Dogmas em fim de carreira

Aqui há uns tempos Pacheco Pereira escreveu uma crónica sobre o desemprego em Portugal e como ele afectava especialmente as mulheres, percorrendo uma lista dos efeitos secundários do desemprego sobre a auto-estima, a autonomia pessoal, o futuro dos filhos – entre outros muitos exemplos desses efeitos sobre a vida de pessoas, famílias e comunidades inteiras.

Foi uma das suas melhores crónicas de sempre. No fim, porém, revelava um certo fatalismo: o de saber que muitas das empresas onde antes trabalhavam estas mulheres não eram viáveis e teriam mesmo de fechar. Ainda assim, reconhecendo a centralidade que o emprego tem ainda na vida de muita gente, Pacheco aconselhava o PSD a dar atenção às fábricas e às empresas. Dar atenção não é o mesmo que dar solução, mas é sempre melhor do que nem ligar ao assunto.

No início da campanha eleitoral do PSD, aquele comentário era também uma forma de se demarcar do discurso do principal adversário ideológico do momento, Pedro Passos Coelho, modernizante na doutrina “liberal”, mas sem atenção às pessoas concretas. Manuela Ferreira Leite, que Pacheco apoia, tem perfil conservador, mas preocupa-se. Não há nada a fazer, mas ao menos preocupa-se. A escolha seria assim entre alguém que nem sequer se preocupa e alguém que não pode fazer nada.

Falta reconhecer que não havendo talvez solução – não havendo A Solução no singular – para aquelas fábricas e empresas, há soluções – no plural – para aquelas mulheres e para aquelas pessoas, que afinal são quem importa. Se os efeitos do desemprego são tão terríveis e contagiosos como eram descritos naquela crónica – e são mesmo -, se eles se reflectem na vida daquelas mulheres, na da filha que já não vai para a faculdade, da própria cidade de onde desaparecem pequenos negócios e lojas – bem, se isto é assim mesmo, talvez seja melhor intervir com medidas sociais que suavizem os efeitos do desemprego.

As formas mais conhecidas dessas medidas são: subsídios, gabinetes de apoio, assistência social, formação, animação cultural, investigação sociológica para acompanhar isto tudo e – já sei, já sei: o leitor de direita está prestes a lançar um grito. Acha que tudo isto é desperdício de dinheiro e conversa fiada que não traz os empregos de volta. Nem mais. O problema está aí: aquilo que se pode fazer para debelar os sintomas que Pacheco Pereira reconhece já ele próprio (e o leitor) excluiu ideologicamente à partida.

Ninguém pode acreditar que as “políticas sociais”, principalmente estas meramente paliativas, sejam solução para tudo. Mas a intenção delas não é resolver tudo. No início é mera contenção de danos: não se trata de trazer os empregos de volta, mas de não deixar alastrar os efeitos do desemprego. No meio é não deixar enfraquecer a comunidade e prepará-la melhor para poder recuperar. E no fim, nos melhores casos, a possibilidade seria substituir empregos intensivos, às vezes poluentes e pouco produtivos, por empregos novos e de tipo novo: mais diversificados, mais autónomos, com mais valor acrescentado.

A maior parte das “medidas sociais” poderá até não resultar para lá da emergência, o que já é importante. Mas as que se prolongam e resultam têm sempre impactos muito positivos para as comunidades e a economia como um todo. Isto, se não forem mortas à partida pelo preconceito cego contra os subsídios e os assistentes sociais e o dogma de que o governo não pode fazer nada para ajudar.

Abandonar esses dogmas implica que o PSD tem de virar à esquerda? Se quiser fazer mais do que preocupar-se, sim.

21.05.2008, Rui Tavares

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