“mostravam uma grande cumplicidade”

Foto de Nicole Tran Ba Vang

Fico maravilhado quando leio, nas inúmeras revistas que entopem as bancas, esta fantástica frase que escolhi para título. A devassa da vida privada é um grande negócio. Dele se alimentam aqueles que vendem as revistas e a maioria daqueles que vêm nelas. A conquista da “vida privada” é muito recente e pode até ser uma vitória civilizacional. Dizem os historiadores que antigamente os senhores tomavam banho à frente de todos os criados e famílias, a invenção do WC, da banheira e da cortina fez-nos poupar muitas vergonhas às gerações vindoras. Mas a vida privada que se exibe não passa de uma representação. Até porque a verdadeira é tão chata como a dos demais.

Assistir à entrevista do nosso primeiro-ministro, ou de outro qualquer políticos, na intimidade, é ver o grau zero das representações do marketing que tem como única virtude poupar-nos ao tédio da vida de todos os dias. Sejamos francos, a Cláudia Vieira dos cartazes tem muito mais glamour do que a mesma no WC.

O filósofo Zizek escreve no seu último livro que lhe apetecia colocar na badana do “In Defense of Lost Causes” – em vez das habituais confidências dos autores que se “humanizam” garantindo que brincam com o seu gato e que plantam tulipas – esta passagem educativa: “Slavoj Zizek nos seus tempos livre gosta de navegar na Internet em busca de pornografia infantil e de ensinar o seu filho a arrancar as patas das aranhas”. Seria pelo menos uma novidade na arte das badanas intimistas.

A partilha desta “riqueza da nossa vida interior” não passa de uma arte de enganos que exibe a nossa mais pura imagem ideológica.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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