O ano da desigualdade

Outrora, Portugal não precisava de desculpas para não se preocupar com a desigualdade e a pobreza. Durante gerações ela estava ali, e era um mero adereço da realidade. As nossas elites nunca se distinguiram por grandes realizações; distinguiam-se apenas pela pobreza dos outros.

Somente após o grande susto da revolução essas elites aceitaram a contragosto uma série de coisas – salário mínimo, escolarização de massas, subsídio de desemprego – que em muitos outros países eram já banais.

Em tempos era estranho, quase desagradável, o filho do caseiro chegar a doutor. Passámos directamente daí para a fase do “há doutores a mais” e “já gastamos muito com a educação”. Ou seja, uma geração depois da revolução a grande diferença está na indiferença: antes não nos interessávamos pela desigualdade, agora precisamos de boas desculpas para continuar a não ter interesse.

A desculpa mais à mão, nas últimas décadas, tem sido esta: a desigualdade é um preço a pagar pela competitividade e pelo crescimento económico. O resultado dessa desculpa foi: nem crescimento, nem competitividade, nem menos desigualdade.

Se cuidarmos da economia (diziam-nos em código, o que significa, se cuidarmos das grandes empresas), a economia cuida de nós todos. E agora apresenta-se uma dúvida: e se tivéssemos cuidado primeiro de nós? Se nos tivéssemos dotado de bons instrumentos públicos, se tivéssemos usado os impostos para redistribuir riqueza e recursos, se tivéssemos combatido activamente a desigualdade? Se cuidássemos primeiro de nós, não teríamos sido melhores a cuidar depois da economia?

A dúvida é mais do que legítima: ao ver que Portugal, um dos países mais desiguais da Europa, perde nas comparações com os outros países ano após ano, chegou o momento de entender que a desigualdade não é apenas um efeito dos nossos problemas. A desigualdade é uma das causas dos nossos problemas. Só por isso ganharíamos todos em combatê-la.

O combate à desigualdade deveria ser também um combate pragmático. Mas fazer esse discurso apenas – o de que temos a ganhar com o combate à desigualdade – não basta. Parece apenas uma inversão retórica em relação à situação anterior: em vez de procurar desculpas para não nos preocuparmos com a desigualdade (a economia, o crescimento, o défice), procuramos uma desculpa para nos preocuparmos (pessoal, reparem que ganhamos todos com isso).

Não. Há razões de princípio para combater a desigualdade e a pobreza, que justificariam esse combate, mesmo que todos perdêssemos um pouco com isso. As famílias que não têm dinheiro para comida a meio do mês, os idosos que não compram os remédios, os jovens que não podem pagar explicações – não são apenas potencial por cumprir, são pessoas a quem deixamos que aconteça o que não gostaríamos que nos acontecesse a nós.

E a beleza da democracia é que há condições para tornar este problema num debate maioritário, num país como Portugal em que a maioria é feita de uma classe média-baixa com memórias da pobreza, e de muitos que ainda são pobres. Se nos deixarmos de desculpas, as próximas eleições poderão ser uma decisão entre quem quer combater a desigualdade e quem quer – como dizê-lo? – continuar a inventar desculpas.

28.05.2008, Rui Tavares

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