Falsos gémeos

É opinião corrente que os dois maiores partidos portugueses, o PSD e o PS, são praticamente iguais. É uma opinião que dá jeito aos restantes partidos e que tem algum fundamento, sem dúvida, na percepção pública que existe de ambos.

Devo dizer que, para meu gosto, PS e PSD são mais parecidos do que deveriam ser. Em parte, isso deve-se à contiguidade social entre parcelas das suas camadas dirigentes, principalmente fora dos grandes centros urbanos. Há também aquele fenómeno designado pela elegante palavra “desideologização” e a evidência de que um carreirista é parecido em todo o lado e mais ainda nos partidos que de vez em quando passam pelo Governo.

Mas tal como há diferenças de grau, há também semelhanças de grau. A sociologia de café – disciplina-base para a escrita de uma crónica de jornal – diz–nos que a contiguidade social entre PS e PSD não é igual em todo o país. Certos caciques do PS na província podem nunca ter visto um sindicalista na vida e serem compadres do cacique equivalente do PSD. Mas, nas grandes cidades, é bem possível que o colega de trabalho seja do PCP ou do BE. A urbanização crescente talvez favoreça esta proximidade no futuro, ao passo que a criação do BE e a actividade da “ala esquerda” do PS aumentam a porosidade entre os eleitorados dos partidos de esquerda.

A tal “desideologização” também não se declina da mesma forma em cada partido. O PS foi fundado por um homem, Mário Soares, apaixonado pela discussão ideológica primeiro e pragmático, muito pragmático até, mas só depois. O fundador do PSD, Sá Carneiro, era o contrário disto. Com o tempo, o PSD ganhou orgulho em não ter ideologia (um erro que tem pagado e continuará a pagar a preços consideráveis). Ao menos o PS, quando não tem pensamento político, sente alguma vergonha por isso.

Defini o PSD aqui há dias como um partido não de alternativas, nem sequer de poder, mas apenas um partido que sente que deveria estar no Governo. Não apreciando o debate filosófico, com um fundo anti-intelectual fortíssimo e com um preconceito contra a modernização cultural que considera “de esquerda”, o PSD está sempre infelicíssimo na oposição. Isto é especialmente notório entre os chamados “barões”. Para eles, a política, mesmo o partido, é uma maçada: só vale a pena sair do conselho de administração se houver a cadeira de um ministério para ocupar.

Já o PS suspeita muitas vezes de que teria mais qualidade de vida na oposição do que no Governo. O professor do ISCTE, depois de ter sido ministro, sabe que vai ter de aturar os colegas lá do departamento para que estes lhe expliquem, em teoria, como ele falhou na prática. Nos tempos de oposição, pelo menos, estava toda a gente de acordo.

Os tempos de oposição tem, assim, efeitos diferentes sobre o PS e o PSD. O PS sai mais rejuvenescido e com mais hipóteses de convencer o eleitorado de esquerda a optar pelo voto útil. O PSD definha na oposição, não sabe o que fazer, e muito menos onde encontrar novo eleitorado.

No Governo, por outro lado, o PS tem tendência a menosprezar as causas de esquerda e a afastar–se para o centro. Isso torna-o mais parecido com o PSD e pode fazê-lo pagar o mesmo preço no futuro. Com uma desvantagem: com a concorrência à sua esquerda no BE e no PCP, e a contiguidade e porosidade crescente de que falámos, os votos têm para onde ir depois de perdidos.

02.07.2008, Rui Tavares

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