Anzóis para desesperados

Sabiam vocês que «os cancros são energias que se transformaram em líquidos estagnados, que por sua vez solidificam, crescem e multiplicam-se graças ao calor no seu interior, e, depois, disseminam-se usando uma energia do tipo “vento”»?
Se estão a pensar que tal revelação da Medicina fugiu do encéfalo abençoado do professor Bambo, desenganem-se. A prosa, resumo da ideia que a medicina tradicional chinesa faz da oncologia, saiu numa revista popular há umas semanas. E foi o conhecido Dr. Pedro Choy (ou “professor Doctor”, para os amigos) quem a escreveu, como desenlace de um caso clínico em que um cancro no cólon, com metástases em “quase todo o corpo”, terá sido erradicado por coisas como banxia houpo e wei qi bu em gotas.
Ignorando que até um relógio parado dá as horas certas duas vezes ao dia, o especialista em aerodinâmica dos carcinomas conclui que alguma razão deve ter a velha medicina chinesa, tendo em vista que «dificilmente se chega ao resultado positivo partindo de pressupostos errados.» O artigo vem temperado com umas gotas de respeitabilidade, pois o seu autor não resiste a citar um seu professor da faculdade de Medicina de Coimbra e ainda invoca as infalíveis siglas “TAC” e “RMN”, entre muito outro paleio médico.
Nestes dias, o senhor explora uma “Universidade” mesmo ao pé do meu escritório. E bem perto do local onde uma tal “Associação Kundalini” foi recentemente fechada a mando da ASAE – ao que parece, a instituição pedagógica do Dr. Choy tem tido mais sorte. Só espero, parafraseando os nossos amigos liberais, que os meus impostos não tenham servido para ali financiar nem um cinzeiro.

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