O mundo de Miranda

João Miranda é por certo o maior economista amador residente nos domínios da cristandade. E alcançou essa posição invejável seguindo a mais singela e banal das receitas: simplificar, simplificar, simplificar. Para ele, o mercado é tudo, a mão invisível a única autoridade incontestada dos assuntos humanos.
Até aqui, tudo bem/mal. Notável é que ele não sonha este desígnio como um horizonte desejável e ao nosso alcance. Não; para o João Miranda, a economia actual do mundo em que vivemos já se regula apenas em função da pura e límpida afirmação de um mercado involuntária e inevitavelmente dedicado ao bem comum. Para ele, qualquer facto, depois de devidamente digerido, é prova qb da sua mundivisão: se os aumentos dos combustíveis em Portugal se quedaram abaixo da média europeia, está indiciado “que não existe cartel nenhum”. Se as condições do mercado andam instáveis ou se os consumidores querem poupar, idem. Isto logo depois de proclamar solenemente que “não existe” nada remotamente parecido com “formação de preços”, declarando nula toda a produção académica e empresarial em sentido oposto. Que pelo meio das teorias cristalinas existam uns agentes impuros e confusos chamados “seres humanos”, eis algo 100% despiciendo neste universo alternativo. Aqui não há cartelização, nem concorrência desleal, nem pecado original.
Ele merece, no entanto, a nossa admiração. Não se trata de mais um sandeu armado de megafone, perorando doutrina que logo depois esquece. Ele dedica-se, com o zelo de um cruzado, à defesa do seu estranho mundo. Argumentando, retorquindo, inventando axiomas, aniquilando a realidade se preciso for. Nem o Jerónimo de Sousa consegue ser tão intenso e focado.

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54 Responses to O mundo de Miranda

  1. Luis Rainha diz:

    RAF,
    Ninguém por aqui escreveu que algo “está a falhar”. Apenas que é um absurdo não reconhecer que existe “formação de preços”. Neste e noutros mercados. Quando ao que agora se passa, lamento, mas não vou especular. E você sabe tão bem quanto eu, se não melhor, que o que vemos não são apenas os reflexos do mercado em operação.

  2. RAF diz:

    Caro LR,

    “RAF,
    Ninguém por aqui escreveu que algo “está a falhar”. Apenas que é um absurdo não reconhecer que existe “formação de preços”. Neste e noutros mercados. Quando ao que agora se passa, lamento, mas não vou especular. E você sabe tão bem quanto eu, se não melhor, que o que vemos não são apenas os reflexos do mercado em operação.”

    Insisto, é óbvio que o preço se forma no mercado. A questão é: na sua opinião, como “deveria ser a formação dos preços dos combustíveis (…) face ao actual mercado petrolífero”.

    É que, tanto quanto me tenho apercebido, só vejo reflexos do mercado na operação. Acontece que o mercado nem sempre nos dá os preços que nós gostamos.

    Vejamos:

    Se eu tivesse uma frota de barcos, nesta fase, também cobrava mais pelo transporte, já que há falta de meios de transporte. Se eu tivesse uma refinaria, faria o mesmo. Se eu tivesse uma indústria que depende para funcionar da energia e de combustíveis, e não tivesse capacidade de armazenamento, era capaz de me assegurar no mercado de futuros para que não me faltasse matéria-prima. A especulação tem uma razão de ser, é um fenómeno próprio dos mercados, assente na incerteza/escassez: quem investe tem a espectativa de ver alguém pagar um preço superior. Experimentem especular com areia do deserto.

  3. Luis Rainha diz:

    Hmmm… portanto não anda por ai especulação com os futuros. E nada de estranho se passa com os preços de refinação do operador dominante. E não lhe parece que de tantos choques sofrer, este mercado ainda se desintegra?
    Eu, por mim, até já mudei para uma casa com transportes públicos à porta 🙂

    Mas isto é besides the point. Sendo este que o JM perorou em termos genéricos sobre a inexistência de formação de preços. O que nem sequer a todas as commodities se pode aplicar.

  4. RAF diz:

    Caro LR,

    Claro que há especulação com os futuros, porque há quem acredite que, daqui por uns tempos, vai conseguir vender as suas posições a ganhar dinheiro com isso. Há especulação porque alguém está disposto a pagar, hoje, para receber no futuro. Se vai ganhar ou perder, só o tempo o dirá. O mesmo se passa com a refinação, que face à necessidade de trasnformar o petróleo em combustível para cobrir a procura, se tornou altamente rentável (na China, são cisntruídas duas refinarias do tamanho de Sines por semana).

    O ponto é que ninguém é capaz de influenciar o preço futuro em seu benefício, seja nos mercados de derivados, seja na refinação, ninguém tem uma posição dominante. O mercado petrolífero, tal como funciona hoje, excluindo o Cartel da OPEP, na produção, vê o seu preço formado por milhões de inputs diários, ninguém tem capacidade de manipular os preços. O que há, sim, são tendências que se acentuam, e que contribuem para a situação actual: dificuldades na distribuição, na refinação, na armazenagem, riscos geopolíticos, factores que, no seu conjunto, acarretam incerteza e risco, pressionando os preços.

    O que eu pergunto é: como é que o LR actuaria? Obrigava a GALP a refinar a um preço mais baixo do que é praticado no resto do mundo? Nacionalizava a GALP, agora que ela se tornou numa galinha dos ovos de ouro, para a privatizar novamente, quando tudo regressar ao “normal”? Apreendia os barcos que andam por aí, quando aparcassem nos nossos portos, para passarem a ir buscar petróleo para as nossas refinarias? Proibiam que houvesse gente que aposta nos futuros, com intuitos puramente financeiros, ou apenas para garantir matérias primas no médio prazo, aumentando ainda mais o risco (e, consequentemente, o preço)?

    O que eu ainda não percebi, além da mudança de casa, é o que acha o LR que se deve fazer.

    Agradecido,
    RAF

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