O referendo que poderia ter salvo Lisboa

Os leitores são livres de achar que todas as minhas crónicas são inúteis. Eu acho que a de hoje é ainda um pouco mais inútil. Não muda nada, não há nada a fazer, o que passou passou. A crónica de hoje é acerca do referendo que poderia ter salvo o Tratado de Lisboa. E esse referendo teria sido – nem mais nem menos – aquele que nós não fizemos aqui em Portugal.
Aqui há uns meses, toda a gente pensava que a aprovação do Tratado de Lisboa no referendo irlandês era um risco controlado. O verdadeiro problema estava no Reino Unido, onde Gordon Brown poderia não escapar a um referendo que certamente chumbaria o tratado, e onde mesmo uma ratificação parlamentar estava longe de estar garantida.

Cada referendo a mais poderia colocar em risco a posição de Gordon Brown. E isto não foi apenas um dos argumentos alegados por José Sócrates para não ir a referendo. Foi “o” argumento: Angela Merkel e Nicolas Sarkozy foram bastante claros sobre como seria perigoso um referendo em Portugal. Os rumores davam conta de que Gordon Brown temia pela sobrevivência do seu governo e dizia-se que o embaixador britânico em Lisboa fazia horas extraordinárias para explicar isso mesmo a São Bento. O destino de Londres jogava-se em Lisboa. Pior: o destino da UE jogava-se em Lisboa. Se nós fizéssemos o referendo, o tratado não passava e aí vinha o directório. Não fizemos o referendo.
Avancemos até Junho de 2008. Os irlandeses chumbaram o tratado. Logo depois, em Londres, a Câmara dos Pares concluiu a ratificação do Tratado de Lisboa no Reino Unido.
Sempre achei bastante esquisita (e disse-o) esta história de Gordon Brown estar preso pela decisão que tomassem aqui os portuguesinhos. E agora vê-se quão esquisita era: o governo de Gordon Brown não está mais seguro do que antes, mas no entanto consegue aprovar sem espinhas o Tratado de Lisboa dias depois do “não” irlandês.
Vamos então imaginar que, indiferentes à sorte de Gordon Brown, os portugueses tivessem mesmo podido referendar o Tratado de Lisboa. O primeiro-ministro teria cumprido com a sua promessa. Nós teríamos tido um debate – que nos faz muita falta – sobre Portugal, a Europa e a globalização. Esse debate não seria isento de sensacionalismos nem exageros de ambas as partes, mas ainda assim teria sido sempre melhor do que não o fazer. Finalmente, como ninguém sabe o que teria acontecido no dia da votação, limito-me a arriscar sem grande risco que o “sim” teria ganho esse referendo.

Agora vem o melhor: a União Europeia teria avançado sem a mancha de ter evitado todos os referendos possíveis (o irlandês era inevitável por ser um imperativo constitucional). E com um pouco de sorte, até seguiria para o referendo irlandês com uma vitória portuguesa na aljava, que poderia influenciar positivamente o debate naquele outro país pequeno e periférico da União.
Como muitas crónicas inúteis, esta tem uma moral da história: abandonar o princípio do referendo por razões pragmáticas foi mau para os princípios e para o pragmatismo. Ter mantido o princípio teria sido bom para os princípios, é claro, mas poderia até ter sido bom em termos pragmáticos. Se todos os meus “ses” estivessem correctos – e nunca o saberemos -, o referendo português não teria posto em risco o Tratado de Lisboa. É bem possível que até o tivesse salvo.

25.06.2008, Rui Tavares

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12 Responses to O referendo que poderia ter salvo Lisboa

  1. Model500 diz:

    Absolutamente de acordo. Em Portugal o SIM ganhava de caras. Os partidários do Tratado estariam hoje numa situação bem mais vantajosa. Básicos!

  2. Luis Rainha diz:

    Não estou muito a ver o eleitorado irlandês deixar-se influenciar pelos rústicos deste cu da Europa, mas enfim…

  3. Caro Rui Tavares,

    penso que a continuação deste romance, ainda que bem intencionado, sobre os referendos que não houve é quase tão destrutiva com as dissertações sobre o referendo que houve.
    Não sei se a sua intenção é destruir o projecto europeu mas, mesmo que não seja, está a dar um grande contributo para esse resultado.
    Quando é que os comentadores tentarão perceber o estado de espírito da população ?
    Se fizessem um referendo sobre as crónicas dos jornais estou certo de que a maioria pediria que acabassem com esta conversa deprimente dos referendos.
    São estas dissertações intermináveis sobre assuntos que as pessoas não percebem nem querem perceber e cuja utilidade lhes escapa que levarão a Europa ao desastre.

  4. P.Porto diz:

    É possível que o sim vencesse em Portugal. Afinal estamos no grupo dos pedindes. O que é duvidoso é que o referendo passasse na Alemanha. Afinal, a Constituição europeia já tinha sido derrotada nos referendos na Holanda e na França em 2005. O Tratado de Lisboa é uma peça maior e mais confusa do que a Constituição, mas praticamente igual no conteúdo.

    Mas o que efetivamente conta é que o iluminismo está vivo no século XXI: os políticos e os altos funcionários ‘sabem’ o que é melhor para os povos, e aos povos compete obedecer e aceitar a infantilidade a que os ‘iluminados’ os remetem.

    Consegue-se perceber que os politicos e muitos quadros da FP sejam contra os referendos nacionais, afinal a UE benificia-os largamente e eles não querem ver os seus previlégios desaparecerem por causa de um malfadado referendo. O que não se consegue perceber é que quem não faz parte da classe política nem do grupo dos que legislam à margem do controlo do Parlamento aceite a condição de criança obediente, melhor forma de definir a condição de ‘cidadão europeu’. Isto é válido mesmo para aqueles que se gostariam de votar ‘sim’ a esta União Soviética soft em que a UE se transformou.

  5. joséjosé diz:

    Qual quê ! Os irlandeses não se deixavam influenciar pelo povo que só tem “heróis ” e “melhores do mundo” ? Tá de caras …

  6. Ele há cada esquizóide nas caixinhas de comentários…

  7. Pedro K(Costa) Ferreira diz:

    Se
    Se
    Se

    Se o Moutinho tivesse a coxa mais comprida Portugal teria ganho à Alemanha.

    Se o N Gomes tivesse o pescoço mais comprido Portugal teria ganho à Alemanha.

    Se o Pepe tivesse baixado a cabeça Portugal teria ganho à Alemanha.

    Se o Sócrates tivesse organizado um referendo, se o referendo tivesse dado sim e se o sim português tivesse influenciado os irlandeses seríamos todos mais felizes.

    E especialmente se cá nevasse, fazia-se cá ski.

  8. QWERTY diz:

    Os irlandeses também são rústicos, ó princesa.

  9. Lololinhazinha diz:

    “São estas dissertações intermináveis sobre assuntos que as pessoas não percebem nem querem perceber e cuja utilidade lhes escapa que levarão a Europa ao desastre.”

    Concordo inteiramente

  10. pensei diz:

    Pensei que iria falar sobre a influência do T.L. sobre a vida dos cidadãos.Pensei sobre quais as classes que vão ganhar com este tratado.
    65 horas semanais como projecto de civilização,está bem.Ah!pois é ,bébé.Por isso,o seu ensaio ou lá o que é,é de uma inutilidade do caneco!

  11. Duende61310 diz:

    O que por aqui vai…. Então a UE sem referendos é uma URSS Soft???? Deviamos fazer referendos em todos os países porque isso sim seria democrático!!!!
    OK. Vamos tomar isso como base. E então o que aconteceria se todos os países excepto o mais pequeno da UE (em número de cidadãos com capacidade eleitoral) votassem SIM com participação de 100% e nesse país ganhasse o não com uma participação de 1% da população no acto eleitoral (vamos admitir que como acontece com a Irlanda não houvesse um mínimo para que o resultado fosse vinculativo).
    Sabem o que acontecia?????
    Ah pois é, o tratado era rejeitado da mesma forma. Pois…. isso parece-me uma…… como é que lhe chamam quando uma minoria de cidadãos condiciona o funcionamento e opções da maioria da população? Não sei se é ditadura mas deve ser um nome feio de certeza.
    Não esqueçam que os referendos só podem ser feitos país a país e contados um a um. Não é possível fazer um referendo global (como já ouvi por aí a algumas almas que fazem por esquecer este facto). E isso dá uma percentagem mínima de probabilidades de aprovação. Mesmo que haja uma larga maioria (desconheço se existe ou não) de europeus de desejarem aprovar seja que tratado for.
    Dito isto não estou a defender em particular este tratado ou outro qualquer. Apenas sou contra o método de referendar país a país os tratados europeus. Que é a base deste Post me pareceu.

  12. Carlos Fonseca diz:

    Chiu! Não falem em tratados sejam eles de onde forem. ‘Enquanto se está jogando futibol’, o Tratado de Lisboa e, se necessário, outros estão em estado de hibernação. Um dia nunca antes anunciado, os grandes líderes fazem, entre si, um referendo de verdadeira intimidade democrática e, então, uma nova era despertará para os povos ingratos, incultos e desinformados da UE. Virão os amanhãs que cantam a melodia que esses milhões de criaturas não sabem ouvir.

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