As duas chaves

Salvo imprevisto, falta um ano e meio para as próximas eleições legislativas. O panorama é o seguinte.

O PS deve ganhar as eleições abaixo da maioria absoluta, embora não seja impossível lá chegar. À direita do governo, PSD e CDS estão em queda, o primeiro com votações em torno dos trinta por cento e o CDS em torno dos cinco por cento. À esquerda do governo, PCP e BE estão em subida, em torno dos nove e oito por cento, respectivamente. Enquanto a direita PSD+CDS tem pouco mais de um terço das intenções de voto, PCP e BE começam a aproximar-se dos vinte por cento, históricos. Se lhes juntarmos o PS, o total dos partidos de esquerda está acima dos sessenta por cento.


Tudo isto aparece confirmado nas duas sondagens telefónicas da Eurosondagem mais recentes, mas vinha também muito claro na sondagem presencial da Católica do passado mês de Fevereiro. Não são dados surpreendentes, muito menos de última hora. Em termos gerais, era possível ver sinais deles nas eleições de Lisboa, no referendo do aborto, e nas últimas legislativas. A base eleitoral de direita permanece reduzida. Perde em quase todas as regiões do país e especialmente nas mais urbanas e populosas. Pior: a direita não só está em crise como não compreende a sua própria crise.

E pode não ficar por aqui. Diz-se que Paulo Portas tenciona candidatar-se às europeias para evitar os casos suspeitos (casino, sobreiros, fotocópias e submarinos) que afligem o seu partido. Essa seria uma suprema demonstração de cobardia e destruiria as hipóteses do CDS nas legislativas.

O PSD está em apuros; a liderança bicéfala de Menezes e Santana prova que duas cabeças podem pensar pior do que nenhuma. Mas os protagonistas das guerras internas, sejam eles Marcelo, Pacheco ou Borges, tampouco parecem ter qualquer noção de como o país mudou e de como o PSD terá de encontrar nele um novo lugar. O vazio é aflitivo e o anti-intelectualismo de que o partido (incluindo os seus poucos intelectuais de bandeira) sempre padeceu não tem equivalente em algo que tenha afligido o PS nos seus tempos de oposição.

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A primeira chave das próximas eleições é, ironicamente, o péssimo desempenho do PSD. Se este partido tiver menos de trinta por cento, isso pode querer dizer que os seus últimos eleitores do centro decidiram que o mal menor seria garantir uma nova maioria absoluta a Sócrates.

É pois inútil à direita esperar pelos erros do governo ou pela impopularidade do primeiro-ministro. Os beneficiados por ambas serão o PCP e o BE, que detêm uma mensagem constante, reconhecida e clara (concorde-se ou não) e um auditório bem definido.

A segunda chave está portanto nestes partidos, nomeadamente no BE. Até agora a sua subida tem-se dado sem esforço aparente, mas só poderá ser mantida se os eleitores sentirem que há propósito nessa subida, ou seja, se ela servir para alguma coisa. Só isso poderá transformar intenções em votos, principalmente no eleitorado que antes votou PS. Ora o voto no PCP serve para dar força ao PCP: isso facilita-lhe a vida.

Já o BE apareceu como novidade e prometeu mudança. Em consequência, o voto no BE só compensa se a mudança for um horizonte plausível. Caso contrário, ser um partido da resistência não chega: para isso já havia o PCP. Para o BE ter mais votos, tem de começar por querer ser mais.

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Segunda | Rui Tavares
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