Teoria e prática da irracionalidade

Em qualquer negociação ou conflito muito depende da irracionalidade plausível do nosso adversário. Quando se fala em atacar o Irão diz–se que Ahmadinejad é louco, mas o mundo conviveu com as armas nucleares de Estaline e Mao, sobre os quais nenhum psiquiatra teria dúvidas, e acabámos de conseguir fechar o programa nuclear do norte-coreano Kim Jong Il, ele próprio um caso mental bizarro.

Vamos partir do princípio de que Ahmadinejad ameaçou Israel com a aniquilação directa (embora a frase que pronunciou, segundo tradutores independentes, fosse antes uma previsão do fim do regime “ocupante” israelita) e imaginar que ele determinasse a política externa do seu país (o que não se verifica: esse poder, incluindo o de declaração de guerra, é detido pelo ayatollah supremo, Khamenei). Por outro lado, os seus adversários têm como objectivo confessado a destruição do regime iraniano, e ocuparam os dois países vizinhos do Irão, o Afeganistão a leste e o Iraque a oeste. De um lado e de outro, ninguém está disposto a abandonar no início de negociações a maior alavanca de que dispõe.

No caso iraniano, essa alavanca corresponde ao programa nuclear. No caso do Ocidente, trata-se da ameaça do uso da força: mas uma coisa é a ameaça, que pode ou não ser explícita, e outra a noção clara, que os iranianos terão sempre, de que os EUA e Israel nunca deixam de ter capacidade militar para um ataque mesmo que não o coloquem ostensivamente em cima da mesa.

Contrariamente ao que se pensa, não houve ainda negociações com o Irão com a extensão daquelas que, usando a diplomacia multilateral, acabaram com o programa nuclear da Coreia do Norte. O objectivo das negociações deve ser o abandono do programa nuclear iraniano, mas a União Europeia impõe a suspensão como pré-condição para as negociações; ora, um objectivo não precisa de ser uma pré-condição. Os EUA, por outro lado, não têm diplomatas em Teerão e continuam a afirmar que mudariam o regime iraniano. Para quê negociar, então? Este estado de coisas não tem servido de nada. Não falar com o Irão tem sido inútil para os EUA e não impediu Teerão de enriquecer urânio.

A promessa de alterar uma estratégia que tem falhado nos últimos anos, e negociar directamente com o Irão, é provavelmente a medida mais corajosa e inovadora da campanha de Barack Obama. Saber se vai conseguir mantê-la é decisivo.

Aqui regressamos à questão da racionalidade, mas de outra forma. Querem os teóricos que as relações internacionais obedeçam às equações de força entre potências e regiões no globo terreste. Observam os práticos que elas obedecem, as mais das vezes, ao estado interno dos debates em cada país.

No Ocidente, uma corrente em decadência – a dos neoconservadores – sempre desejou um conflito com o Irão. Relatórios dos próprios serviços secretos americanos, que dão o Irão como muito longe de ter armas nucleares, foram desvalorizados pelos neoconservadores, que mantiveram a necessidade de atacar. Mas passaram por cima do facto de que, se os serviços secretos estão enganados, então ninguém sabe onde se localiza o programa nuclear num país grande como o Irão – e um ataque corre o risco de ser inútil, o que seria o pior de dois mundos.

Note-se que as operações secretas em curso de que fala agora um documento do Congresso americano, e que foi divulgado por Seymour Hersh da New Yorker, já não têm nada a ver com o programa nuclear: trata-se apenas de desestabilização de minorias étnicas no Irão, o que poderia criar um casus belli inteiramente novo. Na guerra a qualquer custo, o pretexto é menos importante do que o calendário, e o calendário neoconservador está a esgotar-se: resta o Verão e o Outono que aí vêm.

09.07.2008, Rui Tavares

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