Sarah

Estávamos todos sentados em redor da mesa, ansiosos. Hoje era o dia da apresentação (lecture) da Sarah. O imponente relógio informava-nos que Sarah estava atrasada. Os professores que se tinham deslocado de outros departamentos e universidades para a ouvir brincavam com as suas canetas e diziam as trivialidades habituais. Com cada minuto que passava, surgia a interrogação: “onde é que está a Sarah?” “Eu vi a Sarah a beber um chocolate quente no corredor da biblioteca há pouco ”, dizia a Senhora Burns. Sarah tinha sido internada, há poucos meses atrás, por um período de duas semanas. Depressão. Lady Burns era uma solteirona simpática que trabalhava como secretária do departamento. Adorava a Sarah. Ela e eu fomos os únicos a visitá-la no “hospital.” Não trocamos uma única palavra com ela quando a visitámos pela primeira vez. Olhava para nós. Sorria. Fechava os olhos. Ficavamos com a impressão que o abrir dos olhos era um acto notável e uma vitória miserável. Num só gesto.

 

Às oito e meia da manhã, Sarah chegou à sala do seminário. Tremia, como sempre. Os seus olhos azuis-acinzentados contrastavam com os seus cabelos blondish-punk, quase sempre despenteados. Era linda! A Sarah sentou-se no seu lugar. Cumprimentou-nos com um simples movimento vertical dos olhos. “Très nippon”, dizia a Julie, uma colega nossa. Os profs apressaram-se a posicionar as suas canetas em write-mode. Comportavam-se como mercenários à procura de uma vantagem macabra, numa guerra qualquer. Sarah não era uma filósofa. Era uma vítima da filosofia. Só mais tarde é que percebi que só aqueles ou aquelas que sofrem com a filosofia é que podem vir a ser filósofos ou filósofas. Aprendi isto com ela. A Sarah era um “lugar” onde decorria uma interminável batalha. A sua batalha tinha pouco ou nada que ver com as absurdas guerras académicas que envolviam e agitavam o departamento. Nas expressões da sua cara testemunhávamos a tortura implacável da filosofia. A Sarah era autêntica.

 

“Hoje, na minha apresentação, vou falar acerca do inefável, do indizível. Um desígnio paradoxal? Não se precipitem! ” Começou assim, como começava sempre. Sem apresentações biográficas, sem cumprimentos ridículos, sem referências patéticas, sem notas. Detestava ornamentos retóricos. Detestava a sinuosidade. Não estava ali para “socializing.” Era o inefável que a movia. (continua…)

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