Da politicagem à política

Em tudo aquilo que um político faz há sempre uma parte de “politicagem” – prático brasileirismo que designa as manobras de curto prazo contra rivais, adversários e às vezes companheiros de partido. O ritmo do ciclo noticioso dá mais atenção à politicagem do que à política, e mais atenção a alguns efeitos da politicagem do que a outros. Foi assim que, na semana passada, quando Manuel Alegre participou num comício do Bloco de Esquerda, o efeito imediato foi pensar na irritação que isso provocaria a José Sócrates – o que foi favorecido pelas reacções de dois políticos que devem pouco à subtileza, Vitalino Canas e José Lello.

Menosprezou-se o efeito sobre os outros partidos da oposição. O PSD acabara de eleger o seu líder, pela primeira vez uma mulher, Manuela Ferreira Leite. Três dias depois, de que se falava? A agenda jornalística oscilou completamente para a esquerda do PS, esvaziando o fôlego que o PSD trazia do seu debate interno. E atenção: nas próximas eleições vai haver um eleitorado flutuante que o PSD vai ter de disputar com a oposição à esquerda do PS – e neste momento, as sondagens dão ao PSD pouca distância sobre o conjunto PCP+BE.

Mas há um aspecto de política (por oposto a politicagem) que dá relevância de longo prazo àquele evento. Agora que passou algum tempo, demos-lhe a devida importância.

A rivalidade entre lideranças da esquerda portuguesa tem, costuma dizer-se, raízes históricas. Talvez seja, mas a verdade é que a manutenção da rivalidade tem sido do interesse dessas lideranças, que para segurar votos apresentam as respectivas diferenças como inultrapassáveis. À esquerda do PS, por exemplo, faz-se sempre um grande alarido à volta dos “desvios de direita” do governo. Não é que eles não existam: mas o alarido serve para disfarçar as mudanças por que passaram os próprios desde os tempos em que defendiam a colectivização revolucionária.

A verdadinha é que toda a gente é hoje mais ou menos reformista e social-democrata. Na mente do povo de esquerda, que é uma porção considerável do eleitorado, estão acima de tudo a equidade e justiça, a qualidade dos serviços públicos, a protecção social na saúde e na velhice, a aposta na educação. Este povo de esquerda português (ao qual – já agora – me orgulho de pertencer) quer ver estes temas no centro do debate político. As linhas de fractura partidária e as rivalidades entre lideranças dizem-nos pouco, às vezes nada. A imagem do país que gostaríamos de ter, e do papel activo que toda a esquerda deve ter nele, dizem-nos muito mais.

Não há, ainda, um discurso articulado de combate às desigualdades. Manuel Alegre e o Bloco estiveram longe de o apresentar. Mas refutaram ao menos o preconceito de que não podiam falar em conjunto. Serão premiados por isso – o que dará às outras lideranças a lição de que a abertura compensa. O problema é que, a seguir, deixam de ter pretextos para continuar a não falar. Até porque, esquecendo as lideranças, há outras iniciativas na calha: o povo de esquerda quer mais.

O Presidente da República tem a obrigação de ser rigoroso quando fala e de pedir desculpas quando falha. Mais vergonhoso do que enganar-se no nome de um feriado é não admitir comentar e corrigir o erro. Ontem não foi dia de lembrar a “raça”, como disse Cavaco Silva com encantadora ignorância. Ontem comemorou-se o Dia de Portugal, no aniversário da morte de Luís de Camões, sozinho e abandonado por todos, menos por um estrangeiro da ilha de Java, que era o seu mais fiel amigo. Onde estava então a “raça” portuguesa?

11.06.2008, Rui Tavares

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Segunda | Rui Tavares
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14 Responses to Da politicagem à política

  1. Luís diz:

    ““politicagem” – prático brasileirismo ”

    Politiquice não lhe sôa melhor ?

    “A imagem do país que gostaríamos de ter, e do papel activo que toda a esquerda deve ter nele, dizem-nos muito mais.”

    Pois, mas a esquerda não lhe faz a vontade. Limitam-se a berrar contra qualquer tipo de reforma, melhores politicas e não sei quê, sem apresentar uma única ideia alternativa credivel. A direita praticamente não existe,e assim sendo ” um discurso articulado ” como sugere, é apenas uma utopia.
    Presentemente a única oposição que há ao governo resume-se aos dislates e tiques ditadoriais do seu chefe.

  2. João Santos diz:

    Caro Rui Tavares,

    Só para deixar o “recado” de que foi um tudo-nada oportunista a sua intervenção ontem na SIC Notícias, aproveitando para politizar – para o lado que lhe interessa, claro está – as polémicas palavras de Cavaco Silva. Foi um momento de propaganda óptimo. Só penso que devia pedir desculpa (em off) ao seu colega que não o podia mandar calar e comentar o assunto que estava em causa naquele “Opinião Pública”

    Obrigado

  3. Caro João Santos;

    Sou comentador da Sic-notícias para comentar aquilo que o canal e eu considerarmos relevante, após conferência entre ambos. Acho muito relevante que um Presidente da República se engane no nome do feriado nacional do país e não diga nada depois disso, deixando as suas palavras serem interpretadas e usadas de toda a forma, até em manifestações de extrema-direita. Acho mais relevante ainda haver um monte de gente neste país que acha irrelevante. Significa que continuamos a desvalorizar as palavras, os seus significados, a sua história, e a premiar a ignorância e a incultura no seu uso. Gente que não faz ideia da importância do termo “raça”, da sua história, da história do “dia da raça”, e para quem Camões é um detalhe sem importância — nem sequer referido — no dia da sua morte. Acho crucial notar isso, antes que o assunto “morra”, perante um presidente que nos pede rigor e exigência, e a quem eu exijo o mesmo. O tema do programa era aliás esse, e foi apenas mudado à última hora por causa do bloqueio dos camionistas. Se quer saber, portanto, fui eu que me adaptei ao pedido da estação e não o contrário. Porém, pedi ao director para fazer aquele comentário, e avisei o jornalista antes de entrarmos no ar. Só que em vez de o jornalista inventar uma pergunta para introduzir o tema, decidimos que eu o faria daquela forma. Esclarecido?

  4. Luís: também pensei em usar “politiquice”. Simplesmente, politiquice parece-me referir-se mais a uma questão de pormenor, “uma politiquice” ou “a politiquice”. “Politicagem” parece-me mais adequado, dá mais a ideia de manobra, táctica ou “agência” no sentido sociológico do termo. Além disso, “politicagem” pode dar-me jeito noutras ocasiões. Entre usar um brasileirismo ou um estrangeirismo, prefiro sempre ir pelo primeiro e introduzi-lo até no nosso discurso. Afinal, se os brasileiros usam o idioma completo, justifica-se a gente usar-lhes umas palavrinhas de vez em quando, não?

    Quanto ao discurso articulado: é a coisa mais difícil de conseguir, efectivamente. Mas mesmo não havendo uma resposta, creio que começa a haver respostas, e que a esquerda deve pensar nelas. Tenho tentado, à minha maneira, aproximar-me dessas respostas naquelas crónicas.

  5. RAF diz:

    O “povo de esquerda”. Que bela imagem.

    Esse “povo de esquerda”, que tende a crescer, à medida em que aumenta a intervenção do Estado? Mais Estado, mais crise, mais povo de esquerda, essa forma reciclada e pseudo-moderna do antes proletariado. Quanto mais “povo de esquerda” houver, mais desigualdades haverá.

    Boa sorte na vossa crença que o BE-PCP podem aproximar-se do PSD, e ser algum dia alterativa para o que quer que seja, que não para minar o sistema democrático, com um pseudo-moralismo quase tão fascista como outros, que merecem as nossas críticas sem reservas.

  6. “Esse “povo de esquerda”, que tende a crescer, à medida em que aumenta a intervenção do Estado?”

    Não é exactamente ao contrário? Polanyi chamou-lhe o duplo movimento…

  7. Laurens diz:

    RAF
    Engano seu. Quanto melhor o PSD mostra aquilo que é mais a esquerda cresce. Afinal o que é o PSD?
    Essa da esquerda de proletariado é mesmo saloia. Há muita gente com sentimento de esquerda, por razão muito simples: – A capacidade de ter vergonha na cara.

  8. Luís diz:

    Rui Tavares

    Compreendo os seus argumentos mas essa “politicagem” magoa-me o tímpano. Não lhe sei explicar, é uma questão de ouvido,concerteza.
    Em relação às respostas, parece-me que a esquerda actual é mais de fazer perguntas, de provocações. O seu comentário relativo à questão da “raça” é um bom exemplo disso mesmo. Perdem tempo com lapsos linguisticos, e não atentam no que é verdadeiramente importante. Critique-se o silêncio do PR relativamente aos camionistas, não aos seus erros linguisticos.
    É este o maior problema da esquerda, falta de conteúdo, muita parra e pouca uva.

  9. Royal Air Force diz:

    Quando vemos que quanto Menos estado,mais crise,mais desigualdade,mais exploração veem para aqui distorcer a lógica e pôr tudo ao contrário com uma naturalidade bruta,será caso para perguntar se estaremos perante um génio (do Mal),ou se por um boçal ultramontano .

  10. RAF diz:

    l.rodrigues,

    “Não é exactamente ao contrário? Polanyi chamou-lhe o duplo movimento…”

    Quanto mais pobreza houver, mais gente se vai aninhar no regaço do Estado, mais pobreza se lhe seguirá, mais pedinchice teremos. Em Portugal, este é um ciclo vicioso…

  11. Caro Luís: o meu problema não é com um lapso linguístico. É com a falta de rigor e exigência.

  12. O “Dia da Raça” é apenas mais uma das monumentais e disparatadas “gaffes” com que o nosso venerando e atarantado Presilhas nos vem regularmente brindando de cada vez que abre aquela boca em dias festivos. O que só mostra que, por força talvez da sua provecta idade, pelo menos uma coisa já perdeu de todo: a VERGONHA.

    Quanto à Esquerda, ou às Esquerdas, acho que ainda é demasiado cedo para tirar conclusões das profundas mutações em curso. Virá o tempo em que se perceberá melhor que a maioria dos observadores se (nos?) enganam rotundamente quando colocam forças políticas como o PCP à Esquerda e classificam a governação socialista como de centro-direita.

    A meu ver, nunca houve como hoje um Governo tão realmente à Esquerda em Portugal, desde os tempos de Vasco Gonçalves, e se o preço a pagar por ele é termos contestação “de Esquerda” na rua e um Presidente sub-conscientemente salazarista, eu (e penso que muitos mais) estou disposto a pagá-lo. Não já por mim, é um facto, mas pelos que virão a seguir…

  13. RAF diz:

    Caro Laurens,

    “Quanto melhor o PSD mostra aquilo que é mais a esquerda cresce. Afinal o que é o PSD?”.

    Estas são boas questões, mas deve faze-las ao PSD, e não a mim, que não sou responsável pelo que se passa no PSD.

    “Há muita gente com sentimento de esquerda, por razão muito simples: – A capacidade de ter vergonha na cara.”

    Olhe, esse complexo de superioridade moral da esquerda era muito simpático no tempo dos nossos bisavós, onde ser de esquerda dava uns ares de padreco laico; nos dias de hoje, ser de esquerda é uma coisa que nem os próprios sabem o que é, mas que devia, sim, fazer-vos corar de vergonha. Ou não lhe causa vergonha o facto do Estado assumir 50% da riqueza criada e não ser capaz de reduzir as desigualdades? E que os países que reduziram a desigualdade, têm percentagens de intervenção bem menores do que as nossas? É que nunca o Estado teve tantos recursos à sua disposição, e, ao mesmo tempo, nunca houve tanta desigualdade. O assunto é certamente complicado, mas essa da “capacidade de ter vergonha da cara” é um bocadinho de nada de pessoa distraída…

    Caro Royal Air Force,

    “Quando vemos que quanto Menos estado, mais crise, mais desigualdade, mais exploração veem para aqui distorcer a lógica e pôr tudo ao contrário com uma naturalidade bruta, será caso para perguntar se estaremos perante um génio (do Mal), ou se por um boçal ultramontano”.

    Certamente Vossemecê é um génio do bem, uma pessoa muito melhor do que eu, à semelhança do seu amigo Laurens, que é de esquerda porque tem vergonha na cara, e deve ter modos muito finos, ao contrário deste coitado aqui que não passa de um boçal ultramontano. Mas tomo a liberdade de lhe dizer que não há cada vez menos Estado, antes pelo contrário. A sua frase está quase perfeita, mas falha nessa pequena troca, do “mais” pelo “menos”. A sua frase estaria impecável se fosse, “Quando vemos que quanto Mais estado,mais crise,mais desigualdade”, porque é esta a conclusão lógica de quem olha sem paixões para os números: nunca o Estado teve à sua disposição tantos recursos – 50% do PIB – nunca houve tanta desigualdade. Curioso. Já agora, esfregue os óculos. Estão sujos.

  14. A.Silva diz:

    Realmente o programa da SIC-N que se chama Opinião Pública,foi quase todo dedicado á sua opinião.Primeiro com a questão do dia da raça e o PR depois em relação ao que estava a passar com os transportadores e o problema dos combustiveis.Talvez tenha sido o programa da Opinião Pública que menos telefonemas atendeu.Deram-lhe o palco e o senhor aproveitou bem o tempo.

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