Take a blog on the wild side

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A blogosfera, como toda a esfera que se preze, não tem lados. Mas tem uma face oculta, subterrânea, a recato dos olhares dos basbaques e das câmaras dos turistas (esta foi à CFA). Há continentes inteiros que não vêm cartografados nos blogrolls bem-comportados, nem nas listas dos “queridos amigos” das abelhas mestras do ciber-social.

Eu sei que sabe bem saltitar do Alexandre Andrade para o  Mexia, da sapiência desbragada do João Miranda para as certezas graníticas do Daniel Oliveira. And so forth. São itinerários que nos garantem o manso conforto das boas rotinas: Português escorreito, algumas ideias giras,  provocações espertas de quando em vez. Mas, como Henrique III de Navarra tratou um dia de demonstrar, toujours perdix também farta. Variar é imperativo de higiene mental.

Ora para quem deseja saborear o oposto de perdiz, a receita perfeita está mesmo ao virar da esquina. Confesso que, a princípio, a técnica ardilosa do seu autor me confundiu: onde se esconde a astúcia, eu, pobre néscio, só lia caos; onde as normas rígidas da Língua eram dinamitadas num alegre carnaval de polissemias selvagens, num carrossel de rodopios morfológicos, eu imaginava sintomas de maluquice cavalgante. Um breve exemplo: «Aqui este blog que por acaso é meu e é um blog tá-se desde o início com Obama Barack, mas caso se dê o ocaso de ser Hillary a candidata Democrata, o que Eu dúvido, aqui neste blog que por acaso é meu e é um blog, aqui se irá apoiar o candidato Republicano, contradição?» Onde é que já leram prosa mais altaneiramente a leste das regras alheias? Não admira portanto que o Re21 se sinta ora injustiçado pelas moles ignaras ora pilhado pelos intelectuais pós-modernos, sempre carentes de novas modas: «É ver como “eles”,aliás, alguns dos “eles”, com blogs “enarneirados” tentam imitar este blog, não conseguem porque isto é um blog, mas lá que “eles” tentam, tentam.»

Confesso que precisei do olhar arguto do Rogério Casanova para descodificar esta difícil fachada: «Por qualquer critério, isto é muito bom. Lembra o melhor de DeLillo, com os seus non-sequiturs e itinerários cognitivos assombrados pelas próprias vésperas. (…) Com todo o respeito, acho que Re21 está a sofrer o que sofre todo o talento pioneiro. Também Joyce foi acusado de não perceber nada de pontuação.» Agora parece óbvio, na altura passou-me ao lado.

Mas há muito mais, nestes alegres túneis da bloga que não vem citada no Público. Só a propósito de malta asilada de outros media mais vistosos e bem pagantes, podia aqui deixar uma entrada quase encicloplédica: da Luísa Castel-Branco ao Pedro Rolo Duarte. Sim, esse mesmo, o inimigo jurado da coisa. O homem pode ter mudado de ideias quanto aos blogs; mas continua espesso no que toca ao resto: ainda hoje republicou um texto seu de 2001 em que chora a ausência de atenção crítica a bestas céleres como os livros do Sousa Tavares (a sério), da Paula Bobone ou do António Sala. (De caminho, trata logo de se enganar no nome do primeiro livro que refere, de Mario Puzo.) Ficamos a saber que o homem acabou com o espaço dedicado aos livros no Dna precisamente por não conseguir calar a revolta ante tamanha injustiça. Dá-lhes, PRD!

Coisas bem menos deprimentes do que estes  fantasmas em busca das audiências perdidas também enchem os bas-fonds da blogosfera. Como o festivo Bichísses, o blog que devolve à palavra “Gay” o seu sentido original, em imperdíveis delírios de má-língua, brejeirice e folia chona. E sabiam que existe um blog — com «61 magníficos sócios» — que tem a humilde pretensão de ser «referência para as artes em Portugal e no mundo»? Ou que anda por aí uma coisa com o improvável nome “Fajã da Ovelha News”?

Vão por mim: agora que não há Feira Popular, passa-se bem umas horas de Sábado chuvoso por estes caminhos esconsos do nosso Portugal da bloga. E por certo que me faltam muitos endereços nesta agenda alternativa. À laia de alvíssaras antecipadas para os vossos contributos, deixo-vos com mais uma jóia lapidada por esse domador de palavras à solta, o Re21. Nem Joyce nem Pynchon arriscariam um parágrafo assim:

«A partir de hoje vai fechar para mais obras, sim, mais obras, a única coisada que lhe falta é separar totalmente a cozinha da sala de apoio ao serviço de sala onde estão os clientes, assim dito por outras palavras , ou seja quem está na cozinha não pode sair de lá por onde sai a comida, quem está fora da cozinha não pode entrar na cozinha, quem está na cozinha não pode sair da mesma com a roupa que tem vestida que deve ser adequada , tem que ter uma porta de acesso a um local próprio onde se poderá “fardar” e “desfardar”, quer dizer, a comida sai por um lugar específico e só por esse lugar, a louça que é levantada das mesas dos clientes tem que entrar por outro lugar e tem destino marcado dentro de um lugar dentro da cozinha que não passa onde se cortam os legumes e claro que longe também onde se cortam os bifes e nem pensar passar pela zona onde se amanha o peixe muito menos na zona onde se fritam as batatas e claro que é preciso ter em atenção ver como está a temperatura do oleo das batatas fritas, assim como a temperatura do frio onde se guardam os legumes, etc,etc,etc, etc, há dias fui a um Macdonald´s e reparei que entre a cozinha e o balcão onde nos servem os deliciosos hamburguers não há separação nenhuma, também verifiquei que a malta que lá trabalha, com e sem touca circula por todo o lado seja na cozinha seja no balcão até vêm cá fora limpar o chão e tudo e depois vão na boa aviar batatas fritas ou empacotar os deliciosos hamburger´s  que nos servem, é mentira?…»

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13 Responses to Take a blog on the wild side

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