Aceitar a mudança

Na última crónica aconselhei o dr. Menezes a tirar umas férias de Verão antecipadas e levar consigo o circo que permitiu (e até promoveu) à sua volta. Inesperadamente, foi mesmo isso que ele fez, demitindo-se. Ou talvez não. Talvez volte. Talvez não volte. Nunca se sabe, e isso é o que tem de bom políticos como ele e Santana Lopes. Com eles, só se pode prever a imprevisibilidade.

Estão errados, porém, os comentadores que pensam que basta trazer ao PSD gente sisuda para que as coisas se componham. Apelar aos “notáveis” que sejam humildes e dêem o corpo ao manifesto não basta. Não basta sequer pedir um programa pontualmente distinto do PS, nas auto-estradas, na RTP ou na Caixa Geral de Depósitos. É preciso mais do que isso: reconhecer que o PSD não tem uma maneira estruturada de ver este tempo e este país. Os comentadores da vossa área, meus caros eleitores do PSD, nunca o reconhecerão porque isso significaria admitir que eles próprios vos têm andado a servir gato por lebre.

A visão do mundo que em tempos funcionou foi: nós servimos para governar, a esquerda não serve. Na sua versão mais sofisticada: a esquerda não serve porque é “politicamente correcta”, “modernaça” e “anti-mercado”. A primeira destas queixas é meramente reactiva, a segunda não tem mal nenhum, e a terceira já teve melhores dias.

Depois da fuga de Durão, a estrela de Santana e cometa Menezes, a maioria dos portugueses já não vê o PSD como o “partido de governar”. Mas isso é uma estrela que não volta assim. Enquanto o PSD continuar a falar para um país que não mudou, enquanto reciclar preconceitos que já perderam a validade, enquanto continuar pensando que o Cavaquistão mais uns pózinhos de Norte, Madeira e Cascais faz o país real, estará condenado a não saber para quem fala e a não ser entendido por quem o escuta.

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Quando nos encontramos numa situação assim, há dois passos para uma solução. O primeiro consiste em ver em que pontos a nossa ideologia já não vale. O segundo é convencer a maioria das pessoas de que partes da nossa ideologia continuam a valer como antes, ou ainda mais. Quem não tem humildade para o primeiro passo não será levado a sério no segundo.

Não é pois uma questão de o PSD escolher se quer ser conservador, liberal ou social-democrata, mas de entender que deixou aviltar o que lhe resta dessas correntes. Hoje o PSD não é conservador mas atávico, liberal mas oportunista, social-democrata mas clientelista.

Por um lado, foi a prática que aviltou a teoria: é ridículo ver o PSD combater no parlamento a reforma do divórcio em nome dos valores da família ao mesmo tempo que usa a vida pessoal dos opositores (e até a dos seus dirigentes) na praça pública.

Mas é mais verdade ainda que a própria teoria já não funciona. Para dar o mesmo exemplo, no Portugal de hoje a maioria das pessoas não acham que a liberdade individual seja um papão que vai destruir os laços entre as pessoas, e as pessoas que têm grande afeição pelos valores tradicionais são cada vez menos e têm cada vez menos peso eleitoral.

E a teoria sobre a teoria também está errada: para dar o mesmo exemplo, a ideia de que “estas coisas só interessam à esquerda intelectual e à classe média”. Hoje os portugueses são mais classe média e mais informados do que eram, e o que vêem é uma direita menos preocupada com a liberdade das pessoas do que, por exemplo, com a liberdade das empresas.

Os comentadores e os “notáveis” da vossa área não querem reconhecer isto, e nesse sentido são mais parte do problema do que da solução.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
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