“Reservo-me o direito de te apagar”

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Camarada PPM. Antes de mais, saudações revolucionárias pelo brilhante sucesso da tua missão infiltrada. Conseguiste enganar aquela camarilha burguesa e reaccionária ao ponto de teres penetrado no círculo íntimo do facho-cleptocrata Portas. Cabe-me mesmo a grata tarefa de te endereçar especiais encómios do Comité Central pelo projecto da falsa revista, destinada a juntar num só redil, mais facilmente anulável, todo um grupelho de agitadores contra-revolucionários, explicitando em público o ridículo dos seus delírios. Bravo, camarada! Nem Beria manipularia os nosso inimigos de classe com maior destreza. E que finesse: misturar alguns elementos ardilosos e até inteligentes com outros intragáveis, para melhor realçar o carácter alienado da pandilha… desfaleço de orgulho e inveja ante tais proezas!
No entanto, camarada PPM, devo confessar-te a minha preocupação recente. Sei bem da dureza do trabalho na clandestinidade. E nem imagino os horrores que deves sofrer, obrigado a frequentar restaurantes burgueses, a vestir indumentárias italianas, a conviver de perto com a corja reaccionária. Não sei mesmo se teria estofo para aguentar com o teu estoicismo tanta e tão atroz provação. Por tudo isto, receio que a tua couraça possa estar a fraquejar, colocando em perigo o teu laboriosamente construído disfarce.
Vejamos os sintomas. Primeiro: aquele episódio da mulher do Costa: custava-te alguma coisa admitir o passo em falso, reconhecer um pequeno disparate? O bom comunista é firme até morrer, responderás; mas essa fortaleza é aqui despropositada e pode denunciar-te. Os burgueses decadentes — ou “democratas”, como gostam de se tratar entre si — adoram exibir em público o que chamam “bom-senso” ou “equilíbrio”, admitindo erros, chafurdando em meas culpas e outros espectáculos deprimentes. Ao insistires daquela forma meio alucinada, sem recuar um só palmo mesmo face à evidência mais desabrida, estás a dar nas vistas.
O mesmo para a suposta “okupação” do Insurgente. Não podes forçar a tecla do teu falso anti-esquerdismo. Aquela provocação direitista não enganou ninguém; perderás rapidamente a tua fama de preclaro líder se continuas a fingir embarcar em semelhantes patetices, engolindo isco, anzol e traineira com tanta panache.
Mas guardo para o fim o episódio mais perigoso. Então descais-te e ameaças o teu ex-cúmplice com o apagamento? Eu sei o jeito que essa técnica deu para tirar das fotografias camaradas que revelaram ser afinal inimigos do proletariado. Mas a malta direitista é capaz de desconfiar da tua adopção de métodos do camarada Estaline (gloriosa seja a sua memória).
Em resumo: tem lá cuidado, que ainda te descobrem a vermelhusca careca.

Abraços revolucionários,
Luis

PS (salvo seja): o João Miranda envia-te saudações clandestinas. Mas, aqui entre nós, receio que ele tenha sido um tremendo erro de casting: ao pé dele, o camarada Jerónimo faz figura de homem flexível e bem informado…

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