A democracia é uma chatice (crónica no Meia Hora)

Num célebre conto do escritor  Mário-Henrique Leiria, dois portugueses (um ligado ao regime salazarista e o outro à oposição) discutem o conceito de democracia. Diz o primeiro:
“Desconfio que a democracia não resulta. Juntam-se astronautas, bodes, camponeses, galinhas, matemáticos e virgens loucas e dão-se a todos os mesmos direitos. Isso parece-me um erro cósmico. Desculpa.
Desculpei mas fiquei ofendido. Que a democracia era aquilo mesmo, e ainda com conversa fiada como brinde, isso sabia eu. Que mo viessem dizer, era outra coisa .”
O primeiro-ministro português e os seus pares europeus também não querem entregar a construção europeia às donas de casa, às virgens loucas, aos Zés ninguém. São adeptos de uma democracia de novo tipo, a chamada “democracia qb”. Consultar as populações e fazer referendos só é possível se o resultado for o que eles querem. Se isso não acontecer, deve-se retirar a palavra ao povo. Para as coisas importantes, estão cá eles para decidirem o que é melhor para nós. O resto são pequenas aldrabices para garantir esse grande desígnio. É preciso perdoar a Sócrates a mentirinha de dizer que só tinha prometido o referendo a um tratado misteriosamente igual a este, embora impresso em outro papel e com outro nome. No fundo, no fundo, ele só quer o nosso bem.
O problema é que a Europa nunca será mais do que um negócio se os europeus não forem chamados a decidir. Os líderes europeus acham que a Europa é demasiado importante para ser construída pelos europeus. Para estes líderes, o segredo é a alma do negócio e a União Europeia não passa “do seu negócio”.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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