Portugal, a França, a Inglaterra e a Suécia

A propósito dos comentários a um post anterior, tenho a dizer o seguinte:

A anglofilia que grassa hoje em Portugal (como a francofilia, se a houvesse, ou outra filia qualquer) é uma saloiice pegada. Parte do princípio de que temos, não de perceber o mundo, mas de escolher nele um modelo, e depois imitá-lo. Os resultados são funestos: não falo só das partes gagas, do culto churchiliano do Doutor Espada à prosa ao estilo oxfordiano do Doutor Rui Ramos, falo das partes supostamente sérias: a anglofilia portuguesa contemporânea é acompanhada de um French bashing que apresenta credenciais académicas mas leva às comparações mais estapafúrdias e aos usos vocabulares mais impudentes. Tome-se por exemplo a palavra “genocídio”: quem procura convencer-nos da bondade intrínseca da “moderação” política anglo-saxónica chega a defender em paralelo a tese (de que nem Furet se lembrou) de que a Revolução Francesa foi justamente um genocídio (e porque não Saint-Barthélemy?, a coisa merece um Livro Negro), e invoca em favor da justeza da francofobia nacional Eça de Queiroz, esse anglófilo; ora se Eça era anglófilo, não era menos francófilo, e o facto de zurzir no “francesismo” ou de se referir à França “videirinha” (na correspondência) não o impedia de se referir com a mesma falta de condescendência à Inglaterra dos seus dias (a quem se interesse pelo tema, recomendo a leitura de “Inglaterra e França n’Os Maias: Idealização e Realidade”, de Américo Guerreiro de Sousa, editado pela Caminho em 2002); aliás, o termo “genocídio” – que ninguém, em seu são juízo político, deveria empregar sem as maiores cautelas – a aplicar-se a algum episódio da história desses dois países, aplicar-se-ia de preferência à potato famine e ao regime inglês na Irlanda, tão bem descrito… nas “Cartas de Inglaterra”.

A anglofilia que grassa hoje em Portugal, além de ser uma saloiice pegada, é uma importação da França. A adopção como modelo político-cultural de uma raça viril e de uma civilização triunfante terá os seus encantos para os psicanalistas; para os simples curiosos da coisa social e da história das ideias, em que me incluo, trata-se de uma óbvia depreciação do próprio através do culto do alheio, a que se emprestam todas as virtudes e nenhum dos defeitos, e que se verifica históricamente (porquê?, é uma boa questão) nos países da Europa do Sul, habitualmente sob a forma de anglofilia e de germanofilia. O George Brassens, num dos dos seus melhores discos, tem uma canção chamada “Les deux oncles” que começa assim: “C’était l’oncle Martin, c’était l’oncle Gaston / L’un amait les Tommies, l’autre aimait les Teutons” e que acaba cheia de filosofia: “Chacun pour ses amis, tous les deux ils sont morts / Moi, qui n’aimais personne, eh bien!, je vis encore”…

A anglofilia que grassa hoje em Portugal, além de ser uma saloiice pegada, é uma coisa muito mal explicada: quem atribui a nossa subserviência à cultura francesa no passado e a nossa descoberta tardia dos encantos da cultura (política, nomeadamente) de matriz anglo-saxónica nos dias que correm à melhoria do ensino do inglês parece-me que está a esquecer-se de algumas minudências: não será o facto de termos em comum com a França o catolicismo e a filiação latina da língua, de os nossos primeiros reis serem descendentes de franceses, de a França ser mais próxima de Portugal e, diga-se, dos franceses serem mais próximos “antropologicamente” falando dos portugueses que explica a importância da presença cultural francesa em Portugal – que se exprime até, paradoxalmente, na anglofilia de alguns de nós? Estes anglófilos – e com esta acabo – lembram-me de resto os nossos monárquicos: acham que se nós adoptássemos uma patine cultural inglesa, trajássemos de tweed, lêssemos T.S. Eliot e bebêssemos imenso chá deixávamos de ser quem somos e passávamos a ser ingleses, livres, cultos e ricos como na livre, culta e rica Inglaterra (they don’t know the other half), como os nossos monárquicos acham que se tivéssemos um rei seríamos livres, cultos e ricos como na livre, culta e rica Suécia… Pura ilusão: para o melhor e para o pior, portugueses somos, portugueses vamos ficar.

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SEXTA | António Figueira
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16 respostas a Portugal, a França, a Inglaterra e a Suécia

  1. Sérgio diz:

    Lições simples, de bom senso. Um bom exemplo de escrita tranquila e informada perante uma torrente que se pode, até, filiar nessa figura curiosíssima que foi Frei Agostinho de Macedo.

    Os meus parabéns, António.

    Cumprimentos,
    Sérgio.

  2. al diz:

    O genocídio é, como se sabe, a acção que intenta de um modo planeado e organizado a eliminação de um grupo, seja nacional, seja social ou político ou étnico. Foi isso o que aconteceu na França revolucionária – e já nem falo na sangrenta repressão, pelas tropa da república, dos camponeses do levantamento da Vendeia…
    Quanto ao anglofilismo, falo apenas por mim: eu sou-o pelas mãos de Eça. Eça, que tinha uma visão muito real da Inglaterra e da cultura inglesa (e não menos aguda, da culture française) e que lamentava o nosso francesismo enquanto componente do nosso provincianismo, responsável pela ignorância espantosa da riquíssima realidade cultural inglesa já que essa ignorância, a França não deixava de a partilhar: Shakespeare – e.g. Macbeth (!!!) – foi traduzido para francês há pouco mais de 100 anos…
    Creio que esse desconhecimento francês e, por contágio, português da cultura inglesa, tem, nos últimos tempos, o seu volte-face entusiasmado, como sempre acontece nas descobertas tardias.

    De resto… bem… a França será sempre admirada por todos aqueles que idolatram o estado: foi em França que se decidiu, por decreto publicado no jornal oficial, a existência de Deus (não sei se foi revogado) ou que, igualmente por decreto, se proibiu o tratamento por “tu”… como antes tinha sido imposto o de “citoyen”.
    Em Inglaterra as coisas são mais desleixadas: a revolução indústrial, a mais importante desde a revolução neolítica, sem qualquer decreto estatal lá nasceu e se firmou, e lhe acentuou, sobre o resto da Europa rural – tão rural que a questão se punha ainda no tempo de Pompidou, há trinta e tal anos – aquela singularidade que, sobre a sua insularidade, lhe advinha de ser a primeira sociedade industrializada e, de facto, moderna.

    E como não admirar Churchill? Admirar antes, em França, quem? Os dirigentes do Partido comunista que incitavam os operários a sabotarem os já ténues esforços de guerra contra Hitler (a Rússia era aliada dos nazis) – ainda existem os cartazes…?

    Isto de ser anglófilo é, afinal, mais fácil…

    Aproveite-se para ler Eça, das Cartas de Inglaterra aos Ecos de Paris.

  3. ezequiel diz:

    Caro António

    Com toda a sinceridade, estou-me a borrifar para os wannabees…sejam eles anglófilos ou francófilos…esta mui lusa discussão (fr vs gb)..é uma perfeita treta! É patético. Não há outro nome a dar.

    Cumps,

  4. ezequiel diz:

    Se tivesse que ser alguma coisa não o seria pela via do fascínio (identitário) infantil.

    Seria Canadiano, bolas. Nem Inglês, nem Françês, nem o raio que lhe parta. Ou então Americano. Juntar-me-ia ao melting pot ou ao multiculturalismo Canack..eh he he eh..Bolas, aturar francius e pommies…deves tar maluco pá!! Nem pensar. 🙂

  5. Bem visto.

    A maior parte dos que só agora descobrem, semi-aparvalhados, a cultura inglesa, aliás como forma de absoluta “preguiça cultural” (porque a “cultura inglesa” que nos é servida no “jet set” e no “socialight” é toda ela um produto pronto-a-comer), não só não faz a mínima ideia do que seja Cultura, como nem sequer conhece devidamente as Culturas que nos estão verdadeiramente mais próximas e que mais nos influenciam e “explicam”, como sejam a francesa, a alemã (vade retro!…), a própria inglesa, mas sobretudo a espanhola, a italiana, a grega e, a bem ver, também a árabe (isto já para não falar na, em termos relativos, mais ignorada de todas: a própria cultura portuguesa!)…

  6. Lowlander diz:

    Caro Antonio Figueira,

    Suspeito que esse “French bashing” e mais resultado de uma americanofilia que anglofilia.
    Os britanicos, com excepcao dos circulos mais conservadores de direita no sul de Inglaterra, fora da grande Londres que sao uma minoria sobrerepresentada mediaticamente, apreciam muito a cultura francesa.
    Numa segunda analise acho que ou voce falhou o alvo ou entao essa gente que se intitula de anglofila falhou o pais que melhor personifica as suas taras pessoais…

  7. Luís Lavoura diz:

    Esta faz-me lembrar aquela que diz que os argentinos são italianos que falam espanhol, imitam os franceses e gostavam de ser ingleses.

  8. Luís Lavoura diz:

    Eu por mim acho que portugueses que só conhecem Inglaterra e França são muitíssimo limitados. Na Europa é fundamental conhecer a cultura alemã. A Alemanha é o país com maior sucesso e com maior dinamismo na Europa, desde já há muitos decénios, para não dizer séculos. É lamentável a ignorância crassa dos portugueses em relação à economia germânica, à ciência germânica, ao modo de vida germânico, etc. Só quem ignora a Alemanha pode ser anglófilo ou francófilo.

  9. P.Porto diz:

    Caro Figueira

    Em geral, este seu post reposiciona, ou esclarece, muito o anterior a respeito do tema. É fácil concordar consigo em alguns aspetos do que escreveu.

    Ainda assim, quando diz que em Portugal ‘grassa’ a anglofilia, é preciso dizer que o significado da palavra ‘grassar’ é difundir, espalhar, isto é, a anglofilia ainda não está implantada, desde logo não está implantada na mentalidade daqueles que convinha que já estivesse: os políticos. Mas é certo que está em expansão, e fica a esperança em algum momento a política reflita essa expansão.

    Mais dois desacordos. Os países do Sul da Europa não são anglófilos, basta perceber que só há poucos anos se voltou a difundir no sul da Europa a Maçonaria Regular, a anglófila, por contrapartida à predominante Maçonaria Irregular, a francófila. Por outro lado, o Sul da europa é palavroso, discursivo, deposita o seu futuro e esperanças nos apetites do Estado. Pelo contrário, no Norte da Europa, anglófilo, as pessoas sabem que podem progredir sem precisar da cunha do tio que é primo de um ministro ou secratário de Estado.

    Por fim, se os nossos monárquicos de 1910 fossem maioritariamente anglófilos, Portugal ainda hoje seria uma Monarquia. Mas não eram, eram estupidamente afrancesados. Assim se explica a sua derrota. Pela mesma razão se explica a derrota dos fundamentalistas republicanos que se lhe seguiram, também eles estupidamente afrancesados.

    Por fim, não somos assim tão maus. Já fomos muito, mas muito bons, sobretudo se pensarmos na dimensão populacional e territorial do país. Mas depois vieram as francesices, as do antes e do pós Revolução Francesa, e fomos decaindo mais e mais, tal como a França.

  10. is a bel diz:

    António,
    Tu conheces pessoas muito estranhas… Só assim se pode justificar esse teu ‘discernimento’ sobre o que leva alguns portugueses a serem monárquicos e a infeliz analogia com os ‘anglófilos’ e o que pensas serem as suas ‘Great Expectations’.
    Eu que sou portuguesa e portuguesa vou ficar, leio e gosto muito de Eliot, visto sempre que me apetece um clássico tweed (aliás um dos ícones de Coco Chanel), não sou anglófila nem francófila e talvez por isso não saiba se os republicanos (históricos ou não) acham que por termos um Presidente somos livres, e viremos a ser cultos e ricos como a livre, culta e rica República da …
    Belíssimo post (como sempre) e para acabar agradeço o link para o disco que não tenho.

  11. al diz:

    Faz bem matutar sobre os comentários. Eu leio na diagonal e escrevo do mesmo modo e depois é que noto as falhas.
    só hoje reparei, por exemplo, que considera que a Grande Fome da irlanda seria hoje um crime de genocídio. Bem… a grande fome foi provocada, como se sabe, por um fungo da batata que arruinou a colheita. Não houve qualquer qualquer intervençao estatal para provocar a fome… Pode ser, no máximo, um caso de crueldade a omissão de auxílio (que houve e não negligenciável) mas a omissão de então assemelha-se à nossa, no caso do Darfur, por exemplo, e não nos consideramos assassinos). É, de facto, «levemente» diferente de, de moso premeditado, amarrar uns camponeses aos molhos e abatê-los a balas de canhão «como exemplo» (sic) para os que desrespeitavam a república, ou guilhotinar uns milhares de aristocratas pelo mero facto de o serem ou, quanto à subvelação camponesa da Vendeia, apresentar um “plano de extermínio” (sic) na Convenção… (Existe, aliás, actualmente, na Assembleia Nacional francesa uma proposta de lei para que esse genocídio – é o termo usado – seja considerado como tal, oficialmente).
    Acho graça dizer que nem Furet chegou tão longe (parece que não gosta do atrevimento… Pois se há uma verdade, devidamente legislada e publicada!…) E, no entanto, devia estar habituado a defender a esquerda deste tipo de acusações atrevidas, pelo simples facto de que a esquerda sempre provocou massacres: os da revolução francesa (aquela coisita da Vendeia foram de 250 000 a 800 000 em 18 meses), os dos bolchevistas, os dos stalinistas, os maoistas, os dos khemers (começou há pouco o julgamento), os …
    Ah,o uso do termo genocídio aplicado a práticas do estado francês durante a revolução francesa não é meu. É usual no que se frefere aos massacres dos camponeses da Vendeia e é usado com alguma frequência para designar o massacre dos aristocratas.
    Ah, quanto ao Eça, desconheço o que seja a condenscendência com que diz o grande escritor Eça se referia ao que era então a mais poderosa nação do planeta. Quer ilustrar?

  12. al diz:

    Escrevi à pressa, antes de sair e o comentário está cheio de lapsos,
    repetições, etc.
    Ao autor do post comentado e a quem leu o comentário, as minhas desculpas.

  13. ezequiel diz:

    comme toujours je viens faire mon tour chez toi et te saluter

    N`oublie pas le article à propos de Arendt!

    “Les murs finissent en nuit noire” (celan)

  14. Só para dizer que, na minha modestíssima opinião, quando o António escreve com anglicismos ou francesismos ou …, eles terão conta, peso e medida.
    Já a Fernanda Câncio, lamento, parece-me que exagera nos coloquialismos americanos, sem necessidade absolutamente nenhuma. Pergunto-me, eu que nunca a ouvi, se falará como escreve.

  15. CARLOS CLARA diz:

    BRAVO, ANTONIO FIGUEIRA
    Gostei mesmo!
    Só fiquei com uma dúvida. Aquela classe que no sec. XVIII , XIX e começos do XX que tocava piano, fala francês e sobretudo falava francês quando a “criada” estava presente, terá alguma coisa a a ver com a classe de hoje que envia os meninos para Inglaterra a tomar sotaque e fala “amaricano” na presença das “mulheres a dias”? E tocarão eles gaita de foles?

  16. Jheniifer diz:

    Vcs são locos ;DD
    U.u’

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