O mundo de Miranda

João Miranda é por certo o maior economista amador residente nos domínios da cristandade. E alcançou essa posição invejável seguindo a mais singela e banal das receitas: simplificar, simplificar, simplificar. Para ele, o mercado é tudo, a mão invisível a única autoridade incontestada dos assuntos humanos.
Até aqui, tudo bem/mal. Notável é que ele não sonha este desígnio como um horizonte desejável e ao nosso alcance. Não; para o João Miranda, a economia actual do mundo em que vivemos já se regula apenas em função da pura e límpida afirmação de um mercado involuntária e inevitavelmente dedicado ao bem comum. Para ele, qualquer facto, depois de devidamente digerido, é prova qb da sua mundivisão: se os aumentos dos combustíveis em Portugal se quedaram abaixo da média europeia, está indiciado “que não existe cartel nenhum”. Se as condições do mercado andam instáveis ou se os consumidores querem poupar, idem. Isto logo depois de proclamar solenemente que “não existe” nada remotamente parecido com “formação de preços”, declarando nula toda a produção académica e empresarial em sentido oposto. Que pelo meio das teorias cristalinas existam uns agentes impuros e confusos chamados “seres humanos”, eis algo 100% despiciendo neste universo alternativo. Aqui não há cartelização, nem concorrência desleal, nem pecado original.
Ele merece, no entanto, a nossa admiração. Não se trata de mais um sandeu armado de megafone, perorando doutrina que logo depois esquece. Ele dedica-se, com o zelo de um cruzado, à defesa do seu estranho mundo. Argumentando, retorquindo, inventando axiomas, aniquilando a realidade se preciso for. Nem o Jerónimo de Sousa consegue ser tão intenso e focado.

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