O sol rompia a custo o plúmbeo céu

A jovem inglesa, poética organização setentrional, delicada como o arminho, subtil e vaporosa, vaga e imaterial, quasi celestial, parece a nós, entes grosseiros, rodeada de uma atmosfera de uma castidade virginal, no seio da qual os desejos – esses filhos alados da imaginação – se abatem asfixiados (belezas como ela foram por certo as que inspiraram as imagens das virgens dos cantos do bardo Ossian!).

Nela, a paixão de amante, a ter de inquietar o coração, dificilmente se revelaria, a não ser adivinhada; mas depois, se o fosse, ou havia de consagrar-se na de esposa, de sublimar-se na de mãe, ou lentamente a consumiria; ser-lhe-ia fatal, se por não compreendida, não chegasse a realizar essa santificada evolução.

O sol rompia a custo o plúmbeo céu e os nossos aliados ingleses, fatalmente perseguidos de spleen, imaginam-se lúgubres e soturnos, como se a cada momento saíssem de uma mina de pit-coal (por lhes faltarem os vívidos raios do nosso desanuviado sol, ou a face desassombrada da lua no firmamento penínsular, vertendo alegrias nas almas e mandando aos semblantes o reflexo delas).

Quem me mandou a mim, coleccionador de lugares-comuns literários, voltar na idade adulta a ler o insuperável Júlio Diniz?! De copo na mão, dei por mim a altas horas a acordar a família e a decompor em rima farçola a Família Inglesa, estropiando-lhe o sentido, sempre que necessário, só para apanhar o verbo fácil, o redondo vocábulo, o lugar-comum perfeitinho como eu gosto, e com aquele perfume de selecta literária dos liceus que me dá a volta à cabeça! E depois a referência a Ossian, esse genial embuste do nacionalismo europeu: hei-de escrever-lhe um post, quando acabar o da Lynn Hunt e da história da pornografia, e antes do da Arendt e do pluralismo que devo ao Ezequiel, está prometido.

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SEXTA | António Figueira
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