Celan

Já não sei sob que pretexto, o Ezequiel – o nosso íntimo Ezequiel, que nunca nenhum de nós viu, mas faz parte da mobília desta casa – escreveu uma frase de Celan (deveria eu dizer horrorosamente que o “convocou”?) num comentário seu a um post meu (“Les murs finissent en nuit noire”); o Ezequiel quer que eu escreva sobre Hanna Arendt e eu ando a esquivar-me (preferia escrever sobre Mary McCarthy), mas o caso Celan é diferente, “é a pura imanência das palavras sem garantia” (António Guerreiro dixit) em plena terra de ninguém; por isso, enquanto escrevo e não escrevo alguma coisa de meu, permito-me, hoje, sábado, a um quarto para as sete da tarde, enquanto não se faz noite negra e como se fosse um locutor de continuidade, retribuir-lhe o gesto:

“Ninguém nos moldará de novo em terra e barro,
Ninguém animará pela palavra o nosso pó.
Ninguém.

Louvado sejas, Ninguém.
Por amor de ti queremos
florir.
Em direcção a ti.

Um nada
fomos, somos, continuaremos
a ser florescendo:
a rosa do Nada, a
de Ninguém.”

Quem quiser conhecer o fim do poema (“Salmo”, retirado do livro “A Rosa de Ninguém”) pode encontrá-lo na antologia bilingue de Celan organizada e traduzida por João Barrento e Yvette Centeno “Sete Rosas Mais Tarde”, editada pela Cotovia. Bom resto de fim-de-semana.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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