A mestre-escola está de volta

Ouvi ontem na TSF um apontamento de um encontro entre Manuela Ferreira Leite e alguns jovens, não sei muito bem onde. Às tantas, lá disse a senhora que “precariedade” era uma palavra que devia desaparecer dos nossos dicionários. Quase comovido com tanto desvelo social da candidata-a-líder-do-PSD-nos-próximos-6-meses, fiquei à espera de uma continuação do tipo de “temos de acabar com a insegurança que impede os jovens de iniciar carreiras, famílias, vidas produtivas normais”.
Mas não. Afinal, temos de extinguir o maldito substantivo porque a precariedade é de tal forma omnipresente que se tornou “normal”. Tudo é precário e os jovens bem podem desistir de procurar emprego com características diversas. Ou seja, entre o 80 do emprego para a vida e o 8 dos recibos verdes sem qualquer tipo de estabilidade ou horizontes, MFL não sente falta de bom senso, moderação ou  decência nas relações laborais. Para ela, o 8 está mais do que bom: habituem-se, que isso de ter férias, um mínimo de estabilidade ou, em muitos casos, protecção social, é coisa de antanho. Mas as vacas sagradas do costume podem continuar a pastar, não se sabe bem é em que prados: claro que a candidata vê “a família como um pilar fundamental da sociedade”.
A realidade tem um ar desagradável? Para esta casta de “políticos”, tudo se resolve modificando umas quantas entradas no dicionário da sua Novilíngua. Se deixarmos de mencionar os problemas, pode ser que eles se tornem “normais”. E acabam-se as reclamações num instante.

PS: só para evitar comentários idiotas, eu sou empregador e sinto, por experiência própria, que a actual legislação é demasiado restritiva. Mas nada disso implica que agora só passe a contratar malta a recibos verdes, para empregos que podem terminar, sem mais aquelas, amanhã.

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22 Responses to A mestre-escola está de volta

  1. maremoto diz:

    Excelente post. Parabens.

  2. lampiao diz:

    engraçado, o PS autor do post é todo um programa e, com base nele, exigia-se sim um post contra o Louçã que acha que não há restrições nenhuma na lei e que se devia ter emprego desde que se nasce até à morte independentemente de qualquer coisa. Ah, mas um fila de s. miguel como este nunca fala do dr louçã, pois claro. umas irrelevâncias sobre ferreira leite ainda vá que não vá, agora louçã…

  3. Luis Rainha diz:

    Eu devia ter desconfiado que tinha objectivos demasiado ambiciosos para o meu PS. “exigia-se”?? Mas por alma de quem, ó senhor? O Louçã pode vir, a breve trecho, a definir as políticas reais deste país?
    É irrealista exigir que tudo fique como está. E é enganoso apostar em coisas como a “flexigurança” — sobretudo porque não temos redes de segurança social capazes de justificar a segunda parte do neologismo.
    Mas esta de não se dever falar na coisa, como se ela não existisse… Santo Deus!

  4. lampiao diz:

    claro que se pode falar da coisa, como sabe, nos seus posts só não se fala de louçã e eu até acho que você tinha muito jeito, muito mesmo, para falar dele. falar dele assim nos mesmos modos que você fala do santana, até porque eles são muito parecidos. vá lá, desiniba-se, emancipe-se e fale-nos mal do louçã, ele merece e os seus fãs vão todos gostar de ler. um dia, mais tarde, é óbvio, tb o havemos de ver escrever sobre a menina fernanda, mas só mais tarde, porque o poder ainda não caiu na rua

  5. Luis Rainha diz:

    Vamos com calma, ó camarada benfiquista. O Louçã é parecido com o Santana Lopes? Em quê? Pode ser que ambos tenham visões bem marcadas e particularistas do mundo, mas a do Louçã pelo menos não se limita a um espelho. Isto para nem mencionar o evidente abismo que separa as capacidades mentais e a cultura das duas personagens.
    Se tem mesmo, mesmo vontade de me ler a dizer mal do líder do BE, pode visitar estas paragens: http://aspirinab.com/visitas-antigas/luis-rainha/mais-historias-de-plagios/
    Quanto a isso da “menina fernanda”, o que quer dizer?

  6. Um pouco lateralmente, lembrou-me uma coisa que li no http://www.eurotrib.com:

    “Remember the rule:

    * when things are improving, you don’t want to threaten the upwards movement;
    * when things are doing well, you don’t want to cause the economy to slow down;
    * when things are turning south, you don’t want to make things worse;
    * when things are going badly, it’s the perfect time to “reform” and deregulate labor markets – workers will be in no position to resist.

    There is no good time to share wealth with workers”

  7. The Studio diz:

    O 8 e o 80 são as duas faces da mesma moeda. Como hoje em dia as empresas não se podem comprometer a oferecer empregos para toda a vida, a solução que resta é a precaridade. E o Luis Rainha qual é a solução que defende, diga lá?

  8. Luis Rainha diz:

    A solução que pratico é não haver por aqui ninguém a recibos verdes.

  9. Luís Lavoura diz:

    “A solução que pratico é não haver por aqui ninguém a recibos verdes.”

    Eu acho muito bem essa solução.

    Provavelmente a solução que o Luís Rainha pratica é ter o pessoal todo com contrato temporário de trabalho, por três anos.

    Não é má solução mas, passados esses três anos, o Luís Rainha terá uma escolha muito dolorosa a fazer: pôr na rua um trabalhador que já conhece os processos da casa e que até é bom, ou dar-lhe um contrato permanente e arriscar-se a que, se um dia as coisas derem para o torto com a sua empresa ou com o trabalhador, se veja altamente à rasca para o despedir.

    E, na hora dessa dolorosa opção, aquilo que muitos empregadores fazem é despedir o trabalhador, e contratar para o lugar dele um outro, também com contrato a prazo.

    Julgo que ninguém, em Portugal, defende a aplicação imediata de um esquema à dinamarquesa, em que se pode pôr um trabalhador na rua de um dia para o outro sem qualquer indemnização nem pré-aviso.

    Mas penso que seria altamente razoável um esquema mais moderado, em que, desde que fosse com pré-aviso (de 3 meses, sei lá) e com indemnização (de 1 mês de salário por ano de trabalho, eu sei lá), se pudesse pôr qualquer trabalhador na rua a qualquer momento.

    (E isto deveria valer para as empresas privadas e também para o setor estatal, evidentemente.)

  10. Eu gosto mais de contratos a 3 anos do que sem termo: tenho três anos de aviso prévio em lugar de um mês. Sempre dá mais tempo para encontrar outro emprego.

  11. The Studio diz:

    Caro Luis Rainha

    O Luis Lavoura disse praticamente tudo o que há a dizer sobre este assunto. Os contratos a prazo e os recibos verdes são uma consequência da rigidez laboral. Dado que uma empresa não pode prever a evolução do mercado nem pode prever quantos empregados irá necessitar dentro de 5 ou 10 anos, e uma vez que não os pode despedir, a única solução é a precaridade. Se o Luis Rainha está contra a precaridade, comece por defender uma maior facilidade nos despedimentos. Caso contrário, é demagogia barata.

  12. Luis Moreira diz:

    Meus caros,há muito que se anda em círculo com este problema e ninguem apresenta uma saída consistente.A flexisegurança é o que parece oferecer melhores condições a ambas as partes.Tem a vantagem de estar a funcionar noutros países.É preciso melhorar as condições de flexibilidade?É preciso melhorar as condições de segurança? E isso contribui para a competitividade do país? Então chegue-se a um acordo mínimo! Assim é que não vamos a lado nenhum.

  13. LR diz:

    Studio,
    Quando escrevo “a actual legislação é demasiado restritiva”, o que acha que quero dizer?

    Mas a solução do Luís Lavoura, em termos do pré-aviso, parece-me algo draconiana. Assim como a liberalização absoluta dos motivos para despedimento; se o lado mais forte na relação laboral tem todo esse poder discricionário, parece-me impossível criar vínculos de confiança e dedicação com entre empresas e os seus quadros. Ficamos todos a perder.
    No meu caso particular, os 3 anos são suficientes para aquilatar do valor de um profissional e calcular o seu cabimento futuro na estrutura da empresa (o que aliás pode ser boa ideia, não vá ele pular para um lugar no quadro da concorrência). Claro que surpresas desagradáveis acontecem em momentos de crise. Mas já me aconteceu ter o apoio dos meus colaboradores em dias difíceis, recompensando amplamente os riscos antes corridos.

    Quanto a podermos adicionar a segurança ao “flexi”, lamentavelmente acordos não bastam para lá chegarmos…

  14. lampiao diz:

    aquele link é tudo o que v. consegue para dizer mal do louçã ? aquela coisinha pífia ? e eu a lembrar-me do auto de fé que vexa decretou contra jad apenas por a menina não ter rastejado aos pés de tão excelsa personagem. Pois meu caro é a primeira vez que, não sendo ironia o link e não é com certeza pq aí costuma ter talento, o vejo exposto ao ridículo. Quanto à menina fernanda, ora, meu caro, a sua pergunta é muito maldosa, muito mesmo.

  15. The Studio diz:

    LR:

    A questão que se coloca não é sobre o valor dos seus empregados. Não sei que tipo de empresa tem, mas admitamos que vende um produto qualquer para Espanha. Faz um estudo de mercado e chega há conclusão que se contratar 100 empregados, durante 5 anos os produtos produzidos por esses 100 empregados serão escoados. Mas após esses 5 anos não sabe o que vai acontecer. Os produtos podem continuar a vender-se, ou os Espanhois podem mudar os seus hábitos de consumo, ou pode ser superado pela concorrência chinesa… O que faz? Contrata os empregados sabendo que se deixar de precisar deles ao fim de 5 anos não os pode despedir? A questão é precisamente essa: A facilidade em despedir é proporcional à facilidade em empregar. Se as empresas pudessem despedir os empregados dos quais não precisam, também não teriam quaisquer problemas em contratar os empregados que precisam. Os “direitos adquiridos” têm assim como consequência dividir os trabalhadores em trabalhadores de primeira e trabalhadores de segunda. Os que têm os direitos todos e os precários. Por falar nisso, hoje mesmo um partido acusou o governo no parlamento de tencionar facilitar os despedimentos. Consegue imaginar qual foi esse bloco partidário? Pois, é um que também diz defender “os direitos adquiridos” e ser contra a precaridade.

  16. Luís Lavoura diz:

    “a liberalização absoluta dos motivos para despedimento”

    A alternativa à liberalização absoluta é continuarmos a ter julgamentos, nos Tribunais de Trabalho, sobre se os (alegados, podem não ser verdadeiros) motivos para um qualquer despedimento são bons ou maus.

    A mim isto assemelha-se perigosamente àquilo que os opositores da liberalização do aborto queriam: que juízes (ou médicos) decidissem, caso a caso, se cada mulher particular teria autorização para abortar.

    Eu oponho-me a ambas as coisas. Não pode haver juízes a julgar em nenhum dos casos. Um patrão pode despedir um trabalhador por razões perversas e imorais, tal como uma mulher pode abortar por razões perversas e imorais; mas não cabe, em nenhum dos dois casos, fazer entrar um juiz ao barulho.

    O despedimento deve ser livre (mas sujeito a regras de procedimento, nomeadamente uma indemnização e um pré-aviso), tal como o aborto deve ser livre (mas sujeito a regras de procedimento, também ele).

    Não pode haver juízes a julgar comportamentos que, objetivamente, não são criminosos. Um julgamento desses é um julgamento de intenções, é um julgamento sobre aquilo que vai na cabeça de cada um de nós.

  17. Luís Lavoura diz:

    “parece-me impossível criar vínculos de confiança e dedicação com entre empresas e os seus quadros”

    Isso é um assunto interno de cada empresa particular. O Luís Rainha pode considerar que, na sua empresa, é importante ter vínculos de confiança com os seus quadros. Mas um outro empresário qualquer, com uma empresa diferente, pode ter opinião diversa: pode achar que os seus funcionários são perfeitamente substituíveis por outros. Não cabe ao Estado escolher qual das empresas é a melhor: só o mercado decidirá. Se os procedimentos do Luís Rainha, de criar uma relação de confiança com os seus colaboradores, forem bons, então ótimo, a sua empresa singrará. Se não forem bons, o Luís Rainha ver-se-á em apuros. É coisa que só a ele e aos seus colaboradores diz respeito.

    Mesmo com o despedimento liberalizado, o Luís Rainha pode criar uma relação de confiança com os seus trabalhadores através do exemplo: nunca os despedindo.

  18. Montenegro diz:

    Toda a minha vida trabalhei por contra de outrem, em grandes empresas, nomeadamente, a Securitas, no qual entrei com +- 200 empregados e saía com 3500. o Grupo Tissen, na parte da elevaçao, as fragatas Meko foram feitas na Grupo. Se quer que lhe diga sempre , tive uma porta aberta, sempre fui livre como o passarinho, contratos de trabalho, isso é para os que encostam ao “trabalho”, mais, fiz recrutamento e o meu lema é “mostra o que vales” e alguns valeram e hoje, ainda estao nas empresas. Profissionais

  19. Model 500 diz:

    o Luís Lavoura é um craque. O Speakers Corner Liberal Social é o melhor blogue da nossa praça.

  20. zeca diz:

    se não é… parece

  21. Sérgio diz:

    Apesar de ser a favor de uma legislação laboral mais flexivel, causa-me alguma “espécie” o tipo de discurso dos liberais da nossa praça.

    O Mercado (com maiúscula e tudo) é uma miragem porque é um mecanismo com uma falha fundamental. É perfeita e facilmente manipulável por quem tem poder. E qualquer grupo deste mundo, que disponha de poder e dinheiro suficientes consegue, através do lobby e tráfico de influências influenciar o poder político. O que leva ao poder de influenciar mercados. Ora isto é perfeitamente visivel, por exemplo, na política externa dos EUA.

    Logo deixemo-nos de sonhos húmidos com a Mão Invisível…

    De resto, acho que qualque pessoa com um mínimo de testa percebe que a nossa flexigurança (ou flexisegurança, ou o que o valha) será um desastre se aplicada “as is” em Portugal devido á mentalidade do nosso Patrãozinho Português. E o Patrãozinho Português não anda só nas mercearias mas também á frente de grandes grupos como por exemplo Sonae, Mota-Engil, etc…

  22. Luís Lavoura diz:

    “devido á mentalidade do nosso Patrãozinho Português”

    É verdade que há muitos patrões portugueses com uma péssima e pérfida mentalidade.

    Mas também é verdade que alguns trabalhadores portugueses não lhes ficam atrás.

    Nomeadamente quando protegidos por uma lei laboral que proíbe totalmente, na prática, o seu despedimento.

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