Os advogados farmacêuticos

Há umas horas, ouvi na Rádio o bastonário da Ordem dos Advogados queixar-se da proliferação de cursos, estudantes e licenciados em Direito. Que assim a profissão se suicida, que é impossível acomodar tanto jurista, etc. A concluir a denúncia, um tremendo imperativo: o Estado deve ressarcir quem resolveu estudar tais assuntos, convencido que que iria poder dali retirar algo parecido com um ganha-pão. E, de caminho, fechar umas quantas faculdades.
Mas claro que os advogados deveriam ser como as farmácias: um por quarteirão e mais nada, para não perturbar os senhores já bem estabelecidos. Já agora, a coisa poderia funcionar como a carreira diplomática: sem um nome de família apropriado, mais vale procurar emprego na pastorícia.
E claro que a culpa de alguém sentir uma vocação sem grande cabimento concorrencial só pode ser do Estado e da sua falta de Planos Quinquenais bem dimensionados. Cada encéfalo deveria ser encaminhado para a carreira devida. De preferência uma que garantisse ao senhor bastonário que não faltariam braços para lhe encerar o Mercedes.

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13 Responses to Os advogados farmacêuticos

  1. Obviamente que cada um deve ser livre de seguir os estudos que deseja, assumindo que é competente para o fazer, mas também convinha informar as pessoas das possibilidades reais de emprego para ninguém ir para lá enganado.

  2. Não deve vir longe o tempo em que um jovem, em vez de escolher o curso para que sente ter aptidão, seja obrigado a seguir a carreira que o sacrossanto mercado recomendar. Serão os novos “soldadinhos de chumbo”, formados e treinados para satisfazer as necessidades das empresas, que depois os descartam como à peça de uma qualquer máquina.

  3. Ricardo santos Pinto diz:

    Por acaso, até acho que o Bastonário tem razão. Não em relação à indemnização a pagar pelo Estado – esse é mais um dos disparates tão usuais nele – mas em relação à proliferação de cursos de Direito, a maior parte deles privados e sem qualquer qualidade. A culpa é do sr. Cavaco, que,enquanto primeiro-ministro, licenciou tudo o que fosse projecto de curso. Depois, vê-se.
    Passa-se o mesmo, mais ou menos, com os professores. Com a agravante de ter sido o próprio Estado, até há bem pouco tempo, a financiar os estágios integrados daqueles professores que sabia que iriam para o desemprego (a minha mulher fez o estágio há 4 ou 5 anos, recebeu 120 contos por mês para leccionar uma turma a dividir pelas outras duas colegas, e nunca mais foi colocada). Bom investimento, o do Estado!
    Claro que, com as actuais políticas do Ministério da Educação e da inefável sra. Rodrigues, em breve haverá falta de professores, tal qual já acontece no Reino Unido.

  4. JDC diz:

    Sr. Carlos Barbosa de Oliveira
    Mas estava à espera de quê? De serem os jovens a tirar um curso a ditarem as necessidades do mercado? As empresas é que se deviam adaptar á distribuição de licenciados pelas mais diversas áreas? Se assim fosse, eramos um país de professores, advogados e médicos…
    Contra mim falo, que sou finalista de Mestrado, mas se uma pessoa, quando decide o seu percurso académico, prefere seguir a sua vocação, renegando as necessidades do mercado tem duas hipóteses: vai para o desemprego ou cria a própria empresa!
    Mais lhe digo, “soldadinhos de chumbo” são os estudantes de países com regimes comunistas, onde lhes é imposto o curso em função do bem maior do Estado. E se duvida, olhe que até conheço uma mão cheia de casos: professores meus, de Moçambique, que se viram obrigados a tirar um curso “porque o país precisava”…

  5. MPR diz:

    Desde quando é que um curso superior é apenas uma certificação que dá acesso directo a um emprego? A formação de uma pessoa é algo que cada um deve fazer pessoalmente, seja para desenvolvimento pessoal, seja para formação profissional. Uma universidade ou um grau académico não garantem, nem podem nunca garantir a entrada directa seja para que emprego for. Reduzir a formação académica a apenas a um passo para um emprego é, no mínimo, redutor. Além do mais, uma pessoa tem pelo menos 40 anos de vida activa. Quem garante que o mercado de trabalho de hoje é o mesmo de amanhã? Como tal, quem pode honestamente garantir que daqui a 5 ou 10 anos os cursos com maior empregabilidade não serão aqueles que levam a um beco sem saída?

  6. Sr. JDC:
    Acredito perfeitamente no que diz, mas no caso vertente dos advogados ( que pode ser aplicado a outras profissões liberais) que optam na sua maioria por profissões liberais, não vejo razões para que o Estado intervenha a favor da pretensão do Bastonário (por quem até já tenho manifestado o meu apreço no meu blog). Digo mesmo… era o que faltava!
    As profissões liberais funcionam de acordo com as regras da concorrência e “quem tem unhas toca guitarra”.
    As “queixas” do Bastonário fizeram-me lembrar os “soldadinhos de chumbo”, sim. Considero inadmissível que venha defender uma espécie de quota para licenciados em Direito, porque alegadamente o mercado está saturado. Parece-me uma visão um bocado estalinista, não acha?
    Desculpe lá, mas num mundo globalizado coarctar a vocação parece-me um contrasenso.
    Fiz grande parte da minha vida lá fora, com muito prazer e algum proveito, apesar de a minha profissão não ter, à época, grande dificuldade de emprego. E isto, nada tem a ver com a minha ideologia, mas sim com uma maneira de ver o mundo que não se circunscreve ao rectângulo.

  7. JDC diz:

    Sr.Carlos Barbosa de Oliveira,
    Evidentemente que o BA apenas quer garantir o nível de vida dos advogados. Chegam a ser obscenos os honorários cobrados! De facto, nas profissões liberais, o Estado apenas deve intervir de forma a garantir a qualidade dos cursos. Mas isso, obviamente, aplicar-se-à em todas as licenciaturas e mestrados!
    Sobre a vocação, falo-lhe do meu caso: estou a tirar mestrado de bolonha na área de fluidos em Engenharia Mecânica. No entanto, a minha vocação mesmo seria a robótica, nomeadamente a robótica aplicada á cirurgia. O problema é que, em Portugal, não há investimento disponível para fazer investigação nessa área nem sequer empresas que operem nesse sector. Tinha duas escolhas: emigrava ou escolhia um tema, também do meu agrado, mas que se adequasse mais ao mercado… É uma questão de equilibrio. O problema é que, como dizia o comentário do(a) MRP, muita gente acha que tirar um curso (como mestrado em manutenção de campos de golfe) é garante de emprego!

  8. Lololinhazinha diz:

    O senhor bastonário ocupa a posição ideal para garantir que apenas são advogados os licenciados em direito mais capazes. A solução nunca está em restringir o acesso aos cursos, já que um comercial, por exemplo, será um melhor comercial se for licenciado.
    Não sei do que se queixa o senhor bastonário. Quando os estudantes escolhem o curso de direito já sabem que não é nada garantido que alguma vez venham a exercer advocacia ou a fazer carreira numa área jurídica.

  9. MFerrer diz:

    Não percebo! Então não eram os advogados que declaravam, às Finanças, viver com ordenados mínimos? E agora querem continuar nessa penúria ?
    Tá mal!
    Senhor Mandatário disfarce, senão fica um bocado ridículo exigir que os seus sócios continuem a viver na miséria que proclamam!
    Profissão com concorrência? Não senhor.
    Curso superior e andar à procura de emprego? Onde é que chegámos? O tal Canudo devia dar entrada garantida, em empregos à escolha, como os Seminários dão direito a uma paróquia…
    Mas tempos houve em que, nem mesmo esses, tinham garantido o pão nosso de cada dia!
    Mistérios que o Império tece!
    MFerrer

  10. Sr. JDC:
    afinal, parece que as nossas opiniões estão mais próximas do que inicialmente pensei.

  11. joão viegas diz:

    O comentário do Bastonário e a discussão que se segue não fazem qualquer sentido. Uma licenciatura em direito não habilita ninguém ao exercício da advogacia. Trata-se de uma formação geral, que pode preparar o ingresso na profissão (mas nesse caso, tem de ser seguida de exames, de um estágio profissional, etc.), ou noutra profissão jurídica (há tantas : magistratura, notariado, diplomacia, varias carreiras da função pública, jurista de empresa, etc.), ou de resto de outra profissão qualquer (há inúmeros exemplos), ou mesmo ser seguida por mero interesse especulativo ou para completar o currículo.

    Já vai sendo tempo de aprendermos a distinguir entre formação universitária e formação profissional…

  12. MPR diz:

    Reler comentários tem as suas vantagens… eu disse mesmo que “a formação de uma pessoa é uma escolha pessoal” e que “reduzir(…) é no mínimo redutor”
    Escrever à pressa tem os seus inconvenientes…

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