Sócrates e Deus fora da nossa cama (coluna no Meia Hora)

Uma das conquistas da civilização dos últimos anos foi tirar Deus e o Estado debaixo dos lençóis. Há poucos anos era normal que governos e padres nos impusessem a sua moral, explicando-nos de uma forma muito convincente, como só as penas terrenas conseguem, que há formas de fazer o sexo que são absolutamente proibidas. Ainda hoje, no mundo civilizado e Ocidental existem zonas mais conservadoras, normalmente em estados de maioria evangelista dos Estados Unidos, em que o sexo anal e o sexo oral, entre dois adultos consentâneos, são terminantemente desaconselhados.
Ninguém pretende impor ao Papa e aos cardeais uma vida de sexo dissoluta, nem impedir que preguem a castidade aos outros – problema deles e daqueles que convencem. Apenas se exige que os governos não façam da doutrina religiosa moral de Estado. Entendamo-nos: quem eu levo para a cama é assunto meu, fora do âmbito do governo Sócrates, da União Europeia, da Santa Sé ou da ASAE.
Nesta matéria, entre adultos consentâneos, não há “normalidades” nem práticas únicas. Ninguém deve ser discriminado pela sua escolha sexual. O Estado não pode impor a “normalidade” das religiões à consciência das pessoas. A sentença do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, que condena o Estado Francês a pagar uma indemnização a uma mulher lésbica que foi impedida de adoptar uma criança, é histórica. Vem quebrar a hipocrisia de “permitir” a homossexualidade, mas continuar a considerar que essas pessoas não são “normais”.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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