Balcanices

Deram-lhes um pretexto, agora tenham medo. Tenham muito medo.
Claro que por cá, na Europa cool, nada há a recear em relação ao Alto Adige/Südtirol, à Transilvânia, ao Schleswig/Holstein, aos sórbios do Brandeburgo, à Alsácia, à Bretanha, ao Ulster, à Catalunha, até ao País Basco, a sei lá que mais sítios – muito menos a Olivença ou Rio de Onor. Nem à Costa da Caparica, que um dia destes tem mais farofa que sardinhas. Talvez Barrancos resolva um dia chatear, não sei. A ver vamos.
Enfim, chatear os sérvios-da-gleba tem sido um passatempo europeu recorrente, pelo menos desde 1914. Eu sei que eles se põem a jeito. Mas a verdade é que estão sempre a embirrar com eles.
Que se lixe. Agora que os Balcãs estão de novo na ribalta, fica aqui o que E. M. Cioran dizia dos seus povos:

Esse gosto pela devastação, pelo tumulto interior, de um universo parecido com um bordel em chamas, essa perspectiva sardónica sobre cataclismos acontecidos ou iminentes, essa aspereza, esse farniente de insones ou de assassinos, tão rica e tão pesada herança será nada, será nada esse legado de que benificiam os que de lá vêm? E que, feridos por uma “alma”, por essa mesma circunstância provam conservar um resíduo ainda de selvajaria? Insolentes e desolados, gostariam de se espojar na glória, cujo apetite é inseparável da vontade de se afirmarem e afundarem, da tendência para um crepúsculo rápido. Se as suas falas são virulentas, as suas entoações inumanas e por vezes ignóbeis, é porque mil razões os impelem a gritar com mais força que esses civilizados que esgotaram os seus gritos. Únicos “primitivos” da Europa, dar-lhe-ão talvez um impulso novo; será isso que, por seu turno, ela não deixará de considerar como a última das humilhações.

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11 Responses to Balcanices

  1. Caro José Pedro Barreto,
    Temos de ver as coisas pelo lado positivo no que a nós portugueses diz respeito :
    – pode ser que o Alberto João Jardim declare unilateralmente a independência da Madeira, Porto Santo de Desertas.
    Eu por mim era já…mas parece que o Alberto já veio dizer que não está para aí virado. Bruxo que o gajo não é parvo.
    Cumprimentos

  2. José Pedro Barreto diz:

    Pois é, não tinha visto a coisa por esse lado…

  3. Coitados dos Sérvios… o melhor mesmo era abolir essa coisa parva da autodeterminação dos povos…

  4. José Pedro Barreto diz:

    Essa coisa parva da autodeterminação dos povos era o que queriam – por exemplo – os sérvios da Krajina croata (curiosamente, descendentes dos que no século XVI tinham fugido do Kosovo, empurrados pelos turcos, procurando abrigo naquela região de fronteira – “krajina” – do império dos Habsburgos, e usados posteriormente por estes para a colonizarem e defenderem).
    Eram maioritários naquela região há quase quatro séculos, e acharam que tinham direito a essa parvoíce. Só que estavam do lado dos “bad guys,” e não tiveram sorte nenhuma. Em 1995, o preclaro democrata de Zagreb, Franjo Tudjman, finalmente com um exército armado, financiado e treinado pelo chamado Ocidente, resolveu a coisa, submetendo a Krajina e expulsando 150 a 250 mil sérvios. “Se o povo não gosta do Governo, mude-se o povo,” não era o que dizia o Brecht? E tanto pior para essa coisa parva que é a autodeterminação.
    Não acho que os sérvios sejam melhores do que os outros. Não acho que ninguém seja melhor do que ninguém. O que eu acho, simplesmente, é que ou há moralidade ou comem todos. Capice?

  5. Independentemente de outros episódios isso não justifica a nenhum nível a condenação da independência do Kosovo. Por se ter cometido um erro não somos obrigados a repeti-lo eternamente por uma questão de igualdade. Capice?

  6. José Pedro Barreto diz:

    O exemplo que dei não foi para condenar a independência do Kosovo, mas para apontar o “double standard” com que estas coisas são tratadas. Eu gostava de ver os campeões da autodeterminação dos povos meterem-se com a China, por causa do Tibete, com a mesma coragem com que se metem com a Sérvia. Mas não vejo. É que a China são para aí 150 Sérvias. É muita gente.
    Falar de “repetir um erro” pressupõe uma ordem histórica cronológica que não existe. “Erros” desses continuam e continuarão a cometer-se, conforme interesse ou não cometê-los.
    Não foram os lindos olhos dos kosovares que lhes garantiram o reconhecimento do seu direito à autodeterminação. Repito que não acho os olhos da Sérvia mais bonitos que quaisquer outros. Mas retalhá-la, neutralizá-la, evitar que naquela região exista um poder hegemónico, é uma constante da história europeia (sobretudo da sua componente germânica). A muitas coisas ela se tem vergado (como se vergou a quase todos os pontos do ultimato austríaco de 1914, e mesmo assim para nada). E até aceitou há pouco tempo a separação do Montenegro, que significava a sua saída para o mar, e onde nem sequer havia uma diferenciação étnica como existe no Kosovo.
    Não condeno a independência do Kosovo. Condeno, sim, a ligeireza com que ela foi aceite e até encorajada, e a falta de empenho em suscitar alternativas que não ferissem a alma sérvia (Porque é disso que se trata, dessa coisa vaga, mas pela qual os homens morrem mais depressa do que por um poço de petróleo. De resto, o Kosovo não interessa nem ao menino Jesus). Alternativas essas que dessem aos kosovares um estatuto digno e até talvez mais promissor.
    Uma integração da Sérvia na UE, com um Kosovo gozando de uma autonomia “à espanhola”, por exemplo. Em vez de acenar a Belgrado com a cenoura da integração se desistisse de Pristina, porque não acenar a Pristina com a cenoura da integração se ela aceitasse permanecer ligada a Belgrado e ficarem todos mais ricos e prósperos?
    Mas esse seria um interesse europeu, não necessariamente norte-americano. Aliás, as bandeiras que se agitaram em Pristina não eram as da UE, mas dos Estados Unidos. Como na vizinha Albânia (embora isso não tenha evitado que lá gamassem o relógio ao Bush).
    E pronto, agora fico à espera das acusações de anti-americanismo e, se calhar, de bolchevismo.

  7. José Pedro Barreto diz:

    Adenda: a população da Vojvodina, região da Sérvia que fica a norte de Belgrado, é maioritariamente húngara. Se amanhã quiserem a autodeterminação, que vamos fazer?
    E se os 120 mil sérvios do Kosovo quiserem amanhã a autodeterminação, e fazer um “Kosovozinho” em versão concentrada?
    Os Balcãs são uma verdadeira matrioshka, e nunca se sabe quantas bonequinhas há dentro de cada uma delas.

  8. José Pedro Barreto diz:

    Ah, é verdade: ainda existe na Sérvia uma coisa chamada Sandjak de Novi Pazar. Fica a sudoeste, na fronteira com o Montenegro e o kosovo. São “sérvios” muçulmanos. Porque não lembrar-lhes que também têm direito à autodeterminação?

  9. Ninguém disse que não havia double standard! Obviamente que todas as questões de direitos humanos são relativizadas quando existem interesses de uma grande potência em jogo, é injusto mas é verdade – e já agora, nunca considerei a questão do Tibete como essencialmente diferente, é claro que a China cometeu um acto de agressão a outro estado e deve ser condenada se não o é é porque os jogadores da real politik não valorizam a vida humana ou questões de direitos humanos.

    Agora independentemente de todos os interesses em manter uma Sérvia fraca (o que eu relembro é algo relativamente positivo para minimizar a influência Russa, assumindo que somos europeus isso é positivo já que temos projectos políticos divergentes e concorrentes por influência em muitas regiões) todos os povos têm direito à autodeterminação! Os kosovares não são uma excepção. O que realmente parece irritar alguns é que isto sirva os interesses dos EUA e da UE – assumindo que nesta área esses interesses convergem (estabilização e contenção da influência Russa) e que todos somos europeus juro que não compreendo essa tendência auto-mutiladora.

  10. José Pedro Barreto diz:

    Parece que concordamos finalmente: não é o direito à autodeterminação que determina tudo, mas os interesses de terceiros.
    Resta saber se interessa mesmo à UE – ou apenas a alguns países da UE. À Espanha não interessa muito, parece. Fico-me pelo exemplo mais próximo de nós. Resta também saber o que significa “minimizar a influência russa”. Não estaremos a atirar a Sérvia, definitivamente, para dentro dessa influência? A tirá-la não estamos, de certeza.

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