O “status” de andar de bicicleta

Ainda no rescaldo do Dia do Ambiente, destaco um bom texto – já com alguns dias -, vejam bem, de Luís Rocha (o “mata-mouros” que escreve sempre a azul), no Blasfémias (não é todos os dias): “É tudo uma questão de status”. Já não digo que Luís Rocha ande de bicicleta (o relevo do Porto de facto não ajuda muito), mas espero ao menos que não ande de carro e aproveite o excelente Metro do Porto. Será?

Efectivamente, em Portugal quem não anda de carro não tem “status” – e é nestes pequenos pormenores que se vê como somos um país de gente pobre, que dá muito valor às aparências, preza o enriquecimento fácil e despreza o trabalho. Pode comer-se mal, mas ai de nós se não formos de carrinho. Para não ir de transportes públicos, por exemplo, diz-que que eles “não funcionam bem” (em Lisboa poderiam funcionar melhor, de facto, mas parece que há quem queira ter uma estação de metro sempre à porta, e não se lembre que numa cidade atafulhada de carros não andam nem os carros, nem os autocarros). Para não ir de bicicleta, inventam-se as desculpas mais baratas, como o “relevo de Lisboa” (as colinas de Lisboa são evidentemente acidentadas, mas a maior parte da área da cidade é quase plana ou pouco inclinada, Avenida da Liberdade incluída). Ou, como não poderia deixar de ser, o “status”! É neste texto da sua colega Helena Matos, um belo exemplo de como um suposto “feminismo” pode servir para disfarçar o reaccionarismo. Mas o preço do petróleo tem subido, e há de continuar a subir. Só que enquanto eu vir as nossas cidades cheias de carros privados, não me venham dizer que a gasolina está cara. Leiam a resposta do Tárique.

Este artigo foi publicado em cinco dias and tagged , , . Bookmark the permalink.

13 Responses to O “status” de andar de bicicleta

  1. O Filipe Moura fique a saber que o seu texto tem como consequência imediata, eu desejar que se criem portagens à entrada de Lisboa e Porto para os não residentes. Talvez a coisa resulte e isto faz-me recordar aquela história do dilema de Carlos III de Espanha. Tentou durante anos convencer os espanhóis a vestirem-se “à francesa”, trazendo-os para o seu século. Teimosamente, continuavam com as mesmas capas e chapéus de abas largas, desleixados e sujos. Foi então que decretou o novo traje dos carrascos: as tais capas e os chapéus de abas largas. Milagre! Do dia para a noite toda a gente passou a vestir-se “à europeia”…

  2. Mazinha diz:

    Eu cá achei mais piada aos comentários ao texto do LR. Um diz mesmo “Ir para a província foi uma opção livre e tomada em consciência, que deveria ter tomado em conta o custo de aquisição do carro e do combustível.”

    Isto é fantástico e tipico de suburbanos metidos a cosmopolitas: acharem que o resto de Portugal é “província” (seja lá isso o que for), e que “se vai para lá”. Isto pode ser um choque mas é verdade: há imensa gente que nasceu e viveu sempre fora de Porto e Lisboa!

    Da bicicleta não falo porque não sei sequer andar, mas dos transportes públicos posso falar. O serviço entre cidades de média dimensão é péssimo. Vivo numa aldeia entre Famalicão e Póvoa de Varzim (zona litoral…) e o último autocarro é às 19.30. Comboio não há porque o governo de Cavaco Silva desactivou a linha.
    Por uma questão de economia, vou de autocarro para o trabalho, mas muitas vezes espero mais de 20 minutos junto à estrada nacional, onde nem um abrigo para passageiros há.
    Tenho carro e uso, não por status, nem por mania das grandezas mas porque – olhem lá o atrevimento desta provinciana da classe média em sarilhos – volta e meia vou ao cinema, às compras depois do trabalho, ao ginásio. Que lata a desta gente da província, agarrada aos carros!

    De facto, o Metro do Porto é excelente e uso-o imensas vezes. Acho que nunca fui a Lisboa de carro, uso sempre o comboio. Mas há muita gente que vive fora destas cidades e que tem poucas alternativas de transporte. E mais: nem sequer tem “passe social”, quanto mais direito a congelamento dos mesmos!

    Filipe, desculpe lá o arrazoado, mas o texto do LR é tudo menos bom. Demonstra ali um prazerzinho mesquinho em ver as pessoas enrascadas.
    A mudança de hábitos deveria surgir da mudança de mentalidades, de consciência ecológica, de ruas contruídas com passeios largos, de ciclovias, de arruamentos pedonais, boas redes de transportes públicos.
    Não do prazer pelo endividamento do vizinho que até já teve de cortar na Coa Cola dos filhos (se bem que esta ultima coisa seja boa…).
    O LR é claramente um morcão em todo o seu esplendor.

  3. Tal como afirma a Mazinha, há que distinguir quem usa o carro por não ter alternativa de quem usa o carro com transporte público próximo. As minhas críticas neste texto vão para estes últimos, que usam o carro provavelmente uma vez mais em nome de uma qualquer “liberdade individual”. Por isso lhe pergunto, ó Nuno Castelo Branco: por que raio a portagem à entrada das grandes cidades haveria de ser só para os “não residentes”? Para os residentes, os que menos deveriam usar o carro e mais deveriam usar o transporte público, poderem andar de carro dentro da cidade à vontade?

  4. Filipe, eu ia mais longe acabando com os autocarros dentro do perímetro da 2ª circular. Em seu lugar, traziam-se de volta os eléctricos (ou metro de superfície, como se diz no Porto) mas em versão quebra-gelos para rebentar com todo o carro mal-estacionado, residente ou suburbano.

    Nuno C.-B.,
    Plenamente de acordo.

  5. “Por isso lhe pergunto, ó Nuno Castelo Branco: por que raio a portagem à entrada das grandes cidades haveria de ser só para os “não residentes”? Para os residentes, os que menos deveriam usar o carro e mais deveriam usar o transporte público, poderem andar de carro dentro da cidade à vontade?”

    Filipe,
    Até poderia concordar que isentar os residentes não só não traz grandes prejuízos como parece discriminação mas:
    1. O número de carros de não-residentes que entra diariamente em Lisboa é a causa do caos; há quase 3 milhões de almas ao redor da cidade e menos de um milhão residente na mesma.
    2. A colocação de portagens (congestion charges) é da responsabilidade do município de Lisboa. Nunca haverá coragem política para o fazer se isso afectar negativamente quem o elege.

  6. Para o Filipe Moura:
    Tem TODA a razão! Para nós, os residentes, também seria aplicada a portagem. Aliás, vou muito a Caxias e o comboio é o transporte ideal. Peço-lhe que me desculpe o lapso, ou melhor a patetice. 🙂

  7. “A colocação de portagens (congestion charges) é da responsabilidade do município de Lisboa. Nunca haverá coragem política para o fazer se isso afectar negativamente quem o elege.”

    Dorean, de facto aqui tens toda a razão.

    Nuno, ok! Lapsos temos todos :).

  8. Já agora…
    Vivi 18 anos no Príncipe Real e não imaginam o que é tentar encontrar um lugar para estacionar o carro. Por vezes, via tipos a dormir dentro das viaturas e estranhava, até me ter apercebido que eram peregrinos que residindo fora de Lisboa, entravam de carro na cidade às 5 ou 6 da manhã, encontravam um lugar e dormiam um pouco mais. Incrível, mas verdadeiro! A mentalidade pequeno-burguesa incutida pelos cartõezinhos de crédito e pelo alegado “status” carro, origina coisas destas. Assim, o parqueamento pago para não residentes e as portagens à porta da cidade, talvez trouxessem uma certa consciencialização. E mais, creio que o tipo de carro contaria para essa portagem. Por exemplo, quem traga carros de grande cilindrada e viaturas “agrícolas” (vulgo jeeps) que ocupam enormes espaços, teria que pagar mais. Quanto a alternância diária de matrículas, parece-me boa coisa.
    Quanto à coragem política, tem razão: missão impossível.
    Nos anos 80, recordo-me de ouvir o arq. Telles na sede do PPM, falar longamente acerca do futuro problema do excesso de automóveis em Lisboa, do ordenamento (ou desordenamento, melhor será dizer) do território, etc. Como em muitas outras questões – regime incluído – tinha razão.
    Há que fazer algo, pelo interesse da comunidade.

  9. Tárique diz:

    Um colega meu que abandonou a utilização do carro para começar a usar a bicicleta em Lisboa (poupando tempo nas suas deslocações) foi gozado por amigos e familiares, que disseram que ele assim parecia “um mendigo”.

    Ainda acerca do assunto do estatuto, o Miguel do Menos1Carro lembra de como, ao que parece, o carro é mais imprescindível para os homens do que para as mulheres. Porque será?

  10. Tárique diz:

    O teu colega Luís Mota enviou uma carta ao José Manuel Fernandes acerca desse artigo. Podes lê-la aqui .

  11. Luís Lavoura diz:

    O Porto, tal como Lisboa, não tem relevo assinalável a não ser quando se sobe desde junto ao rio. A parte mais ao norte do Porto, tal como a de Lisboa, é relativamente plana.

    A Avenida da Liberdade, em Lisboa, não é muito plana não. Custa um bom bocado a subir de bicicleta, digo eu que já o fiz muitas vezes quando era jovem.

  12. Desde 01 de Janeiro deste ano que abandonei a utilização diária do automóvel para me deslocar diariamente por Lisboa de bicicleta. Lisboa, à semelhança de muitas outras cidades do mundo, tem naturalmente umas subiditas, que no sentido contrário se transformam em descidas (coisa que, por razões às quais sou alheio, pouca gente se parece lembrar). Através dos diversos estudos da orografia da cidade que fiz (graças às novas tercnologias e à modelação digital de terrenos a 3 dimensões), salta à vista o facto de mais de 50% da área urbana da cidade se encontrar no planalto central, numa zona de inclinações quase ZERO.
    Há uns dias atrás, um amigo que também se desloca de bicicleta disse-me algo interessante: “O automóvel é coisa de classe média, pá!” Passo a explicar: 1º) A classe média compra casa longe do centro da cidade, porque não tem dinheiro para mais e, por isso, tem de andar de carro. É obrigada a tê-lo e a sustentá-lo. Por isso não tem dinheiro. 2º) Os sítios que escolhem para morar são tão “mortos” de vida (sem lojas, mercearias, talhos, padarias, cafés ou tasquinhas) que são obrigados a usar o carro até para irem às compras ou divertirem-se. 3º) O dinheiro que por ano queimam em combustível, revisões, estacionamento, portagens e etc, dava para umas boas férias numa qualquer ilha paradisíaca, para toda a família. Naturalmente não o fazem, pela razão apontada.
    O “status do ridículo”, típico das gentes da classe média portuguesa, tem o seu expoente máximo quando se vê alguém, na cidade, a conduzir o seu belo jipe (mesmo a cair de podre) como se isto fosse um safari, o que contribui ainda mais, para que se afundem naquilo a que, ignorantemente, chamam de “necessidade”.
    Quando digo “classe média”, naturalmente estou a falar do quoficiente de inteligência ………. ou da falta dele !

    Paulo Santos
    Mais de 1100km percorridos de bike em Lisboa, desde 01/Jan/2008
    “Status” de engenheiro, professor e investigador. Mas sem caganças !!

  13. Pedro Costa diz:

    Concordo plenamente com o que diz o Paulo Santos e acrescento algo mais acerca disso. Muitas das pessoas que conheço e entram todos os dias no porto de carro fazem-no por comodidade, porque ate moram perto do eixo urbano dos caminhos de ferro e poderiam sim vir de carro ate a uma estaçao (cada vez tem menos lugares disponiveis para estacionamento graças aos combustiveis) e fazer o resto do trajecto de comboio (30 a 40min para fazer 30km) e depois atravessar de gaia ao polo universitario em 15min… mas nao existem em usar o carrinho e gastar metade do tempo desde que saem de casa ate que chegam a faculdade.
    Um dia uma colega por nao ter o seu carro de marca alema disponivel teve mesmo de vir de comboio e perguntei-lhe a ela o porque de nao usar todos os dias, ao qual me responde “comboio e coisa de pobres”… bem isto se chama novos ricos que graças a fugir aos impostos e a policia com carga a mais por eixo nos camioes conseguiram fazer “fortuna”.
    Por outro lado conheço alguns engenheiros e pessoas de classe social superior que nao se importam de partilhar a viagem de comboio todos os dias, porque preferiram trocar um apartamento no centro do porto por uma vivenda com espaço na periferia.
    Eu proprio uso muito a minha bicicleta (no verao quando tenho tempo com as ferias) e nao faço mais de 500km ano a nivel nacional com o automovel, mas mais de 2000km ano com a bicicleta.

    Com os melhores cumprimentos
    Pedro Costa

Os comentários estão fechados.