Pedro Ferreira: as maravilhas dos mercados financeiros

Cravei ao meu amigo Pedro Ferreira este texto. É a reflexão de um matemático que trabalha em modelos de análise de comportamentos dos mercados financeiros.

A crise actual dos mercados financeiros começou em Agosto de 2007 e tem-se prolongado até hoje. Na origem dos problemas actuais está a especulação com produtos derivados de empréstimos imobiliários de risco, donde o nome de crise dos subprimes. Nos mercados europeus e americanos a maioria dos bancos não financia os empréstimos imobiliários com fundos próprios, os empréstimos concedidos aos clientes são refinanciados nos mercados financeiros: os bancos emprestam aos clientes e pedem emprestado no mercado finaceiro. Os produtos que estão na origem da crise actual, Collateral Debt Obligations ou CDO, agrupam vários empréstimos de níveis de risco diferentes e deveriam, segundo as hipóteses de quem os criou ter um nível de risco muito pequeno pois a probabilidade de uma proporção significativa de empréstimos incluidos num CDO deixarem de reembolsar é ínfima. Para além disso os empréstimos são, em geral, garantidos por uma hipoteca o que permite ao banco recuperar uma parte importante do capital se o cliente não conseguir pagar.

Teoricamente tudo parece perfeito. Exceptuando alguns especialistas de matemática financeira mais cépticos que foram avisando que as coisas não são tão simples como parecem, os actores dos mercados financeiros entusiasmaram-se com os CDO, e o mercado cresceu exponencialmente.


Em Agosto do ano passado um número importante de americanos deixaram de poder pagar os empréstimos imobiliários o que causou uma baixa dos preços dos mercados imobiliários. As consequências desta queda nos mercados financeiros foram enormes, os preços dos derivados de crédito como os CDO cairam bruscamente (num dos casos a que assisti numa horas o preço de um CDO passou de 97% a 3.5%). Grande parte dos fundos e bancos de investimentos que investiram neste mercado foram surpreendidos pela dimensão da crise e os modelos de previsão e controlo de risco revelaram-se totalmente inúteis. As notícias de perdas de milhares de milhões de euros de perdas a que assistimos recentemente (Nothern Rock, Merril Lynch, UBS, Citi Group, etc), são a consequência das estratégias de investimento e das deficiências do controlo no mercado dos derivados de crédito imobiliário de alto risco.

Será que esta crise representa o fim do capitalismo financeiro? penso que não, o caso Nothern Rock que foi nacionalizado para evitar a falência mostra bem que os governos não hesitam em violar os dogmas por eles próprios estabelecidos para salvar o sistema. Provavelmente o número de intervenções estatais ou inspiradas pelos estados para salvar alguns actores importantes do sistema financeiro internacional vai aumentar nos próximos tempos. É também provável que o número de falências de instituições financeiras de menor dimensão, por exemplo fundos especulativos aumente fazendo assim desaparecer parte das fortunas de ricos investidores e do capital das reformas de muitos americanos e ingleses.

É também de esperar que os governos imponham novas regras de controlo do sistema bancário. A situação actual de alguns mercados financeiros em que o valor de um contrato é estabelecido por um único actor numa situação de quase monopólio e em que a estrutura dos contratos é tal que qualquer cálculo sério de risco é impossível levará à criação de regras protectoras contra a repetição de outras crises do mesmo tipo. Já em 1929 o capitalismo americano reagiu com uma forte intervenção estatal através do “New Deal”.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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