Fora de jogo

Um meu amigo angolano acredita que os seus compatriotas têm como principal esteio da sua alma colectiva um tipo muito específico de megalomania. Corporizado, por exemplo, no orgulho desmedido em tudo o que é angolano. Até nas desgraças. Por exemplo, conta-me esse amigo que ouviu a seguinte resposta de um patrício, a propósito já não sei de que conflito armado: “mas essa guerra tinha Migs? Não? Então não deve ter sido grande coisa. A nossa guerra… essa sim, foi guerra a sério”. No último mundial de futebol, mal a selecção angolana amealhou uns pontos, todo o país, media incluídos, se convenceu de que iam ser campeões do mundo. A sério.
Durante meses, andei com esta questão no fundo do cérebro. Mas onde é que os angolanos terão ido buscar este optimismo alucinado, esta esfuziante independência da realidade? Agora, desde que começou o Euro, já não tenho dúvidas: a maleita foi exportada de Portugal.
Logo após a vitória sobre os turcos, a alucinação tornou-se consensual. As bandeirinhas regressaram, mais enfunadas e berrantes que nunca. Gente até aqui razoável anda a fazer contas de cabeça, calculando itinerários para a final. Já perdi a conta às vezes que ouvi “comentadores” radiofónicos juntar na mesma frase a expressão “conquistar o Euro” e o nome da nossa pobre e sumida pátria.
O problema é que isso não vai acontecer. E tanto investimento emocional numas quantas criaturas que sabem dar uns bons chutos mas ainda nem sequer se provaram enquanto equipa só pode acabar mal. Quando as coisas derem para o torto, todo o país vai aterrar na dura realidade. De cabeça.
A diferença para os angolanos é que eles estão já tão mal que só entrevêem futuros promissores, com ou sem bola; o seu mundo é optimista por obrigação. Nós passamos a vida a olhar para baixo, esperançados em por fim ver surgir o fundo do poço, o momento em que isto já não pode piorar. Não precisamos mesmo nada de mais uma neura colectiva.

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