Foleiro, pá

Nos próximos tempos vamos ouvir dezenas de explicações sobre o voto irlandês contra o Tratado de Lisboa. A minha teoria é a seguinte: as pessoas reagem mal a uma pergunta desonesta, uma pergunta para a qual lhes fazem sentir que só é admissível uma resposta. Nestes casos, corre-se o risco de ouvir a resposta inadmissível.

Eu teria votado “sim”; mas não lamento o que sucedeu aos líderes europeus, que merecem plenamente este sonoro “vão-se lixar” em gaélico. Pela milésima vez: num processo constituinte não há nada mais importante do que a maneira como se fazem as coisas. E eles tentaram tudo para não as fazer da maneira certa: desde a convenção constituinte nomeada e não eleita, ao esboço no qual Giscard d’Estaing interveio como lhe deu na real gana, ao “diálogo” que nos foi prometido após os “não” francês e holandês e ninguém viu, à promessa de um minitratado, tratado simplificado, tratado reformador, para acabar num tratado propositadamente ilegível para fugir aos referendos – este foi um caminho de hipocrisia e chantagem trilhado à vista de todos.

E é assim mesmo que vai continuar até à plena satisfação das altas esferas. O debate é agora entre seduzir os irlandeses para um novo referendo com um pacote mais bonito ou, em alternativa, o método Nicholas Sarkozy: empurrá–los até um canto e puni-los por terem feito a escolha errada.
O excelente resultado está à vista. Mas haveria outra forma?

Declaração de interesses: Miguel Portas foi director do primeiro jornal no qual trabalhei e considero-me seu amigo. É também eurodeputado pelo Bloco de Esquerda (ao contrário de mim, defende o “não” ao Tratado de Lisboa). E, por último, é a pessoa a quem já ouvi a proposta mais razoável sobre como sair deste impasse. Tendo em conta tudo isto, aqui vai:

Os governos da União deveriam admitir que o processo nasceu torto e nunca se endireitou. Tomariam então uma decisão simples: dar ao próximo Parlamento Europeu poderes de natureza constituinte para um esboço de novo texto. Em Junho de 2009 os europeus vão às urnas para as eleições europeias, nas quais os partidos se candidatariam com as suas ideias: nenhuma constituição, uma constituição, mais social, mais liberal, um tratado simplificado ou consolidado, o que seja.

Após as eleições, o Parlamento Europeu prepararia um primeiro esboço do novo texto. Este seria enviado aos parlamentos nacionais, para ser emendado. Depois subiria ao Conselho Europeu, onde estão todos os governos, e que funcionaria como um senado onde cada país vale o mesmo (para compensar a composição “demográfica” do Parlamento Europeu). Finalmente, este novo texto seria ratificado pelos parlamentos e/ou votado em referendos nacionais, mas realizados nos vários países europeus ao mesmo tempo.

Pode falhar? Pode sim. Mas, para variar, seria um caminho honesto.

Em território espanhol, o Presidente da República comentou o fim do bloqueio dos camionistas. Subitamente, ao perguntarem-lhe por que razão tinha chamado ao 10 de Junho o “dia da raça”, escusou-se alegando que “aqui não faço comentários sobre política interna”. Isto não é apenas uma contradição em poucos segundos, chega a ser gozar com as pessoas. Cavaco Silva deveria ter mais cuidado: os presidente usufruem de um respeito generalizado na medida em que tratam com respeito os cidadãos, e assim se dão ao respeito.

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Segunda | Rui Tavares
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7 Responses to Foleiro, pá

  1. Paulo Pinto diz:

    Eu cá mantenho a minha: se o Tratado tivesse sido aprovado durante uma presidência irlandesa da UE, numa cimeira em Dublin e, portanto, ficasse com esse nome, duvido muito que os irlandeses tivessem votado assim. É idiota, mas é verdade.

  2. Maria João Pires diz:

    Ora ainda bem que falas nisso, permites-me recuperar uma parte da crónica do Pedro Magalhães de ontem no Público que me fez sorrir (um sorriso meio ácido/sardónico), «E uma curiosidade: nas sondagens que colocavam a questão sobre o “Tratado de Lisboa” em vez de “Tratado Reformador”, os resultados eram invariavelmente piores para o “sim”.».

  3. A.Silva diz:

    As questões preocupantes do momento para a economia de muitos dos países da UE,e a falta de uma estratégia concertada por parte das instituções europeias para as enfrentar,levam muitos europeus e não só os irlandeses a pensar,que os problemas das pessoas não preocupam os senhores de Bruxelas.A desconfiança e o receio afastam cada vez mais os cidadãos dos seus representantes nas instituições da UE

  4. Excelente Artigo! Parabéns, Rui Tavares.

    Concordo plenamente com o Miguel Portas, que tem a primeira reacção realmente construtiva no meio de toda esta vozearia de bancada em que se tornou a discussão da questão europeia.

    «Shame on you, too», N. Ramos de Almeida…

  5. Ou seja, a proposta de Portas resume-se basicamente a: em vez de um tratado ilegível termos múltiplos tratados ilegíveis consoante as forças políticas que dele apresentassem esboços para que este fosse mais tarde finalizado pelo PE e rectificado pelos Estados…Nada mais simples, pá. Se eu quisesse desburocratizar um processo não escolheria melhor caminho. E é claro que os milhões de cidadãos europeus que se estão nas tintas para ler um, unzinho, exemplar iriam resfolegar de contentamento perante a possibilidade de se discutir aturadamente cinco? seis? sete?, propostas. Nada mais simples!
    Porreiro pá. Por este brilhante esquema teríamos um QUALQUER tratado lá para 2013.
    Fucking brillant!

  6. Luís diz:

    Parece-me que já não é somente a questão do tratado, a própria união europeia também nasceu torta e assim não há tratado que resista.
    No último parágrafo lá vem o bom do rui bater no PR outra vez pela questão menos importante. Por que foi o PR comentar o lockout dos camionistas para espanha ? Por cá esteve caladito mas assim que passou a fronteira, e a poeira assentou, foi vê-lo a comentar como se não houvesse amanhã. Seria para fazer inveja a nuestros hermanos ? Para mostrar que o seu PM já aprendeu umas coisas com o Scolari – “só tava defendendo os mininos” ?
    Caro Rui Tavares, a politicagem, arghhh que isto custa até a escrever, também passa por estas criticas de cordel que ofusca as verdadeiras questões. Assim sendo, e como dizia o outro, os cães ladram mas a caravana passa. Quase que apostava que o pormenor da “raça” não passou de um isco, tão apetitoso para a esquerda, para desviar atenções.

  7. Agora, o que começa a fazer algumas cócegas, é o nosso primeiro-ministro vir dizer: é uma derrota pessoal. Como?! Então, estão 200 mil professores na rua, quatrocentos mil trabalhadores da função pública aos berros e está tudo bem, estou em grande. Mas, se duzentos e tal mil irlandeses ,dizem – no (não é “Não”, é – No), ele diz que é uma derrota pessoal: “Estou muito triste. Depois de tudo o que eu fiz pelos Irlandeses nos últimos anos, nomeadamente deixando Portugal ficar para trás, é assim que os irlandeses agradecem. Vou já aumentar o IVA da Guinness!
    Mas o que provoca urticaria, da chata, é que o Tratado se chame “de Lisboa”! Para quem nasceu na capital não é bonito ver o nome da cidade arrastado em cartazes pelas ruas de Dublin. “No a Lisboa”, é mau para o turismo. Fica Lisboa associada a uma coisa triste, cinzenta , onde o sol é substituído pela cara do Durão Barroso e as traineiras pela Angela Merkel a nadar bruços. Porque não, o Tratado de Sócrates? já que é uma coisa tão pessoal. Aliás, já tínhamos visto que era pessoal porque ninguém perguntou o que é que nós achávamos. É uma coisa de família, não temos nada que meter o bedelho. Tratado Sócrates, é uma boa oportunidade para haver cartazes a dizer: Yes to Sócrates – Tudo menos Lisboa. Já temos os fados e o Tejo, chega perfeitamente. E não temos nada a ver com isso. Chamem-lhe Tratado de Seychelles, pode ser que as pessoas digam que sim a julgar que tem a ver com descontos em férias. Ou tratado raerejhh. Daqueles nomes que nunca ninguém percebe bem como é que se diz, e por isso uma pessoa faz só o princípio e o fim e grunhe o resto.

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