Ajuste de contas I

O que safava Júlio Diniz era a ausência de telemóveis. Só assim as suas tramas débiles podiam funcionar: a carta ia a chegar quando ele já tinha saído de casa, e o mal-entendido aconteceu, inevitável. Os verdadeiros herdeiros de Júlio Diniz foram António Lopes Ribeiro, Leitão de Barros e quejandos: sucessões de quid pro quos na aparência fatais, mas só na aparência, alô, alô Dona Rosa, que depois se desatam com mais facilidade do que os atacadores dos meus sapatos. E as personagens? Quanta bondade! A Jenny então é aflitiva, não existe, é um Deus ex-machina para fazer o romance avançar. E a ideia de fazer o Manuel Quintino sócio de Richard Whitestone?! É absolutamente corporativa: só mesmo na cabeça de um santo amigo dos pobrezinhos! A única graça do livro é mostrar um bocadinho do Porto daquela altura, e da vida dos nativos (as costoletas do Águia d’Ouro, as jantaradas às três da tarde…), mas não creio que tenha sido para isso que ele foi escrito. Pensar que é quase contemporâneo d’O Crime do Padre Amaro, e que tem quase uma literatura de atraso.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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