A sombra das eleições

Portugal tem uma funesta tradição de gente que desconfia das eleições.

Chamemos-lhes democépticos. Não são forçosamente antidemocráticos, evidentemente, ou até pelo contrário. Simplesmente, consideram que nada é mais prioritário do que reformar o país segundo as reformas sempre urgentes do consenso técnico. Nada é mais importante do que reformar o país – nem mesmo o próprio país.

E pouco nos damos conta de como o democepticismo pertence à nossa cultura. A ponto de se tornar discreto, quase invisível, como um hábito. A recente tomada de posição da Sedes sobre o estado da Nação estava impregnada desta desconfiança, às vezes passando como mera constatação de facto. A primeira frase da sua conclusão, com toda a tranquilidade do mundo, falava da “sombra das eleições”.

A sombra das eleições: nada é mais urgente do que fazer as reformas, mas as eleições, esse empecilho, podem pôr as reformas em risco. A sombra das eleições: o povo, o Governo, os partidos arriscam-se a perder a cabeça e deitar tudo a perder. A sombra das eleições: esta sensacional escolha de palavras deveria obrigar toda a gente sisuda e responsável deste país – e ela é tanta – a lembrar-se que é preciso ler com muito cuidadinho qualquer texto antes de lá escrever o nosso nome. Mesmo quando vem da Sedes.

Talvez o democepticismo da Sedes seja justificado, talvez ele seja impensado, mas a questão está precisamente aí. Não chegamos a saber.

Ele ali aparece, sem elaboração nem justificação nem consequência, pois não passa de um penduricalho dos tiques e manias nacionais. Não parece que os autores do documento queiram seguir o seu próprio raciocínio sobre “a sombra das eleições”. Nem sei se eles acham que as eleições de quatro em quatro anos atrapalham as coisas. Provavelmente não acham. Sei que se limitam a falar como se isso fosse verdade.

Em nenhuma outra área pode ser tão útil a opinião publicada como no questionar dos próprios pressupostos que nos regem. Os pressupostos são estes: as eleições são ruído, o povo escolhe quem lhe oferece facilidades, ninguém quer encarar a realidade, a geração actual é mais ignorante do que a anteriores, já gastamos muito em educação, o país está condenado à mediocridade, nada mudou desde os tempos do Eça, não há dinheiro não há vícios nem investimentos, o único caminho é a retracção, o cavalo do espanhol estava quase a ficar competitivo antes de morrer de inanição. Podemos achar tudo isto pouco nocivo: mas são pressupostos iguais aos de uma caridosa ditadura. Ouvem-se por todo o lado.

Pelo contrário, em nenhum lado se ouve: as eleições são um grande momento de definição de prioridades, o povo escolhe quem lhe oferece um discurso persuasivo, sem passar por isso nem as reformas estariam mandatadas democraticamente, país onde é preciso reformar tudo perdeu o sentido das proporções, para ultrapassar uma crise o primeiro passo é manter o que está bem, se retraímos as protecções sociais a crise bate mais forte e é mais duradoura.

Sabem que mais? Nenhuma reforma seria tão bem-vinda como a reforma das banalidades que nos regem. Banalidades sobre as reformas, banalidades sobre a crise, banalidades sobre o país. Repetimo-las tanto que elas se tornaram no nosso mundo.

14.07.2008, Rui Tavares

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7 Responses to A sombra das eleições

  1. Sérgio diz:

    “Pelo contrário, em nenhum lado se ouve: as eleições são um grande momento de definição de prioridades, o povo escolhe quem lhe oferece um discurso persuasivo, sem passar por isso nem as reformas estariam mandatadas democraticamente, país onde é preciso reformar tudo perdeu o sentido das proporções, para ultrapassar uma crise o primeiro passo é manter o que está bem, se retraímos as protecções sociais a crise bate mais forte e é mais duradoura.”

    E sabe porquê? Porque é mentira.
    Não há discurso algum, não há ideias e o discurso persuasivo consiste em meia-duzia de soundbytes cujo partido candidato não faz a minima intenção de cumprir.
    De resto estou certo que o partido do governo irá, até às eleições, esbanjar todos os trocos que nos fez poupar e quando la chegar possivelmente até promete um referendo no próximo tratado da UE.
    A política em Portugal está podre. Eu sempre acreditei na democracia mas nestes ultimos anos, mais do que simples incompetência, vejo má fé, corrupção, nepotismo, plutocracia e mais uma data de palavras caras. Caras e trágicas.
    É por isso que estou a considerar abster-me pela primeira vez na minha vida. É que não me apetece voltar a participar de uma festa em que quem come o bolo são sempre os mesmos.

  2. Excelente texto. “Podemos achar tudo isto pouco nocivo: mas são pressupostos iguais aos de uma caridosa ditadura”: é isso mesmo, este é um discurso precursor de um salvador da pátria, visto que alegadamente nem o povo nem os políticos vão lá. Só realmente uma elite esclarecida, como no tempo magnífico do Estado Novo, que tanto poupou na educação e noutras áreas onde agora se esbanja tanto…

  3. “Portugal tem uma funesta tradição de gente que desconfia das eleições.”

    Por acaso é verdade, são para aí uns 90 %.
    Porque será ?

  4. A Moura Pinto diz:

    Tá bem… mas essa do cavalo (do espanhol ou do inglês?) parece não ser bem assim. O que se pretendia era desabituar o cavalo de comer, reduzindo a ração a pouco e pouco. E o cavalo lá ia aguentando, até que acabou por morrer, não colaborando com o dono que, naturalmente, pretendia um cavalo que não lhe desse encargos com a alimentação.

  5. Luis Moreira diz:

    É muito mau mas não há melhor e já agora nada nos impede de nos juntarmos em novos partidos,organizações cívicas e comissões lá no bairro.

    Todos os dias há 10 Milhões (um bocadinho menos) de portugueses que têm
    soluções para tudo mas não mexem uma palha!

    Há aí novos partidos.Ajudem,organizem-se!

  6. Se os mandatos fosem de dois anos. As mentiras diminuiriam, o poder político construia melhor. Teriam uma espada sobre as cabeças.

  7. Muito bem!

    Esse magno e obscuro conceito das “reformas” é mais uma absoluta vacuidade com que se pretende disfarçar o vazio de ideias, de princípios e de acção que “preenche” não só a maioria da nossa classe política, como a generalidade dos Cidadãos e, sobretudo, das supostas “élites” nacionais – académicos, intelectuais, “líderes de opinião” alheia, ex-governantes…

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