Da asneira também nasce a luz

Este post atlântico já seria notável apenas pelo número de disparates que a sua autora conseguiu condensar em tão poucas linhas: a ANTRAM é socialista, representa apenas os grandes operadores e até só se abastece de combustível em Espanha. Mas vale a pena ir lá para ler o primeiro comentário, deixado por quem aparenta saber do assunto; coisa bem rara nestes dias de bloqueio.
Tomo aqui a liberdade de o gamar, agradecendo ao autor, HO:

«Em regra, não tenho pachorra para paranóias conspiracionistas, mas permita-me que a esclareça quanto a alguns pontos (full disclosure: colaborador ocasional de empresas de distribuição e logística, médias/grandes):

– A ANTRAM não é a voz das grandes transportadoras. A esmagadora maioria das associadas da ANTRAM são pequenas empresas, com menos de 10 veículos. Uma larga parte são micro-empresas, com 2/3 trabalhadores. Se uma boa parte dos corpos gerentes da ANTRAM são representantes de empresas de maior dimensão, isso deve-se ao facto de as empresas mais pequenas não terem quadros com disponibilidade para ocuparem esse tipo de funções. Mas os votos não são alocados por tonelagem ou volume de facturação.

– As grandes transportadores abastecem-se de gasóleo em Portugal na mesma medida que as pequenas. Este tópico não tem qualquer relação com a dimensão da empresa, mas sim com o tipo de mercado em que operam. Uma empresa com dois semi-trailers que se dedique aos transportes internacionais, certamente que os abastecerá em Espanha. As maiores empresas de distribuição capilar, de carga fraccionada, abastecem quase exclusivamente em Portugal – não levam os carros de Lisboa para Badajoz para comprar gasóleo, nem o andam a contrabandear.

– É claro que as grandes transportadoras compram o combustível a preços mais baixos que as pequenas. Compram mais, têm maior poder negocial, forçam as gasolineiras a acordos de preços mais vantajosos. Acontece o mesmo com os pneus, os leasings, o capital, os empilhadores, as paletes, as lonas. A isto pode chamar-se, coloquialmente, economias de escala.

– A generalidade das grandes transportadoras não fizeram greve porque:
primo, têm um activo mais valioso a proteger, a confiança dos clientes. Há questões de segmentação de mercado significativas para a explicação deste aspecto;
doppo, não têm um interesse muito vasto na “agenda reivindicativa” dos grevistas. É verdade que boa parte delas está mais interessada na questão dos reembolsos do IVA, por exemplo, do que no gasóleo profissional, a que algumas se chegam mesmo a opor. Mas isto deve-se ao facto de terem estruturas de custos mais saudáveis (ou, se preferir uma neutralidade forçada, diferentes). O impacto da subida dos preços dos combustíveis na facturação varia mais em função de factores de eficiência do que dimensão. É óbvio que a situação actual poderá conduzir a uma limpeza do mercado; e as empresas mais eficientes têm algum interesse nisso. Não faz é qualquer sentido protestar contra a consolidação e concentração do mercado em nome da concorrência. Se as melhores empresas a acrescentar valor são as maiores, so what? O pior que um governo pode fazer é proteger empresas pouco eficientes e pouco competitivas, mesmo que sejam pequeninas.

– Lateralmente, não faz muito sentido afirmar consecutivamente que a ANTRAM é a voz das grandes transportadoras e uma voz socialista. É mais ou menos público que os patrões das maiores empresas privadas de transporte de mercadorias não são, na sua maioria, socialistas. E uma boa parte são multinacionais.

– Em suma, existe uma forte correlação entre a dimensão das empresas e a sua capacidade de criação de valor e eficiência no sector da distribuição rodoviária – muito devido a razões históricas. Noutros, é ao contrário. Passe a vulgaridade, não é o tamanho que importa. O que o governo deveria fazer – e não fará, nem, já agora, a ANTRAM o pressionará nesse sentido – era proteger os consumidores, os contribuintes e a liberdade de mercado, sem outro tipo de considerações.

– Eu até concordo com o que escreve na penúltima frase. O estado tem um enorme sentido de classe: quando é grande, gosta de proteger os grandes. Mas neste caso particular, não é aplicável.»

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2 Responses to Da asneira também nasce a luz

  1. Laurens diz:

    Não dá para admirar. No tempo de salazar quem não gostasse de fascismo era comunista.

  2. Luis Moreira diz:

    A rapariga só queria dizer que há socialismo na marosca.O resto é Atlântico.Democrático,sensato…

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