“mieux vaut un désastre qu’un désêtre”

Cresci a escutar a história de uma revolta perdida. Os meus pais e eu íamos mudando de país em país: Checoslováquia, Argélia, Suiça, França e tinhamos entrado em Portugal ilegalmente, como clandestinos , e o meu pai não se cansava de me contar, como se fosse um conto de fadas, a Revolta dos Anjos, de Anatole France. Dizia-me que depois de muitos abusos e opressão, os anjos tinham decidido revoltar-se . Na véspera do grande dia , o líder dos revolucionários sonhava que triunfavam e ocupavam o trono do tirano. O sonho revelava que pouco tempo depois, com a grande canga das coisas inevitáveis, tornavam-se senhores em vez dos senhores que tinham jurado derrubar. Depois de acordar, Lucifer teria desistido de revoltar-se. A história tinha uma moral óbvia que nos impelia a estar quietos. Contudo, parece que teimávamos em não lhe obedecer, apesar de se perceber, quando escutavamos o conto, que a maior parte dos esforços são em vão.

Muitos anos depois, li o Falcão de Malta, de Dashiel Hammet, e tropecei na história de um homem desaparecido. O detective Sam Spade foi encarregue de descobrir o rasto desse homem que abandonou o trabalho, uma família e a sua terra. Anos depois, encontrou-o numa outra terra, com outro emprego e uma outra família. Tinha trocado uma vida de Silva por uma vida de Sousa. Parecia estar a viver a mesma entediante existência algumas centenas de quilómetros mais à frente. No entanto, ele estava profundamente convencido que tinha valido a pena começar de novo. A realidade dessa mudança era vazia, mas graças a essa ruptura tinha parecido valer a pena.

Transformar o mundo e mudar de vida, como exigiam Marx e Rimbaud, parece muita vezes sem sentido. Mas, há algum sentido em estar parado? Nos seus Provérbios do Inferno, William Blake garantia: “o que deseja e não age gera pestilência”.
A guerra dos anjos revoltados contra o poder de Deus é uma guerra perdida. Mas é um grito contra a adversidade.
Como escrevia Giambattista de Marino, no seu Satã, ”(…) e mesmo se tombarmos vencidos, ter tentado tão alto feito é ainda um triunfo…”

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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