O modelo

Eles crescem, e por isso se perdem (como as crianças pequenas, já a minha avó dizia, todas uns encantos, antes de se tornarem uns estupores). Tomai A.: moço fermoso e um porreiraço também, que agenciava como modelo aos artistas; enquanto era só o gesto galante, tudo bem, parece que era um regalo vê-lo, era o poseur do nosso bairro, mas depois… ai, que desperdício!, o rapaz não se conteve e foi para as belas-artes, e aquele canudo que ele lá ganhou ao fim de muitos anos foi também o seu fim. Ouvi no outro dia a história numa mesa de jantar, contada por uma amiga da minha mulher que é casada com um pintor: que este já não quer o bom do A. como modelo, não porque ele esteja flácido ou acabado, longe disso, mas porque desde que o licenciaram pintor quer ensinar o ofício aos artistas, e em vez de posar calado parece uma estátua falante, não sei se é das ganzas mas não pára de dar palpites, um non sense pegado, já viram se as personagens literárias também se sublevassem e quisessem dizer aos autores como é que os livros deviam ser escritos? – Barro, sois barro!, A., conformai-vos com a vossa condição!, sugeri eu que respondessem a esse Prometeu de Campo de Ourique; mas depois a conversa seguiu noutra direcção e eu fiquei sozinho a imaginar divertido um tal desregramento da criação: parece que se aproximam ciclópicas mudanças e eu não me importo nada com isso.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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