Espírito reformista

Quando me falam de contas lembro-me, muitas vezes, da cena do Fight Club onde o protagonista explica, ao seu outro eu, o seu trabalho na seguradora. Ele é pago para calcular o volume de indemnizações que um defeito de um carro pode gerar e, quando o custo das compensações e processos é superior ao custo de retirar o modelo defeituoso de circulação, manda retirar os carros assassinos. É toda uma lógica que só se demove, sem comover-se, com os mortos e feridos, quando eles ultrapassam o custo da correcção do erro.

Ontem, tive um exemplo das virtudes reformistas do nosso governo, há quem se preocupe com a oposição, eu prefiro preocupar-me com quem tem a mão na massa… Adiante, uma amiga minha foi ter a criança à maternidade Alfredo da Costa, onde tinha feito todo o acompanhamento do parto. Quando entrou em trabalho de parto gerou-se o pânico: a Alfredo da Costa e todas as maternidades públicas de Lisboa estavam lotadas. No meio do trabalho de parto, com a criança já a sair,  foi mandada para o Barreiro…podia ser pior, também existe hospital em Bragança, embora, provalmente, já tenham fechado a maternidade.

Consultados os médicos, parece tratar-se de um problema habitual, desde que o grande reformador Correia de Campos fechou várias maternidades.

As desgraças de uns são as alegrias de outros: a excelente reforma poupa dinheiro ao orçamento, para coisas verdadeiramente importantes, e manda mais clientes para o privado. Se alguém morrer numa ambulância, estaremos perante um pequeno dano colateral, perfeitamente suportável perante a nobre missão reformadora do nosso governo.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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