A feira e as marquises

No 31 da Armada, goza-se com Saramago por este deplorar o desenlace da crise da Feira do Livro. “Para Saramago, será um duro golpe no espírito comunitário e democrático da Feira do Livro, onde toda a minha gente se sujeitava, por hábito e amorfismo, à mediocridade vigente.”
Mas não; não era por isso. Várias editoras já por várias vezes tinham tentado presenças diferentes na Feira. Esbarrando sempre nas mesmas proibições. Que agora, ao que parece, não se colocam à LeYa.
Gostava de saber o que escreveria o senhor CCC se um novo rico recém-instalado no seu condomínio/prédio/vizinhança se dedicasse a fechar marquises, revestir paredes a azulejos, edificar mais um ou dois andarezitos, tudo com beneplácito camarário. Sobretudo depois de já vários vizinhos terem feito pedidos para alterações menores, sempre sem sucesso.
Se calhar, o senhor CCC não seria tão lesto a perorar sobre o que não conhece. E não se lembraria de inventar “incómodos” a um escritor que, teoricamente, até sairá beneficiado com as melhores condições de exposição dos seus livros.
O “Pugresso”, para alguns, tem mesmo de vir decorado com alumínios e néons berrantes.

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14 Responses to A feira e as marquises

  1. «Gostava de saber o que escreveria o senhor CCC se um novo rico recém-instalado no seu condomínio/prédio/vizinhança se dedicasse a fechar marquises, revestir paredes a azulejos, edificar mais um ou dois andarezitos, tudo com beneplácito camarário. Sobretudo depois de já vários vizinhos terem feito pedidos para alterações menores, sempre sem sucesso.» Mas isto é o que acontece de norte a sul do país. Qual é o espanto que possa acontecer na Feira do Livro?

  2. Luis Rainha diz:

    Nuno,
    Espanto é pouco; mais dia menos dia a coisa iria dar-se. Mas é com pena que vejo acabar o presente modelo, em que o que verdadeiramente brilhava eram os livros, não as barracas que os abrigam. E isto não é uma obsessão igualitária; apenas um pouco de nostalgia por mais uma tradiçãozita que se vai. Mas a Feira do Livro também já pouco interesse tem, nestes dias…

  3. n diz:

    mas mediocridade, pq? eu sempre fui lá pelos livros, o resto é folclore e circo. alguns até saberão escrever, pena que não tenham aprendido a ler

  4. MViegas diz:

    BOICOTE ÀS GASOLINEIRAS JÁ !!

    Vide em.:
    http://o-povo-vai-nu.blogspot.com/

    Exerça o seu direito de cidadania com eficácia !

  5. Lidador diz:

    O LR, como sempre tem toda a razão. A uniformidade da colmeia é sempre mais saudável, não há cá essa coisa abominável das classes e dos sinais de desigualdade.
    Saramago está chateado e com razão. Nos velhos paraísos que ele idolatra, mundos em que os amanhãs cantavam, as camaradas e os camaradas andavam de uniforme cinzento e os médicos faziam serviço na limpeza das latrinas do hospital, para igualar as classes.
    Não consta é que os camaradas limpadores manobrassem o pouco proletário bisturi, mas pronto, a igualdade é que é bonita.
    Tudo da mesma cor, tudo da mesma forma, tudo a marchar para o mesmo lado à voz de comando da vanguarda revolucionária.
    De resto o Zé Saramago, nos seus velhos tempos no DN, tratou de aplicar a teoria, correndo a pontapé todos aqueles jornalistas a soldo da reacção e que teimavam em marchar com o passo trocado com a música que ele tocava

  6. n diz:

    e quando há outros escritores que disseram o mesmo, como lobo antunes, por exemplo, e as abencerragens do costume, nada dizem sobre essas opiniões? vomitam quando opinam ou são apenas analfabetos funcionais?

  7. J. Sapka diz:

    Uma feira do livro com pavilhões empenachados despromove o livro. A ideia do Paes é provar pelas exterioridades, não pelo produto, que o grupo dele é mais e melhor que os outros. O espírito da coisa sempre foi outro: cada editor, em igualdade de condições, consequentemente em unidade estética, mostre os livros novos e salde os antigos. A Leya quer introduzir novas regras a meio do jogo para se impor, para esmagar as barracas dos pequenos, para abrir a boca ao patego. Chama-se a isto abanar o penacho e desvirtuar. Em igualdade de condições, não lhe apetece concorrer só com o seu produto. Quer melhorar as condições da Feira? Tudo bem. Melhorem os pavilhões todos, uma vez que a Associação dos Editores é que organiza a coisa e a Câmara é que subsidia. O que a Leya quer é uma saloiada novo-rica à moda do Paes.

  8. luis eme diz:

    espero para ver… as diferenças.

  9. ezequiel diz:

    eu sempre que vejo o Saramago penso no ET……
    são ambos carecas e famosos…ah, e nunca se cansam de recorrer a uns dedos enormes para (nos) indicar o caminho…os dedinhos pontificales

    ih ih ih 🙂

  10. Luis Rainha diz:

    Eu, por acaso, nunca consigo dissociar o percurso político do homem das restantes partes do Saramago. O que não implica que assuma que tudo o que ele diz é disparate.

  11. Lidador diz:

    “O que não implica que assuma que tudo o que ele diz é disparate.”

    Pois não…mas é uma boa e avisada medida de precaução.

  12. Completamente de acordo com o post e absolutamente contra o novo riquismo de Paes do Amaral.

  13. NMCAF diz:

    Passe a expressão e sem qualquer intuito pessoal, mas está tudo doido ou quê?
    Parece que há uma falange crescente da populaça que quer voltar aos tempos do velhinho Ford T, que maravilha…
    Devem ser os mesmos que se queixam que não há hábitos de leitura, pudera. Há anos que vou à feira do livro em Lisboa, sempre com os mesmos pavilhões bafientos, uns cubículos à boa maneira comunista, “todos iguais”, um mimo de conforto, um modelo de vanguarda para promover a leitura. Mesmo bom para os editores que não precisam de gastar quase nada, inovação é coisa que não consta do dicionário da Porto Editora, afinal implica investimento, cruzes credo, o sector está nas ruas da amargura, valha-nos os cubículos T0 com vista para a estátua do marquês, género habitação social. Isso sim é que é bom, baratinho e modesto que o Alan Greenspan tramou-nos todos.
    Quem não entende a necessidade de renovação e a confunde com novo-riquismo ou não está a ver o mesmo filme que eu ou necessita de calibrar as Varilux rapidamente.
    Vejam lá que foi preciso o novo-rico chegar para se falar tanto da feira do livro (talvez não pelas melhores razões mas enfim…), e se condenarem finalmente os cubículos Ford T para o lugar que já merecem há anos, a reciclagem. Só é pena que não tenha chegado antes! Se são necessários mais novos-ricos para renovar o sector eles que venham todos, com os velhos do restelo que (ainda) teimam em pulular não vamos a lado nenhum como está mais que demonstrado.

  14. Pingback: cinco dias » O idiota do costume…

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