Uma sombra (em 500 palavras)

No bairro onde nasci, na escola onde andei, sempre houve um tipo de quem eu nunca gostei: o J.P.. Amigo de amigos meus e sem nunca me ter feito mal nenhum, em princípio não haveria razão para eu embirrar com ele, mas havia; porque não sei se por causa da sua penca proeminente (ambiciosamente maior do que a minha) e sempre apontada para cima, se do seu passo garboso de ginasta alemão, havia nele um certo excesso de virtude que irritava o meu ser nocturno e pecaminoso. Depois saí do bairro onde nasci e fui ganhar a vida, casei, procriei, engordei e nunca mais lhe pus a vista em cima, até que há pouco, ia eu atrasado para o emprego e estava ainda ensonado à espera que o sinal da S. Bernardo abrisse, vejo o J.P. atravessar a rua à minha frente, com o seu ar de antigamente, apenas mais velho, como que para me lembrar de que o tempo quando passa é para todos. Velho J.P.!, sempre desagradável, sempre inconveniente…

Pensei: é castigo do Senhor, atrasei-me a sair de casa, cedi ao sono e à preguiça, e Ele enviou-me o J.P. para eu não me esquecer que esta vida é um castigo (o que sabe bem faz mal e vice-versa) e, já agora, que os horários são para cumprir. Temente a Deus, acordei no dia seguinte mais cedo, cheguei ao sinal da S. Bernardo também uma hora mais cedo – e voltei a ver o J.P…. E nos outros dias continuou a ser assim: em cada dia, uma hora diferente, mas em todas as horas, sempre o J.P. – seria então um aviso? Introspectei-me: tudo me corria mal nessa altura, sobre que magna questão quereria Deus Nosso Senhor avisar-me? O casamento? Os filhos? O emprego? Resolvi perguntar.

Nesta história, o J.P. desempenhava inequivocamente o papel de um homem de Deus, de um instrumento do divino; eu iria abordá-lo pois para, por seu intermédio, conhecer, por linhas tortas que fossem, a direita fala do Senhor. Tentei primeiro às oito e meia, e pela primeira vez desde há muito tempo ele não apareceu. Tentei depois às dez, e ele também nada. Não compreendi o que se passava e quase desesperei, até que ao fim de duas semanas de porfiados esforços consegui apanhá-lo: quando finalmente o vi, saí do carro, corri para ele e gritei-lhe: – J.P.!, lembras-te de mim, velho tratante, do bairro em que crescemos, da escola em que andámos? Mas ele mal reparou em mim, despejando toneladas de incompreensão para o meu lado no rápido olhar que me concedeu, se calhar para se vingar da falta de compreensão que eu sempre tinha despejado para o lado dele e para o seu ar efeminado de ginasta alemão, e continuou o seu caminho (garboso) sem me falar. Fiquei estúpido, no meio da rua, a vê-lo afastar-se, até que o sinal abriu, os carros começaram todos a buzinar, eu corri para o meu, arranquei ruidosamente e fui-me embora depressa, sem saber o que pensar.

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SEXTA | António Figueira
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