A morte do homem

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Não sabia que Hugo Claus tinha um filho de Sylvia Kristel. Conhecia apenas dois livros dele. São bons. Amargos como a vida mais doce. Quando li a notícia da sua morte no Libération, lembrei-me de uma passagem de um outro autor (Cioran): “há noites em que o futuro é abolido, quando de todos os instantes só subsiste aquele que nós escolhemos para não ser mais”. Um homem decidiu não continuar a viver. Doente e diminuido, não queria esquecer-se do que era. Não escrevia. As palavras fugiam. Sem elas o mundo deixava de ter sentido. Era um estranho. Num momento em que conseguia pensar, falou com o filho e as mulheres que tinha amado sobre a vontade de morrer. Repetiu-a várias vezes, a um médico, para a decisão estar de acordo com a lei belga – há mortalhas e poderes que nos perseguem até ao fim mesmo. Cumpridos os devidos procedimentos legais. Acabou.

Segundo todas as religiões morreu em pecado mortal. Deus demora a aceitar um novo artigo para o Seu infinito catecismo: “Concedei-nos Senhor, o favor e a força de acabar e a graça de nos apagarmos a tempo” (Cioran). Amén.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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