A inquisição das famílias felizes

Vi este filme. É impressionante. As novas formas de censura são mostradas de uma forma crua em toda a sua imensa estupidez. O que mais assusta, de facto, é a imensa mediocridade. Um filme que mostre uma mulher a ter um orgasmo é considerado perigoso para as mentes dos adolescentes. Um filme que exiba um massacre é considerado aceitável. Se um filme é classificado para maior de 17 perde todos os apoios publicitários e é proibido ser anunciado na televisão. O que significa, na maior parte dos casos, não ser exibido na esmagadora maioria das salas e desaparecer sem poder ser visto. Como diz uma pessoa ouvida no documentário: “à conta de dizerem que defendem as crianças, pretendem tornar todos os espectadores crianças…”. As pessoas que são escolhidas para este grupo de censores, pela industria cinematográfica, são suposto ser pais de família “normais”. Nesta ideia de normalidade está todo um programa: um divorciado, uma lésbica, uma pessoa com pensamento próprio, provavelmente um negro, não cabem nas famílias felizes. O que é genial é que aquilo que é vendido como família é uma entidade mítica que só deve ter existido nas imagens das séries dos anos 50. A grande orientação deste pequeno grupo de censores anónimos pagos para impor a ditadura da industria das pipocas é ideia de que o sexo põe em causa a sociedade. Um orgasmo ameaça a estabilidade dos laços sagrados do matrimónio ao passo que um assassinato reforça o nosso desejo de segurança. Por isso, a violência é para ser vista e o sexo é para ser escondido ou estupidificado (tipo filme de adolescentes).

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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