Rui Tavares: Todos os sonsos

Num site de literatura científica chamado The Edge (www.edge.org)
pergunta-se a umas dezenas de pensadores e autores sobre o que
mudaram de ideias recentemente. Uns trocaram de teorias, outros
abandonaram opiniões sobre a forma do universo, outros sobre as
possibilidades de vida fora da Terra ou os limites da inteligência
artificial.

Mais modestamente, eu acabei o ano de 2007 convencido de que dois
historiadores portugueses com obra publicada sobre o século XX— José
Pacheco Pereira e Vasco Pulido Valente — sabiam alguma coisa sobre o
fascismo. No caso de Vasco Pulido Valente, essa certeza era reforçada
pelo facto de o próprio ter reiteradamente polemizado daquela forma
que só ele sabe polemizar — chamando ignorantes e analfabetos a todos
os outros — sobre o que se pode ou não chamar de fascismo.

Mais precisamente, Vasco Pulido Valente ameaçava aniquilar com o
verbo quem se permitisse chamar “fascismo” à ditadura de Salazar —
uma ditadura que censurava, prendia e torturava os seus opositores.
Pacheco Pereira indignou-se por ter havido quem chamasse “fascista” a
George W. Bush, — isto por causa de Guantánamo, do Patriot Act e da
Guerra do Iraque. E eu levei-os a sério.

E agora descubro que estes mesmos historiadores não tiveram dúvidas
em classificar como “fascista” a nova lei do tabaco. Não lhe chamaram
exagerada, mal concebida ou uma série de coisas que, concebivelmente,
se poderiam dizer acerca de uma lei que transforma espaços que eram
por regra de fumadores em espaços de não-fumadores. Não: fascista é
que é. E podemos ir mais longe. Helena Matos ou António Ribeiro
Ferreira acham que “fascista” não chega: a nova lei é “totalitária”.
Totalitária! Como os regimes de Hitler, Staline e Pol Pot. Viva a
exactidão.

Pois é. Acabei o ano de 2007 convencido de que eles sabiam do que
estavam a falar. E depois chegou 2008.

***

Mas não é só o fascismo. É também a perseguição aos católicos.
Segundo Vasco Pulido Valente, a igreja é capaz de ter de viver novos
tempos de clandestinidade, isto porque em Espanha o primeiro-ministro
Zapatero acabou com a obrigatoriedade da disciplina de Religião e
Moral (em Portugal já é opcional há décadas), permitiu o casamento
homossexual ou facilitou o divórcio. Pelo escândalo, dá para perceber
que Pulido Valente acha (justamente) legítimo que a igreja organize
uma manifestação contra o governo. Mas se um porta-voz do governo lhe
responder isso já prenuncia uma vontade de silenciar a igreja
católica espanhola, no seu próprio país. Ora, toda a gente perdoa a
Vasco Pulido Valente desconhecer o Portugal actual. Mas podia ao
menos conhecer a Espanha.

Já agora: também por aqui, no nosso Portugal, a Igreja pode ter de se
preparar para regressar às catacumbas. Segundo o Correio da Manhã, o
governo até vai tirar os nomes dos santos às escolas. Verdade?! Não:
Correio da Manhã. Para as escolas que ainda não têm nome, o governo
propõe às suas assembleias que escolham nomes de “uma personalidade
de reconhecido valor, que se tenha distinguido no âmbito da cultura,
da ciência ou educação”. Não se percebe para que é preciso tanta
sugestão. Mas faltava de facto uma linha dizendo que “nomes de santos
católicos também valem!”, isto para toda a gente perceber que Santo
António de Lisboa, São Tomás de Aquino ou São Bartolomé de las Casas
cabem nas propostas. Bem como São Remígio e Santa Radegunda, que
protegem contra as febres altas.

Valha-nos que para provar que vivemos numa era anti-cristã o governo
aproveitou o Natal para anunciar a localização do novo hospital de
Lisboa. Que se vai chamar: de Todos-os-Santos. Verdade? Verdade.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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