Uma tradição portuguesa

A recente referência do “Público” à vitória de um “candidato nominalmente comunista” (sic) nas eleições presidenciais de Chipre (devidamente assinalada aqui no 5dias pelo Nuno Ramos de Almeida) fez-me lembrar algumas das melhores páginas do PREC, quando o esquerdismo coevo escrevia as siglas P.”C”.P. e P.”S”. entre aspas, porque esses partidos eram apenas nominalmente aquilo que diziam ser e verdadeiramente comunistas e socialistas eram os escribas da “Voz do Povo”, de “A Verdade” ou d’”O Grito do Povo” (mas só até 76 ou 77, claro, quando finalmente viram a luz, descobriram que afinal este era o melhor dos mundos possíveis e iniciaram lindas carreiras que viriam a conduzi-los até à redacção do “Público” ou algo similar). Tão longe, aliás, foi levada a prática de fustigar os falsos amigos do povo pelo uso de umas afiadas aspazinhas (a famosa arma da crítica, que antecipava a ainda mais castigadora crítica das armas), que um cómico nortenho anónimo criou mesmo à época o P.B.X., sigla que designava o Partido Berdadeiramente Xuxialista, de que ainda se encontraram restos na recente candidatura presidencial de Manuel Alegre… Pela minha parte, tive muita pena que esta tradição desaparecesse e folgo em vê-la retomada, e logo no “Público” (prova provada do famoso dito de Tayllerand, de que há gente que não esquece nada nem aprende nada); pena é que a restrinjam apenas ao caso vertente e cipriota, pelo que me atrevo a propor o seu alargamento, com as devidas actualizações, aos partidos nacionais. Assim sendo, o velho P.C.P. poderá passar a ser referido por P.C.P. (N-N) – ou Partido Comunista Português (Não-Nominalmente), o B.E. será Bloco Indubitavelmente de Esquerda ou Bloco Undoubtedly de Esquerda, respectivamente B.(I)E. ou B.(U)E., o P.S. do Eng.º Sócrates poderá ser o P.S.(G), ou Partido Socialista (na Gaveta) e o P.S.D. passará a P.E.D.-P.P.D.-P.S.D., ou Partido Equivocamente Designado por Partido Popular Democrático ou Partido Social-Democrata. Acho que fica melhor.

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SEXTA | António Figueira
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2 Responses to Uma tradição portuguesa

  1. Paulo Pinto diz:

    E alguém se lembra do Herman (nos tempos saudosos em que tinha piada) e de uma rábula, apresentada em noite de eleições (salvo erro, nas eleições da maioria absoluta do Cavaco em 1987), em que surgia como líder de um PMMRACSEUBDCL (ou coisa que o valha), que era algo como Partido Muito Mais Renovador Ainda Comunista Sem Esquecer Um Bocadinho de Centrismo Liberalizador, e que se apresentava com um alicate, “o partido do alicate”? O alicate que devia ser usado para “arrancar os podres deste país”? “O trabalhador não quer trabalhar? Malandro, vai-se buscá-lo pela orelha com o alicate e ele vai trabalhar… o patrão não paga? dá-se-lhe um apertão nos coisos com o alicate e vão ver como paga”…

  2. Paulo Cortez diz:

    Cheguei a ter isso gravado mas nunca mais dei com a cassete VHS. Se calhar, alguém gravou por cima. Lembro-me que se referia à mulher como uma santinha que andava nas feiras entre crianças com ranho ao pendurão e galinhas penduradas a escorrer sangue…interrompia para quase vomitar. Lembro-me que estava caracterizado como um operário com um farfalhudo bigode tipo Staline. Do melhor que já vi por parte do Herman! O que não dava para rever isso!

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