Tempo e utilidade

(texto de Rui Tavares, publicado no Público)

Vamos ser justos. Não foram os jovens que elegeram Salazar como o “maior português de sempre” num programa de TV. Nunca ouvi nenhum jovem dizer que precisamos de “um salazar em cada esquina”.Vamos ser justos. Não foram os jovens que elegeram Salazar como o “maior português de sempre” num programa de TV. Nunca ouvi nenhum jovem dizer que precisamos de “um salazar em cada esquina”.


Os jovens não sabem quem foi o primeiro Presidente eleito após o 25 de Abril? A ignorância dos jovens não precisa de grandes teorias. Há uma explicação simples: os jovens são ignorantes porque nascemos ignorantes. A informação adquire-se com o tempo, e durante um tempo é cumulativa: houve um tempo em que eu não sabia que havia países, ou não sabia quem foi Leonardo da Vinci, e agora um tempo em que não sei quem é o Presidente da Estónia (foi antes de acabar este parágrafo: agora já sei como se chama, mas como o facto tem pouca utilidade para mim, é possível que até acabar a crónica já o tenha esquecido).

Os jovens não são virtuosos por não dizerem “no meu tempo é que era bom”- eles não conheceram outro tempo – e também não são viciosos por não saberem quem foi Ramalho Eanes. São apenas jovens. É uma doença que se cura sozinha.

Não quero com isto dizer que Cavaco Silva estava errado nas conclusões que retirou do estudo da Universidade Católica sobre Os jovens e a política que citou no seu discurso do 25 de Abril. Como se depreende do que escrevi acima, se achamos que saber coisas sobre o 25 de Abril é importante e útil, devemos ensinar essas coisas – e essa foi a principal conclusão do Presidente.

Mas a sua surpresa com a ignorância dos jovens impediu-o de ver outras coisas que são bem mais interessantes no estudo da Católica. Três exemplos: os jovens são menos insatisfeitos com a política do que o resto da população portuguesa, os jovens são menos cépticos em relação à participação política e “os índices de participação social dos jovens são mais elevados”. No entanto, os jovens são mais desconfiados em relação à eficácia do voto.

Combinando tudo isto, o que dá? Uma conclusão inesperada: estes dados sugerem que se comece a pensar em dar direito de voto aos jovens entre os 16 e os 18 anos.

Reparem nisto: a “ignorância” revelada pelos jovens em certas perguntas diminui de dois terços para metade quando estes chegam à idade de voto. Isto confirma algo que sabemos sobre a aquisição de conhecimento: ela ganha sentido quando esse conhecimento pode vir a ser utilizado. E se os jovens acreditam mais na política e na participação e menos na eficácia do voto, isso sugere que ainda não tiveram ocasião de observar em primeira mão os efeitos desse mesmo voto.

Até recentemente eu não via vantagens em dar direito de voto aos jovens de 16 e 17 anos, e até hoje considero que é mais justo e importante dar esse direito aos imigrantes residentes há mais de cinco anos, que paguem impostos e contribuam para a Segurança Social (quem financia um Estado deve ter uma palavra a dizer sobre o seu governo, e isto é um princípio básico da democracia desde a Revolução Americana).

Mas o estudo da Católica convenceu-me que se pode fazer ambas as coisas, com uma diferença em relação ao resto da população: o recenseamento deve ser facultativo – para quem está mesmo interessado em exercer o direito de voto – e não obrigatório, para excluir aqueles que não vêem utilidade no voto nem necessidade de adquirir conhecimentos para o usar melhor.

A aquisição de conhecimentos depende do tempo, e depende da utilidade que vemos nesses conhecimentos. Tempo só o tempo pode dar. Mas utilidade podemos dar nós.

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Segunda | Rui Tavares
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