Maravilhas da democracia

O governo checo persiste na sua determinação de instalar uma base dos sistema anti-mísseis norte-americano no seu território, apesar de 70 por centos dos checos estarem contra. Um porta-voz do executivo de direita afirmou que “a política de segurança é demasiado complexa para poder ser decidida pelas populações”.
Nicolas Sarkozy quer que os irlandeses repitam o referendo até sair um “sim”.
Sábias criaturas, a democracia só serve para fazer escolhas profundas como a cor dos cortinados. De resto, é fundamental que as populações sejam afastadas de qualquer decisão estratégica e muito complicada para o seus neurónios. Felizmente que há sempre gente preparada e ligada aos interesses correctos que deve escolher pelo bem dessa massa ingnara e ignorante que é o povo.
A política real vive no paradigma do “meu filho quer queiras ou não hás-de ser um bombeiro voluntário”.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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13 Responses to Maravilhas da democracia

  1. jz diz:

    Não confundamos democracia com democracia directa. Vivendo nós em democracia representativa temos de nos lembrar que uma medida impopular não é a mesma coisa que uma medida anti-democrática e que os governos têm o dever e o direito — legitimado através da eleição democrática– de governar como decidam ser melhor.
    As tentativas de introduzir esquemas de decisão directa terão, na minha opinião, de ser usados com cuidado. Senão, resultam em decisões sem significado como o referendo irlandês, em que praticamente nenhum dos votantes sabia no que estava a votar.

  2. luis eme diz:

    exemplos sábios de gente da “escola” salazarenta… não conseguem é chegar ao partido único e à vontade suprema, como o conseguiu o nosso grande ditador…

  3. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Jz,
    O resultado da Irlanda prova que neste caso só há democracia directa. Se elas se confundissem , os eleitores teriam seguido os 93 por cento de parlamentares irlandeses que eram favoráveis ao Tratado de Lisboa.
    Outro exemplo, a maioria dos eleitores europeus foram contra a invasão do Iraque, que se saiba nenhum dos partidos de governo que apoiou a guerra colocou no seu programa eleitoral, quando foram a votos, o apoio cego à política de Bush. No entanto, foram bastantes os governos , como o Português, que apoiaram Bush contra a opinião dos seus cidadãos. Este tipo de comportamentos é a negação da democracia.

  4. O comentário do jz fez-me bem ao fígado. Ri como um desalmado! depois caí em mim e percebi porque é que este país ( e a Europa em geral) é um grupo de contentinhos com a democarcia que lhes permite o acesso ao telemóvel e a toda a parafernália de objectos de consumo com que se deleitam. Passe a publicidade, recomendo ao jz e a todos os que como ele estão tão satisfeitos coma democracia consumista, a leitura de “Felicidade Paradoxal” do Gilles Lipovetsky

  5. defacto diz:

    E em Portugal não constava do programa eleitoral do PS subir os impostos.
    E ganhas as eleições é o que se tem visto.

  6. nm diz:

    Enquanto houve União Soviética, os governos ocidentais ainda tiveram de fazer de conta que tinham preocupações sociais e que respeitavam os Direitos Humanos. Depois da queda do muro, cairam as máscaras.

  7. Luis Moreira diz:

    Votar de 4 em 4 anos e viva o velho,é esta a democracia que nos querem impingir.

  8. jz diz:

    Nuno:
    Respondendo ‘a sua comparacao: um dos meus problemas com o referendo da irlanda e’ que a pergunta que foi feita remete o eleitor para um texto que ele nao leu, do qual ele nao sabe do que se trata e, sendo o texto constituido por inumeras medidas, nao se sabe ao que o eleitor esta a responder ‘sim’ ou ‘nao’.
    Ja a pergunta ‘A Irlanda dever-se-a’ manter na Uniao Europeia?’ teria sido mais adequada.
    A confusao entre democracia e democracia directa esta’ em chamar uma medida impopular de anti-democratica. A ratificacao do tratado noutros paises por via parlamentar nao e’ anti-democratica (sendo talvez impopular).

    carlos oliveira: voce e’ mesmo esperto. Atraves do meu texto de 4 linhas desvendou toda a minha psique. De facto, escrevo este comentario atraves do meu telemovel 4.5G ao mesmo tempo que me deleito com a minha televisao e outras parafernalias. Agradeco a sua recomendacao literaria tao misericordiosa mas (como certamente tera ja depreendido) nao sei absorver informacao que nao seja veiculada em episodios de 5min da MTV.

  9. A questão da República Checa não pode ser colocada dessa forma. Não se deve governar em virtude das sondagens (ou será que defende isso?). O Governo Checo foi eleito democraticamente e tem legitimidade para tomar tal posição. Sobre isso não há dúvidas. Ou acha que deve olhar para as sondagens antes de tomar decisões? As pessoas elegem os governantes, mediante um programa político, para tomarem decisões. É ridículo olhar para a sondagens que existem e retirar legitimidade às decisões políticas.

    Sobre o referendo da Irlanda, concordo com o que diz, aliás, posição essa também subscrita pelo presidente Vaclav Klaus.

    Cumprimentos

  10. Nuno Ramos de Almeida diz:

    A eleição do governo checo não lhe permite fazer tudo. Decisões importantes devem reunir um largo consenso nacional até porque implicam o conjunto da sociedade nelas. O que eu contesto, é o facto de o governo achar que os cidadãos não se podem pronunciar sobre essas matérias e que a democracia está condicionada a questões folclóricas que depois não têm relevância prática: uma espécie de alternância sem alternativa.

  11. Citando Lénine diz:

    «Tomai o parlamento burguês. Será possível admitir que nunca tenha ouvido dizer que os parlamentos burgueses estão tanto mais submetidos à Bolsa e aos banqueiros quanto mais desenvolvida está a democracia? Daqui não decorre que não se deva utilizar o parlamentarismo burguês (e os bolcheviques utilizaram-no talvez com maior êxito que qualquer outro partido no mundo, pois em 1912-1914 conquistámos toda a cúria operária da IV Duma). Mas disto decorre que só um liberal pode esquecer o carácter historicamente limitado e relativo do parlamentarismo burguês. No mais democrático Estado burguês, as massas oprimidas deparam a cada passo com a contradição flagrante entre a igualdade formal, que a «democracia» dos capitalistas proclama, e os milhares de limitações e subterfúgios reais que fazem dos proletários escravos assalariados. É precisamente esta contradição que abre os olhos às massas para a podridão, a falsidade e a hipocrisia do capitalismo. É precisamente esta contradição que os agitadores e propagandistas do socialismo denunciam constantemente perante as massas a fim de as preparar para a revolução!»

  12. A questão é relevante: o Povo “tem querer”, ou é como as crianças?

    Para um democrata, obviamente que a soberania popular é uma coisa séria e para levar a sério. Seja qual for o grau de maturidade de um Povo (assim como uma pessoa de 18 anos se torna maior de idade, seja qual for o seu efectivo grau de maturidade).

    O Governo checo, se foi eleito democraticamente, tem toda a legitimidade para decidir o que quiser quanto à defesa do País. Se os Cidadãos estão contra, bem, então assumam a sua discordância como Povo adulto e accionem os mecanismos democráticos que impeçam a prossecução da decisão a que se opõem. Quanto mais não seja, votem noutro Partido para o Governo que revogue a decisão tomada pelo actual.

    Assim também na Irlanda: se o Povo não quer o Tratado de Lisboa, que não o tenha. Ponto final.

    Mas a decisão só vincula a Irlanda, não o resto da Europa. Será que os irlandeses estão à altura de compreender as consequências da decisão que tomaram? É que a Liberdade é isso mesmo: responsabilizar quem decide…

    Quanto a Sarkozy e a outros que tais, bem, quem não é democrata (nem nunca foi), enfim, pode pensar como entender…

  13. A castanho,
    1.Não consigo estar mais em desacordo consigo. A decisão do governo checo é imbecil e subserviente aos EUA e não leva em conta a opinião da sua população. É anti-democrática e estúpida.
    2. O referendo irlandês não vincula apenas a Irlanda, leia as regras de aprovação do tratado e verá que o Tratado de Lisboa, assim como no caso da a finada Constituição, apenas entrará em vigor se TODOS os países o aprovarem. O voto da Irlanda tem, portanto implicações em toda a UE.

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