os poderes do mundo (o que é relativamente fácil quando se é Papa) e tem mudanças de fundo a propôr, sim. O facto de ser de sinal contrário e num âmbito diferente não impede que haja lógicas comuns. E Ratzinger, estou farta de dizer isto, é um inimigo de respeito. Assim vale a pena!

  15. rui_david diz:

    isto é um bocado injusto porque afinal de contas o Chomsky foi o intelectual ocidental mais votado logo a seguir… “aos árabes”.
    Curioso foi o escândalo da Prospect e da FP por ter ganho um sufi turco. Numa demonstração do etnocentrismo despeitado que se vai banalizando entre os círculos mais sofisticados da anglosaxoinice à medida que os efeitos perversos da globalização se notam, chamaram “campanha” ao facto de milhares de turcos terem votado, esquecendo-se da promoção descarada que a Prospect fez do repulsivo Hitchens, um oportunista “esquerdista” defensor do Bush que agora deu também em cavalgar a onda do “novo ateísmo” para dar má fama aos ateus.
    Quanto às críticas à Vanity Fair acho-as também injustas. É uma revista onde se podem encontrar artigos muito interessantes, veja-se o recentemente publicado “Monsanto’s Harvest of Fear”.
    Quanto ao general Petreus, para além de ser mais do uma ridícula manifestação de etnocentrismo (quantos magalas do planeta produzirão interessantes obras de estratégica militar ? o que será necessário para sejam reconhecidos publicamente como intelectuais? Ter o maior arsenal da terra à disposição para “experimentar”?)
    suspeito de que aquilo de que ele suspeita já ao Spínola esquecera…

  16. Cara Inês,
    Eu não defino um intelectual como aquele que pensa (mal ou bem, pensamos todos). Não defino, como no meu antigo partido, um intelectual por fazer trabalho não físico. Para mim, um intelectual é uma categoria histórica que está ligada a um devir concreto (vou esgotar todas as palavras caras deste mês neste comentário, a culpa é tua, Inês). A palavra intelectual foi cunhada pelo poder para designar uma espécie de nova categoria de empata-fodas (foi para compensar), gente sem actividade prática que se juntava em sítios de má fama e que ousava contestar as sábias decisões do poder, dos militares e da Igreja. Julgo que os intelectuais públicos de hoje, a haver, são aqueles que são capazes de produzir pensamento que afronte poderes e poderosos.
    O Ratzinguer, nessa definição é, como o general citado, um excelente pensador que mudou a sua opinião (de apóstolo do Vaticano Segundo na sua juventude passou para grande inquisidor, obrigando os defensores da teologia da libertação ao voto de silêncio e impedindo que se expressassem na igreja), mas não é um intelectual.
    É óbvio que esta definição é parcial e limitada, mesmo no campo do marxismo há tipos como o Gramsci que chamariam ao papa um “intelectual orgânico”, mas é a vida.

  17. Nuno, mil perdões pelo esgotamento verbal. Eu sei que não disseste “aquele que pensa”, eu falei em pensar de modo independente, criticar e propôr mudanças que podem ser polémicas, quando não violentas, para alguma forma de status quo. E acho que tudo isto se aplica aos textos publicados de Ratzinger enquanto Papa, sobretudo no que se refere ao papel e atitude da ICAR no mundo e nas “relações entre civilizações”. Não quer dizer que seja um intelectual de que eu goste, é claro… Mas está a tentar produzir uma Igreja de “menos e melhores (leia-se mais sectários) crentes”, e isso não é uma defesa do que existe nem agrada à maior parte dos poderes e pensamentos vigentes (porque eles não são todos uniformes ou unilineares). Mas, como dizes, esta discussão depende da definição que cada um de nós tiver em mente; ‘bora não ficar aqui numa conversa circular, discordemos, como intelectuais de esquerda decentes! 🙂

  18. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Rui David,
    Estou de acordo com tudo o que escreveu, até sobre as minhas simplificações. Tudo o que se possa dizer da ignorância enciclopédica de Hitchens e do sua mediocridade e oportunismo é pouco. Li na Vanity Fair uma das reportagens mais sabujas que tenho memória: a história de um jovem marine morto no Iraque que tinha lá ido por causa dos textos do Hitchens e de como a família dele percebia da fecundidade do seu sacrifício e admirava a clarividência do Hitchens, tudo escrito pelo próprio Hitchens em tom de rasteiro auto-elogio.
    É verdade que a lista é mais vasta do que a que citei. Chomsky não é propriamente um jovem, aparece nela desde os anos 70, e vários religiosos muçulmanos aparecem nela. Aquilo que eu chamo atenção é do domínio dos pensadores governamentais: ministros, religiosos, militares. Tipos como o mediocre Vaclav Havel, o político Egor Gaidar e o comandante das tropas norte-americanas no Iraque. A lista é um conjunto de pessoas que aparece nas páginas da Time e da Vanity Fair, como se isso fosse um critério de pensamento. Se fosse feita em Portugal, com os mesmos critérios: teria o Jorge Coelho mais os comentadores da televisão ….

  19. pedro picoito diz:

    Nuno, vou tentar então não fugir à questão. Que são duas, intimamente ligadas.
    Uma é a definição de intelectual. A sua é a de um contrapoder, alguém independente dos poderes e que os “afronta” em nome da justiça e da verdade. Eu entendo que é uma definição insuficiente, demasiado rígida e que se adequa pouco à realidade. Um intelectual é alguém cujas ideias ou obras influenciam a vida pública – umas vezes contra os poderes estabelecidos, outras a favor. Vejamos um exemplo. Anthony Giddens é o pai, como se sabe, do conceito de terceira via que tanto influenciou os trabalhistas britânicos e, depois, alguns socialistas continentais (Guterres, para não ir mais longe). Terá deixado de ser um “intelectual” quando Blair chegou ao poder e passou a aconselhá-lo? Do mesmo modo, Huntington e Bernard Lewis já eram influentíssimos pensadores na América (e não só) muito antes do 11 de Setembro. Se (se, sublinho) Bush invadiu o Iraque a seu conselho, isso não os torna menos “intelectuais”. Pelo contrário, no sentido dreyfusard eles merecem sem dúvida o nome porque as suas ideias influenciaram políticas, que é exactamente o que Zola queria fazer. (E todos os outros “intelectuais” antes e depois do “affaire”, não sejamos ingénuos. Já Tocqueville tinha visto que uma das razões para o pendor revolucionário dos intelectuais franceses, a que ele chama literatos, era o ressentimento por não se acharem em número suficiente no governo.)
    A questão da definição não é meramente conceptual ou académica porque, como se vê, de acordo com a definição adoptada o intelectual terá uma legitimidade diferente. O intelectual do Nuno é um contrapoder. Se se torna um “pensador orgânico do poder” perde a sua legitimidade histórica. Porquê, pergunto eu? Em democracia, onde há uma alternância real nos detentores do poder, acontece naturalmente que às vezes os intelectuais sejam do partido do Governo, outras sejam contra.
    O que nos leva à segunda questão:a da independência do poder. Há pensadores na sociedade capitalista e na economia de mercado em que felizmente vivemos que consideram ser sua “função histórica” a crítica radical ao sistema. Só assim seriam fiéis à legitimidade de intelectuais. O caso mais evidente hoje é o de Chomsky. Nos anos 40 seria o de Brecht, nos anos 50 e 60 o de Sartre, nos anos 70 e 80 o de Foucault. Acontece que o sistema em que vivemos, com todos os seus defeitos, é o melhor que a história já conheceu. É de certeza melhor, pelo menos, do que as alternativas que nos propunham e propõem os intelectuais revolucionários. Brecht foi estalinista. Sartre conseguiu defender, embora com avanços e recuos, Cuba, a União Soviética e a China maoísta. Foucault, num momento da história da loucura que ele próprio não desdenharia estudar, foi paladino do Irão de Khomeini. A folha de serviços do Chomsky, se bem me lembro, é ainda mais dolorosa. Por outras palavras, bastou agitar bandeira da constestação à “sociedade burguesa” para que indivíduos supostamente mais lúcidos do que a esmagadora maioria dos contemporâneos fossem capazes de branquear as ditaduras mais aberrantes. Em comparação com isto, o apoio dos académicos ditos neoconservadores a Bush é um serviço à Humanidade. Venha a “traição dos intelectuais”. Não sou daqueles que preferem sempre errar com Sartre a ter razão com Aron. Prefiro um intelectual ao serviço do poder democrático a um intelectual preso aos seus próprios preconceitos. Ou que, usufruindo da liberdade das democracias, tem a suprema ousadia de dizer que não senhor, afinal não vivemos bem em democracia porque o poder não está nas maõs do povo e, no fundo, no fundo, não há diferença nenhuma entre uma democracia incompleta e uma ditadura. Experimentem dizer isso no Irão ou na Coreia do Norte. Só depois acreditarei na tal independência.

  20. rui_david diz:

    se fosse em Portugal, eram o Pacheco ( que tinha feito uma semana antes uma série de crónicas espalhadas pela rádio, tv, folhas volantes, capas de sabonetes, embalagens de iogurtes, toalhetes de restaurantes, diários, semanários, cassettes e blogs sobre a importância de se reconhecer o devido mérito aos devidos intelectuais politicamente incorrectos) e o Rui Ramos ( sagazmente convidado na semana anterior por judite qualquer coisa) agora em versão ligeiramente mais psdofilizada… em alegre companhia do Toy, da Lili, do Emanuel e do Rocha… um pequeno triunfo do único pensamento livre.

  21. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Pedro,
    Muito interessante. E até estou bastante de acordo. Há só um pequeno “mas”. Eu acho esta lista interessante porque reflecte a perda de um certo grau de independência daqueles que pensam. E de alguma forma, utilizando uma certo entendimento do papel do intelectual, o desaparecimento ou morte dos intelectuais. Acho que há um esgotamento do ethos que permitiu a existência de um conjunto de pensadores que punham em causa o poder e enriqueciam a democracia. Se quiseres, há demasiados “intelectuais orgânicos” e poucos intelectuais. Isso, já para não falar da escolha contaminada dos meios de comunicação, em relação a quem é ou não é intelectual. E a tentação de criar “intelectuais da casa” como o editor da Time e o da Vanity Fair.
    No livro que te falei num comentário anterior, Russell Jacoby identificava três factores principais para a liquidação dos intelectuais clássicos: a especialização crescente da academia, com a criação de públicos e linguagens profissionais que impediam o diálogo público sobre as questões; o fim da boémia e a ascensão económica de determinados intelectuais que os ligava ao estilo de vida e interesses das classes poderosas.
    Acho que, de alguma forma, a análise dele não é totalmente falha de sentido.

  22. rui_david diz:

    resumindo.. para o pedro picoito um bom intelectual é um bajulador. Para quê então discutir a questão?

  23. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Desculpa, claro que não posso estar de acordo com a parte final do post. Os apoios à política de Bush não são, em caso algum, um serviço à humanidade.
    Para além de umas simplificações, no meu entender, excessivas: o contributo de Foucault não se pode resumir ao seu engano iraniano, nem a obra de Brecht se define pela sua ilusão estalinista. Tanto mais, que na época , os citados intelectuais orgânicos democráticos apoiavam massacres dos seus filhos da puta, como os de Timor e muitos outros. Digamos que tanto Foucault como Brecht eram mais subversivos do que isso. Brecht mesmo em relação aos estalinistas era suficientemente crítico para lhes dizer ironicamente, naqueles versos sobre a insurreição berlinense conta o poder estalinista: “o partido perdeu a confiança do povo, mas não se pode mudar de povo?” .

  24. pedro picoito diz:

    O

  25. Albert Einstein, Max Planck, Alfred Nobel, Stephen Hawking (ou os nossos Câmara Pestana, Egas Moniz), são ou foram “intelectuais”?

    Mais do que “saber muito”, um intelectual não se define antes por saber “pensar bem”, seja lá o que isso for?

    Dietrich Schwanitz, David Mamet, ou Jacques Attali, como Jorge de Sena, Eduardo Lourenço, ou Rui Vieira Néry, não serão tão ou mais intelectuais do que os “pensadores” e os “especialistas” actualmente tão em moda nos círculos mediáticos?

    Aguardemos serenamente pelo Futuro…

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