el gadamer e a nossa conversa

O João lançou para a mesa uma polémica interessante. E lançou-a de forma brilhante. Encontrou, com muita perspicácia, um certo absolutismo na concepção de liberdade negativa (de Berlin), que se manifesta na redução da liberdade à ausência de coerção.

Este desejo de um gajo não ser submetido ao jugo de um qualquer ditadorzeco megalomaníaco foi “traduzido” pelos iluminados que dão pelo nome de neocons como: os indivíduos são os “átomos da sociedade.” Uma delimitação de esferas de liberdade foi transformada numa concepção da natureza humana. Ou seja, transformaram aquilo que era uma referência normativa muito especifica (deixem-me em paz) numa descrição metafísica do todo a que podemos chamar homem-no-mundo (heidegger, apesar do todo do heidegger envelhecido ser mais pluralista). Absolutizaram um aspecto, transformaram-no uma teoria compreensiva e inquestionável do homem-mundo: os átomos! Brilhante. Aqui, nesta metáfora espacial, já se sente o pesado fardo da solidão do individualismo possessivo que C.B Macpherson descreveu de forma brilhante. O todo é um conjunto imenso de pontos pretos numa tela branca. Bolas! Falamos também da relação entre ideias e conceitos e afirmamos que um conceito, para ser conceito, tem que ser mais do que uma ideia abstracta. Ou que uma ideia não é apenas um conceito mental: é um acontecimento no mundo comunicativo e é, por esta razão, um acontecimento. Tudo isto para tentar demonstrar que uma ideia ou um conceito, para serem o que são, tem que estar incorporadas em práticas. Serem coisas que existem no mundo, que possuem significância, palpabilidade, sentido, relevância e que evocam sentimentos. Apelamos, porventura de forma primária e rude (i.e. yours truly), aos mais elementares sentidos de pertença e a uma sensibilidade existencial que acreditamos existir em cada humano. Não fomos bem sucedidos. A ideia dos átomos, indiferente e intrépida, fechou miraculosamente os ouvidos e começou a berrar (bem, foi mais um nhen nhen irritante, mas prontos, c`est la vie)

Esta discussão interessante provocou uma busca infernizada por um livro de Gadamer chamado, The Idea of the Good in Platonic-Aristotelian Philosophy, uma verdadeira pérola, na minha opinião. Prefiro este pequeno livro ao gigantesco e por vezes indecifrável Verdade e Método, uma obra brilhante mais repetitiva do que um tema de trance alemão (no elevador). O assunto que me traz aqui é precisamente este: a relação das ideias com as práticas (distinção que não assume a correspondência absoluta entre ideias e práticas) ou, se preferirem, as ideias-práticas. Neste livro, Gadamer afirma que a noção das ideias (ou conceitos) de Platão persiste intacta e serena nos trabalhos de Aristóteles. É isto que ele diz, entre outras coisas:

“These days the dominant view assumes that the dogmatic doctrine of the ideas-which Plato was supposed to have taught at the beginning…was later taken back, or at the very least dilluted, by Plato himself….”

Poucas frases depois:

“It is more or less fatal for this theory, however, that the ancient tradition never reports such a change in the views of either Plato or Aristotle-aside from a single observation…” (p.8)

Seria inoportuno e maçador estar aqui a transcrever ou a interpretar todos os argumentos que Gadamer apresenta neste livro acerca desta relação. O que suscita o meu interesse é esta coisa da reciprocidade intrínseca ideia-prática. Estou a simplificar um pouco para sugerir um contraste mais claro. Um céptico diria, com alguma razão: meus senhores, esta correspondência (estou a exagerar um pouco) que vocês presumem entre ideias e práticas não é coisa estável e até é provável que não seja plausível porque existem ideias que não estão inscritas em práticas-acções. Podem estar inseridas em práticas comunicativas etc mas não fazer parte da organização das coisas (são ausentes-presentes, como diria Ricoeur). Existem ideias que não são acções no mundo.

Isto não implica que a maior parte das ideias não estejam de facto implantadas em práticas onde se manifestam ou de onde emanam, por assim dizer. E também não implica que a própria articulação comunicativa das ideias que não estão corporizadas no mundo sob a forma de acções sociais significativas não sejam acções…distintas das acções mundanas, não obstante.) Esta “distância” entre ideias e acções é paradoxal, de certa forma: mesmo a crítica radical, que pretende negar o mundo existente, acaba sempre por o recuperar, tal como ele é, como objecto de um projecto de mudança, como condição de possibilidade. Nega-o e afirma-o, ao mesmo tempo. Nega-o pela crítica e afirma-o como possibilidade da mudança proposta na crítica (construtiva, é claro). Ou seja, uma grande volta, ou pirueta, mas chegamos ao mesmo lugar: ao mundo como ideia(Heidegger e Platão, juntos..sem perceberem bem como…)

continuado (isto foi adicionado horas depois da primeira postage)

Heurística.

1- Se existe, am alguns casos, uma relação paradoxal entre práticas e ideias, quais são as implicações desta “evidencia” para a tese hermenêutica de que o Ser é a Linguagem? (gadamer, no VM, evita esta questão cardinal e a ainda mais importante interrogação da Sarah: o inefável. Ela tinha uma  “resposta” Gadamer nem toca neste assunto! ) Se a relação entre ideias e práticas não é uma de correspondênci, stricto sensu, como poderemos elaborar uma ontologia coerente? Mais: e se as práticas forem entendidas como actividades que produzem (ou tem lugar) (n)uma pluralidade de conceitos, como é que estabelecemos as “coordenadas ontológicas” entre ideia e prática?

2-Será este carácter paradoxal da ideia-prática uma peculiaridade da razão crítica na sua relação com o mundo?

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.